postal de uma cidade que poderia ser Coimbra

Catalogamos as coisas pelo pouco que vimos delas, ou pelo que intuímos. Por isso, para mim, e embora nada tenha a ver com o que dela se conta, Coimbra é uma cidade exótica e descarada. Imagino que estes homens de pele tão morena que vieram abrir uma mercearia nestas ruelas podem ser descendentes dos mercadores de Samarkanda, a cidade onde até a morte se passeia pelo mercado. Ruelas de mercearias que podiam ser bazares, a transbordar laranjas e tecidos para a rua. Largo da Maracha, rua das Azeiteiras, rua do Almoxarife, beco dos Esteireiros, travessa dos Gatos.

Um senhorio velhote, invariavelmente chamado sr. Marques, conduz-nos pelo labirinto de ruas até ao prédio em ruínas que o seu pai lhe deixou, para mostrar-nos a casa sombria, com lixo amontado aos cantos, portadas de madeira carunchosas na janela, uma cama onde morreram gerações, uma banheira onde corre um rio de cobre.  Tem orgulho na casa e pede um bom dinheiro por ela. Que ninguém lhe diga que a casa é velha e suja, que a humidade alastra nas paredes e que há um cheiro a bafio que nos deixa nauseados.  Para os senhorios de Coimbra, os tais homens chamados Sr. Marques, que têm montado um “escritório de papelada” ou se dedicam à venda de atoalhados, nenhuma casa se compara à que têm para alugar e nenhuma cidade supera Coimbra.

E quando, cansados da decrepitude da baixa ou do inexplicável pedantismo da Fernão de Magalhães, vamos sentar-nos na praça do Comércio, já sem esperanças de encontrar o que buscávamos, vemo-la a ela. Atravessa a praça com um vestido muito curto. Primeiro reparamos nas longas pernas, tão louras como ela, e depois o vento faz esvoaçar o vestidinho curto e vemo-la, caminhando de costas para nós, sem cuecas, com o rabo magro e flácido à mostra. Imperturbável, apesar de sentir como o vento lhe descobre o rabo para a praça toda. Imperturbável, apesar da cara de espanto da turista com cara de inglesa que está a vê-la de frente.

Coimbra não é só decrépita nem exótica nem descarada, já sei. Mas também o é, e é sempre disso que me lembro quando regresso, e encontro uma cidade onde faz sempre demasiado calor, e onde eu sinto sempre sede e nostalgia não sei bem do quê.

3 comentários em “postal de uma cidade que poderia ser Coimbra”

    1. nem pensar, este postal é antigo e da última vez que fui avisei-te, os nossos horários é que não se entenderam

  1. Da forma confesso que gostei, gostei muito, quanto ao conteúdo lisboeta me confesso e não me pronuncio.

Responder a Carla Romualdo Cancelar resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.