Carta à mulher do presidente

(Já lá vão uns anos, mas é sempre actual )

Minha Senhora, estava eu a jantar quando vi no telejornal as imagens do bombardeamento sobre a aldeia de Korisa.

Imagens da vossa bravura, imagens da coragem e determinação do seu marido.

Corpos carbonizados, dilacerados, fumegantes, esventrados, cabeças estouradas, pedaços de vida feitos em pedaços de carne morta.

Cem pessoas abatidas e muitas outras feridas gravemente, enquanto o diabo esfregou um olho.

Cem inocentes que Deus sacrificou às mãos de quem tanto reza, cem refugiados a caminho da longínqua esperança, olhos postos no fictício horizonte da solidariedade humana.

Cem pares de olhos brutalmente arrancados à luz, entre eles olhitos de crianças com corações pequeninos a bater dentro do peito, iguais ao coraçãozito da sua filha quando batia mais apressado, lembra-se?

Mal vi estas imagens corri ao quarto dos meus filhos e dei com eles todos esquartejados, cabeças para um lado, pernas e braços para outro, o quarto era um mar de sangue!

Felizmente, o pesadelo durou apenas alguns segundos mas fiquei com o cérebro esburacado durante toda a noite.

Nunca tinha reparado bem, mas os meus filhos eram iguaizinhos a todas aquelas crianças.

Não sei o que me deu, mas fiquei aterrorizado, tive tanto medo minha Senhora!

É que a seguir a estas tenebrosas imagens aparece de imediato na TV, posando sorridentemente para uma espécie de foto de comunhão solene, uma catrefa de monstros, e eu pensei que estava no inferno, rodeado de demónios.

Aquele medonho friso de máscaras humanas, tendo como sombria antecâmara a ignara maciez da face de um tal porta-voz, isolado, a garantir a divulgação do resultado de uma investigação em curso!

Deu-me a impressão de que ele estava em minha casa, que tinha arrombado a minha porta ali na minha frente, minha Senhora!

Mas o pior é que aparece, logo a seguir, o seu marido com aquela cara de…como lhe parece a cara do seu marido?

A mim não é bem a cara que me mete medo, mas a prepotência, o descarado unilateralismo e a já bem adulta supremacia militar permanente, que ele esconde por detrás daquele ar um tanto despeitado, talvez por não o terem deixado acabar as suas tarefas.

Mas não se preocupe demasiado minha Senhora, ele está arrependido do seu miserável pecado e faz por cumprir religiosamente a penitência, bombardeando de outro modo e bombardeando bem.

Minha Senhora, num daqueles momentos mais íntimos,- esqueça lá o que se passou -, pergunte ao seu marido quantas criancinhas é preciso matar para atingir o desenvolvimento tecnológico que permita assegurar que as forças de amanhã continuarão a dominar qualquer tipo de operações militares.

E se, com umas pitadinhas daquela coisa que vocês inventaram e transformaram num monumental barrete para os desiludidos da disfunção eréctil, puder arrancar-lhe uns segredozitos, veja se sabe quantas aldeias é preciso arrasar para enfrentar as ameaças contra a segurança da nação, quantos estropiados é preciso fabricar para atingir os tais 331 mil milhões de dólares necessários ao reforço da tendência para a acção unilateral.

Quantas Sérvias é necessário sacrificar para preservar a supremacia militar face a todos os adversários possíveis e imagináveis, e considerar que as forças armadas estão prontas para enfrentar os desafios do próximo século, continuando a ser as mais bem sucedidas do mundo.

Quantas televisões é necessário silenciar, quantas megabombas, bombas inteligentes, bombas de fragmentação e bombas de grafite (o novo lápis da megacensura) é preciso lançar sobre a Sérvia, sobre a Europa, sobre o Iraque e sobre o resto do mundo para atingir a suprema censura planetária.

Ao lado dele, o inglês! Brrr!!!

O canal da Mancha tão perto! Como é que eu não haveria de correr ao quarto dos meus filhos? Eu não tenho medo dele, propriamente dito, nem das suas metralhadoras.

Até me parece uma daquelas pessoas que ao descongelarem, isto é, ao perderem o poder, se desfazem em merdífera cobardia.

Eu tenho medo é da monumental carapaça de ódio, cinismo, crueldade, arrogância e desumanidade com que ele abastece os aviões que lhe puseram nas mãos.

Minha Senhora, quando estiver com ele num daqueles chás em que vocês falam dos 10,5 mil milhões de dólares necessários à pesquisa do sistema de defesa nacional antimíssil, e passam a mão pelo lombo dos cãezinhos numa manifestação de sensibilidade e ternura, lembre-lhe o pequenino dorso das criancinhas que ele ajuda a queimar todos os dias em bombardeamentos como os de Korisa.

E faça-o ver, ainda que ao de leve, a imagem virtual dos seus próprios filhos – aqueles que lhe dão um beijinho todas as noites – no meio dos ensanguentados destroços da caravana de refugiados – o diabo seja surdo cego e mudo.

A vossa Secretária vem logo a seguir na foto.

É-me extremamente difícil não ter medo desta mulher, não é fácil manter-me sereno porque ela encarna perfeitamente o papel que me parece ser o da mulher do diabo.

O diabo tem mulher, ou não seja ele o pecador major, não é como Deus!

Diga-me se eu tenho ou não tenho razão, mas sempre vi a mulher do diabo com uns olhos e um sorriso assim, não sei o que ela tem dentro do peito, se é uma pedra, um escorpião ou se não tem mesmo nada, mas é da sua eventual relação com o diabo que eu tenho medo, da autoridade com que o diabo a possa ter investido na planificação da fábrica de vítimas, da esterilização de sentimentos a que ele a submeteu, e dos estratagemas que na sua cartilha se destinam a tornar adversários políticos e militares do próximo século todos os povos que não se submetam, nomeadamente a China.

Tudo isto porque, enquanto única nação capaz de montar operações em grande escala em teatros muito distantes das suas fronteiras, o Estado ocupa uma posição única!

Minha Senhora, dá-se bem, penso eu, com esta Secretária da desgraça – ao lado dela o seu marido não corre perigo, descanse! -Pergunte-lhe, em tom de curiosidade, quantos kosovares, quantos sérvios, palestinianos, iraquianos e afegãos é preciso massacrar ainda, a fim de atingir o tal patamar essencial para assegurar que as forças de amanhã continuarão a dominar qualquer tipo de operações militares, unilateralmente.

O Secretário inglês, sempre sorridente para o parceiro do lado, numa obtusa postura de marioneta, aparente guardião das consciências podres, causa-me repugnância pela chocante transparência da sua estrutura que permite ver – ainda que a gente não queira – dentro da sua pessoa, aquilo que mais se assemelha a uma total ausência de moral.

Reforçar a capacidade para conduzir, à escala mundial, com o seu patrão, operações militares de forte intensidade no século XXI, deve ser o seu lema e o seu sonho.

Ca God o save!!!

O Secretário espanhol é terrível, porque não mete medo a ninguém, parece não ter cérebro, é uma espécie de alínea de um artigo condenatório de que o algoz deita mão naquele fatídico momento em que dela se lembra.

Apenas vai alinhando os vivos para que morram melhor.

Se o dono manda matar, ele ajeita a vítima e chega a arma, se não é para matar, ele recolhe a arma e diz à vítima que aguarde um pouco mais.

Minha Senhora, eu tinha muito mais coisas a conversar consigo, até porque – a despeito do seu papel e da sua posição nesta guerra miserável e nauseabunda -, me custa, perante a sua simpática figura, aceitar que faz parte duma família de monstros.

Naquele momento do telejornal pensei dirigir-me a si, pois convenci-me de que eu e a Senhora éramos ambos vítimas, ou melhor, pensei que os nossos filhos se encontravam esfacelados no meio dos destroços causados pelas bombas dos vossos maridos e daqueles hediondos amigos que eles arranjam.

Já pensou, minha Senhora, o que era ver a sua filha esquartejada, cabeça para um lado membros para outro, esventrada, exangue, sem qualquer brilho nos olhos, nem sopro de vida, com o tal coraçãozito palpitante que tantas horas de felicidade lhe deu, golpeado irremediavelmente, parado para sempre e sem nunca mais poder dizer: “mãe, gosto tanto de ti!”

Comments

  1. Excelente! Obrigada por partilhar caro Adão!

    Lamentavelmente poucas pessoas pensam assim. A grande maioria continua a achar-se cheia de razão ao soltar raivas e ódios bélicos, ao apoiar violências e atrocidades, ao atiçar guerras e chacinas…

  2. Miguel says:

    Minha senhora, minha senhora, minha senhora, minha senhora, minha senhora, minha senhora, minha senhora, minha senhora, minha senhora, minha senhora…

  3. Fiquei sem palavras face à intensidade da descrição. Por muito horrível nos pareça uma guerra, através dos jornais e televisão, este texto deixou-me mais próxima dessa realidade, que parece mais irreal…

  4. Augusta Clara Matos says:

    O Miguel acha excessivo? Só por ingenuidade se pode pensar assim. Pode crer que é ainda muito pior do que aí está escrito.

  5. MAGRIÇO says:

    Quem dera que na Terra os Adão Cruz estivessem em maioria!

  6. Se me permite, caro Magriço, faço minhas as suas palavras!

  7. Adão cruz says:

    Espero que este irónico Miguel não seja o meu amigo Miguel

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