Eu, futura emigrante supostamente qualificada me confesso

Diz Bruno Faria Lopes, neste texto, algo que eu já tinha percebido mas que aparentemente vai contra tudo aquilo que as nossas “elites” querem transmitir. Ou seja, que Portugal é um país de pequenos génios que não tendo apoio suficiente são obrigados naquilo que é considerado um esforço hercúleo a deixar o país e ir para ambientes tão hostis como Inglaterra, Suíça, Alemanha etc.

E cito:

E assim chegamos ao segundo mito: sem a crise económica não perderíamos a nossa “geração mais qualificada de sempre”. Não é verdade. Sem crise Portugal teria menos emigração jovem qualificada, mas mesmo assim sofreria uma taxa significativa de “brain drain”. Joana Azevedo, investigadora do CIES/ISCTE, explica que em inquéritos feitos a jovens portugueses na Irlanda (alguns a trabalhar, por exemplo, na Google) percebeu que o desemprego não foi a causa principal de saída. O motivo foi a procura de uma cultura de trabalho mais centrada no talento, menos hierárquica e com mais gente boa, onde se pode aprender mais e ganhar um salário mais alto. As pessoas com mais impacto potencial na economia (o que restringe a definição do termo “cérebro”) saem não tanto por falta de oportunidades em Portugal, mas por falta de oportunidades boas, criadas não só pela economia mas também pela cultura laboral e de gestão. Não há suficientes chefias boas a ensinar. A gestão é hierárquica e motiva pouca participação. Os salários são baixos e mal distribuídos face ao topo. As gerações que educaram os jovens com um foco excessivo na auto-estima dominam um ambiente de trabalho que hostiliza as expectativas emocionais e profissionais desses mesmos jovens

Ao contrário da tendência, eu não considero que emigrar seja o futuro dos desgraçadinhos. Percebo que esta seja uma posição pessoal pois a maioria das pessoas não gosta da ideia de deixar o país, a cidade, os pais etc. Como é evidente, também me custa imenso a ideia de deixar a família para trás mas ao contrário da maioria das pessoas eu não quero emigrar por necessidade. Não, não. Eu quero mesmo ir-me embora. E passo a explicar porquê, pois parece que agora é moda contar a experiencia pessoal, inclusive em cartas ao Primeiro-Ministro que depois são divulgadas na net como aquelas correntes em que se a pessoa não reencaminhar dentro de 10 segundos morre com um raio na cabeça. Como sou uma pessoa realista e não penso em termos de “e se” no momento em que decidi ir para História, percebi que automaticamente me tinha de ir embora. Não necessariamente pelo curso em si. É verdade que História tem pouca empregabilidade e é verdade que as pessoas nos primeiros tempos olharam para mim como se tivesse sarna. Eu percebi que me tinha de ir embora porque os arquivos britânicos não são em Portugal e o Escorial fica em Madrid e se Deus quiser, (ou outra qualquer entidade do género. Não sou esquisita) vou precisar muito dos dois no futuro. Mas mais do que isso, custa-me sinceramente a ideia de continuar a viver sempre no mesmo sítio. Custa-me a ideia de sair à noite e não puder beber um bloody mary no Café Rouge. E custa-me ainda mais a ideia de que nunca vou conseguir apanhar o comboio em Paddington para ir para Oxford.

Isto para dizer o quê? Que de facto podia ficar em Portugal. Depois é provável que passaria a vida a queixar-me: no meu país não me valorizam, não tenho dinheiro para viagens ao estrangeiro (que chatice, logo agora que tinha de ir a Simancas pá), eu que tinha tantos sonhos e olhem para mim agora com sete filhos não vou sair de Portugal. São escolhas. Eu respeito quem quer ficar. Mas também peço por tudo que não me tratem como uma coitadinha que não tem condições para ficar a trabalhar em Portugal. Se não tenho dúvidas que a maior parte das pessoas que emigra, o faz por necessidade, muitos outros emigram porque querem, porque os objectivos de vida, sejam eles quais forem, passam por conhecer outras experiências. Mas este não figuram nas entrevistas porque fica muito melhor dizer: É que no meu país não me davam emprego logo fui obrigada a vir para… (introduzir país). E ainda há outros, para quem este post é na realidade direccionado, que tiram cursos de engenharia espacial e querem continuar a viver no Montijo. Continuamos a perpetuar um chavão em relação à emigração que é a ideia do desgraçadinho. Eu percebo, tem a ver com a nossa História: Coitadinho do Zé Tavares que foi para a Índia com o Vasco da Gama nem sei se está vivo ou morto. Mas se pensarmos bem no mundo que estamos a construir, a emigração ou o trabalhar noutro país, vai-se tornar cada vez mais comum. É inevitável. Pode não ser agora, nem daqui a 10 anos, nem talvez no meu tempo de vida. Mas é um processo que se está a construir. E em Portugal há um estigma positivo em relação à emigração. Não é bem positivo. É o espírito do coitadinho. Que é uma coisa que as pessoas até gostam de ser. Eu não. E acho que qualquer emigrante que o goste de ser, apesar de todas as desvantagens, (que as há e muitas) se sente vexado por ser constantemente apelidado de coitadinho. Eu sentiria.

Comments


  1. Desculpe, mas está a fugir à questão de fundo, a de princípios, que é a que interessa aqui.

    Sendo que este seu comentário vem na sequência do conselho dado pelo PM e pelo Sec. Estado da Juventude, tudo muda de figura:

    1- eu emigro, se isso for do meu interesse;

    2- eu aconselho os meus filhos a emigrar, se isso for do seu interesse;

    Não é porque o PM do meu país me diz para sair da minha zona de conforto.

  2. cristianpp says:
  3. Daniela Major says:

    Ana, este texto não vem em resposta ao que o PM diz ou deixa de dizer. Aliás, este texto foi escrito muito antes do PM ter dito o que disse e foi o artigo do Bruno Faria Lopes que me fez publicar o texto. Eu emigro porque quero, porque gosto e porque não vejo isso como um “abandono ao país”. Se quiser mesmo ver uma resposta nisto, então seria uma resposta aos iluminados da nossa sociedade que vêm na Emigração o flagelo dos tempos modernos e uma consequência directa e absolutamente necessária da crise.

  4. Lagartices says:

    Daniela,
    Com todo o devido respeito e consideração. “Emigrante” é quem é obrigado a saír do seu País para pagar o pão, não para quem “Quer fazer parte do Mundo”. Nada contra, como é óbvio mas não confunda com quem “quer ir” e com quem “é obrigado a ir”. Conheço tantos dos 1os (felizes e contentes) como dos 2os (tristes e com saudades).
    Ainda bem que pertence aos 1os. Desejo-lhe muita prosperidade! 🙂


  5. não confunda com quem “quer ir” e com quem “é obrigado a ir”. e quem se desilude ao ir
    há muito mestre e doutor a limpar laboratórios

    e sociólogas em janelas em Amsterdão…profissão altamente remunerada
    tamém há uns sociólogos com fatos de marinheiro

    e tipos com cursos de história a encerar o ladrilho de museus

    no luxemburgo há uma psicóloga que faz faxina há 10 anos…mas vem sempre de Mercedes a Portugal…é consultora de resíduos domésticos presumo…

    aqui tamém havia professoras brasileiras que vinham fazer de mulher a dias ou a noites para o patronato português
    o pinto da costa ainda tem uma…

  6. Pedro M says:

    Não me preocupa que saiam pessoas, preocupa-me que não regressem, preocupa-me que estejamos a oferecer trabalhadores qualificados que nem um cêntimo de impostos custaram ou vã custar aos países que os acolhem, preocupa-me que se esteja a menosprezar o facto de que a saída em massa de jovens, responsabilidade dos políticos que elegemos, seja o prego final na nossa descida à cova.

Trackbacks


  1. […] outro lado, o Carlos Fonseca chama vil à política do governo ao mesmo tempo que a Daniela Major assume que deseja emigrar mas ressalva que essa vontade pouco tem a ver com os actuais […]

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.