Prova de aferição: fácil? Complicada? Ou antes pelo contrário

Vai boa a discussão sobre a Prova de Aferição.

De quando em vez aparece toda a gente a mandar umas postas de pescada sobre o que não sabem, fingindo-se conhecedores de áreas que ignoram. Mas se eu posso falar de bola, também eles podem falar de educação matemática.

De uma forma ou de outra os lugares comuns levam a conversa para o “no meu tempo é que era”. Diria que as coisas são um pouco diferentes de facto. Vejam o exemplo disponível na imagem e que é um dos exercícios da prova de hoje.

Provavelmente muitos dos leitores terão dificuldade em resolver, mas o importante aqui é explicar que o conceito matemático presente  está muito para lá do algoritmo, da “simples conta de dividir”. Neste caso, o aluno deverá entender a divisão como uma operação que até permite “ter mais” – no nosso tempo dividir era “ficar com menos”. Se calhar, no nosso tempo seria apenas para fazer uma conta de dividir.

Esta imagem mostra um outro exemplo. É para si, caro leitor fácil entender esta forma de apresentar a informação?

Consegue, por exemplo, dizer “qual foi o menor número de alunos que visitaram a biblioteca num dia?”

Quero com estes dois exemplo – poderiam ser outros (sugiro que tente realizar a prova) – mostrar que a questão não se pode colocar no “meu tempo é que era”.

Sem qualquer tipo de arrogância, qualquer miúdo de 10 anos sabe hoje muito mais do que qualquer um de nós com a idade deles. São conhecimentos divergentes dos escolares?

Provavelmente, mas quando eu decorei, em 1982, os nomes de todos os jogadores das equipas do mundial de Espanha não deveria estar a correr atrás de aplausos dos meus professores…

Comments

  1. maria celeste ramos says:

    Acho que este tipo de teste é mesmo idiota

  2. Paulo Gomes says:

    Não percebo porque “qualquer miúdo de 10 anos sabe hoje muito mais do que qualquer um de nós com a idade deles” (eu acharia óptimo que isso fosse verdade, mas não vejo na sua argumentação nada que justifique tal conclusão). Eu também estive a ver a prova e concordo que ela tem várias questões interessantes. Resta saber quantos alunos darão uma resposta correcta. No primeiro caso, há infinitas soluções. Talvez no seu tempo, uma divisão significasse sempre “ficar com menos”. No meu, não. Isso significa possivelmente que o ensino já se tinha degradado, neste aspecto, entre o “meu tempo” e o “seu tempo”. O que não consigo perceber de todo é em que medida o conhecimento e domínio do algoritmo da divisão dificultaria a resposta a esta questão. No segundo, não percebo qual o interesse de utilizar um gráfico de caule-e-folhas, em vez de uma simples lista. Introduzir a moda a este nível parece-me um perfeito disparate. Deve ser porque passei pela primária há muito anos e portanto sei poucochinho.

  3. Alfredo says:

    Fiz a prova e patinei no diagrama-de-caule e folhas. O irónico é que a minha formação é em… matemática e ciência de computadores.

    Penso que a prova estimula mais o raciocício do que há 30 anos, quando eu tinha a idade dos alunos que agora a fizeram. Falta é saber os resultados.

    Só não percebo a utilidade de alunos do primeiro ciclo tomarem contacto com rudimentos de probabilidade e estatística, mas não quero meter a foice na seara dos pedagogos.


  4. Eu achei a prova facílima para o grau de exigência que tenho visto nos trabalhos de casa.

    Só há duas coisas que me fazem confusão: a inclusão de problemas com múltiplas soluções (são, pelo menos, três destes) e critérios de avaliação perfeitamente asininos, como no caso do problema 4, em que, existindo apenas uma resposta correcta, sendo-lhe atribuída o nível máximo (código 11), ainda é “premiada” a asneira em três graus distintos – uma asneira é uma asneira, e o código devia ser o 00 para qualquer uma das outras…

  5. João Paulo says:

    #1 Celeste, este tipo de provas tem, repito a sua utilidade. São um bom espelho do sistema.
    JP

  6. João Paulo says:

    #2 Paulo, obrigado por ter comentado. Quando me refiro aos conhecimentos de hoje e aos conhecimentos de ontem, não me enquadro apenas na área dos conhecimentos formais, tal como fica claro (digo eu) na forma como termino o post.
    Ontem havia uma maior proximidade entre o que a escola oferecia e o que se aprendia, apenas e só porque nada mais havia para aprender. Fico sempre impressionado com a capacidade que a geração do meu pai tem de citar, palavra por palavra, os textos do livro da primária. Claro, não havia mais nada para ler…
    Hoje, há nos miúdos um enorme conhecimento a vários níveis, seja no contacto com a língua inglesa, com as tecnologias, com a capacidade de decorar nomes de bonecos e de personagens, de cantar e dançar ao som das “suas” músicas, de trabalhar língua portuguesa e história, a matemática, as ciências que aprendem na tv… Se calhar são os meus olhos optimistas de os “ter” diariamente há uns tempos…
    Saber dividir, multiplicar com algoritmo é algo que exijo! Têm que saber e ponto final. Concordo consigo. O que tentei explicar é que se pode ir para além disso, para um grau diferente de exigência.
    Quanto ao seu e ao meu tempo, se calhar, não sei…

    O gráfico… pois, boa pergunta. Nem eu.

    Eu nunca quis dizer que hoje é que sim e ontem é que não. Nem isso, nem o seu contrário.

    Obrigado por escrever,
    JP

  7. João Paulo says:

    #3 Alfredo, obrigado por ter tentado realizar a prova. Há de facto uma forma diferente de apresentar os exercícios e há também uma forma muito diferente ao nível das competências que se exigem aos pequenos. Tenho a impressão que vai haver um número significativo de alunos com notas menos boas, sendo que os critérios do MEC para as corrigir são SEMPRE uma coisa bem simpática, ou seja, a realidade é sempre pior do que as notas nos vão mostrar.
    Mas o meu palpite é que a fotografia não vai ser bonita.

    Quanto à entrada pelas probabilidades e pela estatística, em todo o mundo isso acontece há uns anos. Perceber conceitos como “acontecimento certo, provável, muito ou pouco provável” são questões abordadas tal como a leitura de gráficos de barras e circulares. Hoje, os de caule-e-folhas, completamente ignorados nas escolas foram uma surpresa.

    Abraços,
    JP

  8. João Paulo says:

    #4 Obrigado por ter comentado, subscrevo integralmente parte do seu comentário – os critérios de correcção do MEC são sempre uma coisa inacreditável.
    JP

  9. Tiro ao Alvo says:

    João Paulo, “à uns tempos…,” como você escreveu, é erro de palmatória, para usar um termo politicamente incorrecto…
    Será por isso que o amigo não gosta de exames?


  10. O meu filho de 9 anos efectuou a prova do 4º ano e ele é um excelente aluno a Matemática e teve dificuldades na número 6.
    Segundo ele, na sala dele ninguém acertou nesta.

  11. Ricardo Santos Pinto says:

    Claro que um miúdo de 10 anos sabe muito mais hoje do que nós sabíamos com a idade deles – basta contactar diariamente com alunos para perceber isso. Mesmo que – e isto não é contraditório – o sistema de ensino seja hoje menos exigente do que o nosso. Com todos os meios que têm à disposição, desde a televisão à internet, não admira que seja assim.

  12. eyelash says:

    relativamente ao comentário #4, gostaria de esclarecer que não há qualquer prémio para além do código 11, pois os outros códigos apenas são considerados para estatística e não atribuem pontuação.

  13. João Paulo says:

    #9 Em cheio 🙂 Acontece aos melhores e aos piores, claro 🙂 obrigado pela correcção. Quanto aos exames, sim ou não, o meu ponto não é ser a favor ou contra. O meu ponto é: mas eles servem para quê? É mais isso.
    JP

  14. Mara says:

    Gostaria de perceber como é que numa prova se colocam representações de dados que não constam nos manuais de 4º ano adotados. Mesmo que a meio do ano se lembrem que isto devia estar incluido no programa (o que tambem me parece estranho). Se não consta do manual nunca deveria ter sido escolhido para avaliar se os alunos sabem ou não analisar gráficos.

    Por outro lado parece-me muito estranho esta representação gráfica ter sido a “eleita” pois grande parte dos estatísticos não sabem o que é nem a usam para nada. Agradecia que confirmassem em artigos científicos de vários campos que não é usado muito frequentemente.

    Já agora relativamente á prova de Lingua Portugesa gostei dos textos científicos. Parecem-me bem despropositados e já agora com erros científicos. quem é que me explica qual a interação da penicilina com a molécula da água? É que a penicilina é insoluvel em água!!!!!!!!!!!!!!! Por isso é que as injeções de penicilina doem tanto meus senhores.

  15. irene rocha says:

    O meu filho achou a prova muito fácil, quando saiu as notas no agrupamento de escolas de Aver-o-mar, póvoa de varzim, noto que tinha tirado D, pedi a cópia da prova e vi que tinha uma excelente prova. Mostrei a prova a outros professores que consideraram uma vergonha o sucedido. Passado um mês e após vários contactos com o GAVE não corrigem o erro, descartando responsabilidades. Assim há uma grande percentagem de negativas. Pergunto, em quantos alunos não terá acontecido este erro? Estamos a pôr em causa os bons alunos desmotivando-os com atitudes destas de prepotencia por parte do GAVE e do Sr. Ministro por não se interessar pelo o assunto e incumpetência por quem corrigiu esta prova,que não teve o devido interesse em salvaguardar a sua reputação e tentar corrigir o erro que cometeu, que foi o agrupamento de escolas de custóias aonde foi corrigida esta prova e também pedi esclarecimentos, o qual me respnderam que estava tudo bem.
    Estamos num país à deriva, que mais pode acontecer aos nossos alunos?

Trackbacks


  1. […] Já aqui se procurou equacionar as dificuldades dos alunos em torno da prova de aferição de matemática do 4º ano (antiga 4ª classe). […]


  2. […] não faz qualquer sentido! Ou será que faz, considerando a prova que foi feita? FacebookMaisShare on TumblrEmail Filed Under: vária Tagged With: avaliação, educação, ensino […]

Responder a João Paulo Cancelar resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.