Zorrinho ou o Franciscanismo Argumentário

Que se passa com Zorrinho? Por que motivo não foi capaz de elogiar uma frase de desprendimento político do Poder e de um cargo, vinculando o Primeiro-Ministro a essa espécie de compromisso com as suas próprias palavras: que se lixem as eleições?! Em vez disso, com uma falta de imaginação terrível, sem rasgo e sem estilo, desatou a construir inferências abusivas: se disse o que disse, o que quis dizer foi «que se lixem os eleitores», quando tudo o que transpôs os dentes de Passos é saudável, raro, e foi só isto: «Se algum dia tiver de perder umas eleições em Portugal para salvar o país, como se diz, que se lixem as eleições.» Zorrinho tinha a obrigação de reconhecer que nada há, nesta governação, que seja populista e eleitoraleiro. Muito pelo contrário. O que há é amargo. Sacrificial. Duro.

Porque Zorrinho conviveu demasiado perto com a mais infecta desmesura gananciosa do Poder como chave de corrupção e oportunismo, com a hubris mais ostensiva contra os interesses de Portugal, e com os excessos mais onanistas da imagem pela imagem, deveria confirmar que é o interesse do País acima de qualquer tentação eleitoralista o que move, e ai dele!, o líder deste Governo. Por isso é vaiado por uma minoria que se tem especializado na vaia ordinária. Por isso Passos é contestado em surdina e desespero por quem legitimamente desespera. Eu ficaria aliviado quando enfim um Governo se estivesse realmente, como treslê Zorrinho, «a lixar para os eleitores» desde que deixasse de lixar os contribuintes mais indefesos, as famílias mais desesperadas, os funcionários públicos, grande bombo fácil de todas as desleais correcções do défice.

Há por aí quem tente e deseje odiar Passos Coelho de todo o coração, com toda a mente e toda a alma, da mesma maneira que, espontânea e intuitivamente, milhões de Portugueses abominaram e abominam Sócrates por todas as boas razões do asco natural a patéticas peneiras e ao que é politicamente maligno e todas as más razões de tanto mal perpetrado contra nós. Tentam. Desejam. Mas não conseguem. É fácil perceber porquê.

Comments

  1. Nabão says:

    Está tudo bem e… não podia ser de outra maneira!
    Ámen!


  2. Está tudo bem senhor cronista, Só falta ir receber o pré!… Porreiro, pá!…

  3. Amadeu says:

    O palavrossaurus era bom para apresentador da televisão norte coreana.

  4. Armindo de Vasconcelos says:

    Confesso: há comentários que me deslocam a “costela da Areosa” para a diatribe ao mais puro estilo da Circunvalação. Então, conto até 10…
    Mas seja-me permitido,à laia de comentário, inserir aqui algo que publiquei no meu blogue pessoal. Acho que não fica mal de todo.
    As minhas desculpas!

    Mais uma acha

    Relvas foi flibusteiro, como terá sido Sócrates e Armando Vara. Ponto.

    Mas talvez seja da idade a circunstância de cada vez me lembrar mais do passado. De repente, dou comigo a reviver momentos marcantes da minha história pessoal, quanto mais antigos mais nítidos.

    Daí, o ficar cada vez mais cínico face a certos senhores da minha idade ou ligeiramente mais velhos e mais novos que, arvorando-se em salvadores da honra académica, deram consigo a bater desalmadamente no senhor Miguel, a assinar e propor petições, a exigir.

    Ora vamos lá por partes. Quem entrou na Universidade na década de setenta, quantas cadeiras fez por passagem administrativa? Uns acabaram cursos, outros apanharam-se sem saber ler nem escrever como pré-finalistas, finalistas. Outros, com menos sorte, aproveitaram, vá lá, o primeiro ou segundo anos desta forma.

    Lembro-me de que dois dos meus mestres, nessa idade de conquistas revolucionárias, foram várias vezes ao meu emprego (completei o liceu e entrei na faculdade como trabalhador estudante) com o argumento de que era estúpido eu não aproveitar a maré: “Matriculas-te, basta isso, e fazes os três anos que te faltam para a licenciatura sem um exame. Claro que tens de ir a umas AG de alunos, fazer umas vigílias, participar em RG… Mas isso é o menos, apareces, sais com umas palavras de ordem, tu até tens jeito para falar em público”. E, cumulativamente, poderia aproveitar, se a mama secasse, o facto de ter feito o serviço militar para usufruir de épocas especiais de exames, penso que de dois em dois meses poderia requerer exame a uma cadeira (penso que sim, mas não sou peremptório; se não eram dois, eram três).

    E quase me seduziram, não fossem os princípios. Sim, naquela idade, os meus sonhos eram revolucionários, mas de outra índole. Era mais de paixões do que de sensatez. Sempre gostei de viver com independência, pela minha cabeça (que nem sempre regulou bem, convenhamos, e me trouxe alguns problemas ao longa da vida), e a ausência de regras funcionava para mim como a permissividade na formação de um adolescente, deixava-me frágil, desprotegido. Feitios!

    Nunca fui “Dr.”, mas hoje, vítima dos abusos do poder dito democrático e da sua ausência de coerência, penso que este país merecia que eu tivesse dito “sim” e teriam de me pagar, hoje, não a parcimoniosa pensão que aufiro, mas uma reforma para aí do triplo ou quádruplo, que, graças aos meus pais que me fizeram assim e a Deus que me deu a bênção, não sou de deitar fora em termos de competência, capacidade de trabalho, sou plurifacetado para diversos misteres, e com inteligência suficiente para ver as coisas de forma expedita e tranquila.

    Não quis ser naquelas circunstâncias e daquela forma (estúpido, penso eu, hoje, destituído de todo o romantismo), socorro-me desta veia e desta memória para me rir um pouco das manigâncias de uns espertalhões que ainda estão a pensar nas coisas e eu já a ver como elas vão acabar. E estou-me marimbando (perdoem-me o termo, mas, se Sua Excelência o Senhor Primeiro Ministro pode usar termos deste léxico de cordoaria, eu também posso) para os títulos de pacotilha, para as resmas de tratados, aleivosias de académicos, centenas de milhares de licenciados que nem escrever sabem. Je me fiche pas mal.

    Mas, como tenho a puce à l’oreille, gostaria de ver o registo académico de, pelo menos, vinte a trinta por cento dos que criticaram o Senhor Miguel. Ressalvo aqui as honrosas excepções de muita boa gente que o fez em defesa de valores superlativos. Será que os seus lustrosos títulos académicos não chegaram para lhes fazer ver que, pelo facto de criticarem um pacóvio megalómano, um provinciano com a mania das grandezas – tal como Relvas (o Miguel), também Sócrates (o José) e Vara (o Armando), entre outros, sofriam deste complexo de inferioridade intelectual e de chico-espertismo -, conseguem branquear a sua própria história ou mascarar os seus complexos saloios?! Ou, simplesmente, ficaram enraivecidos (ou raivosos) por não terem descoberto a pólvora ou o ovo de Colombo?!

    E, sim, por mais despudorados que sejam os nomes que me atirem à laia de insulto pelo que escrevi, só me insulta quem eu deixo. Estou-me olimpicamente borrifando para quem se esconde atrás da azia para atirar pedras à história. Far-me-ão lembrar aqueles da “segunda circular” que se entretêm a insultar os dragões que vão papando títulos com a serenidade de quem escreve pelas suas mãos – e não à sombra do regime – o futuro. Ainda que com erros de percurso! Pecados de circunstância! Mas o poder conquista-se assim.

    … E a caravana passa!

  5. maria celeste ramos says:

    Já me tinha esquecido dessa de “passagem administrativa” – pena não pude aproveitar – se calhar a ministragem que decide da nossa vida vem desse glorioso tempo – por isso os Zurrinhos andam todos ao ZURRAR – tem de haver uma razão para o que nos “dão e tiram” – só não entendo qual – ao menos o derreter da gronelândia é mais visível

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