Angela, chancelerina

Não vou receber-te de negro, porque, sinceramente, mulher, não mereces que eu me ponha de luto, que entristeça os meus dias e lance sobre eles a tua sombra de morcego hamburguês. Receber-te-ia, isso sim, com um punhado de bosta quente, perfumada com os aromas da terra, do trigo e da merda, que haveria de acertar-te em cheio na franja dourada de garnier nº 80, mas já sei que estarás entrincheirada, longe dos gritos e dos arremessos, nos gabinetes de janelas fechadas daqueles a quem não elegemos para que fossem teus serviçais, mas que a isso escolheram reduzir-se.

Angela, chancelerina, se viesses em paz eu podia levar-te à casa de modas Fernandes e Irmão, onde se vendiam saias-casaco dos que a ti te agradam, verde azeitona-de-martini, ombreiras exageradas, cortes quadrados, cintura muito subida, com a intenção falhada de favorecer bustos generosos e disfarçar ancas largas, mas também é certo que a loja fechou há pouco e nem os ciganos quiseram rematar o lote. Não importa, afinal, porque tu também não vieste em paz, a tua visita é parte da cedência que temos de fazer aos nossos amos.

De nada serviria contar-te como vive esta nossa gente, porque tu não vieste para condoer-te, nem para ouvir os testemunhos dos que para ti são unicamente itens de tabelas, uma linha decaída num gráfico, consumidores agora deprimidos da pujante indústria alemã, nem te iludes com uma saudação popular que em lado algum vais receber, porque tu não és romântica nem te move o desejo de ser amada pelas multidões. Tu, Angela, chancelerina, és uma teutónica pragmática, sacerdotisa do Geschäft ist Geschäft, e por isso vens acompanhada da matilha de cavaleiros da indústria a quem amadrinhas. Virão todos foçar as ruínas do país, descobrir, a brilhar entre os destroços, alguma peça de valor, para comprá-la ao desbarato, e apanhar depois o avião para Berlim com a satisfação de quem passou uma manhã nos saldos e voltou para casa com os sacos cheios de coisas em conta.

Dizem que trazes umas quantas bolsas de estudo para distribuir pelos mais brilhantes dos nossos jovens, qual flautista de Hamelin que nos leva o melhor que temos, não para castigar uma promessa por cumprir, mas como tributo pela incapacidade de quem nos tem governado.

Mas fora do perímetro de segurança que os teus serviçais mandarão erguer para que não sejas importunada, haverá gente que, tarde ou cedo, terá voz. E ao julgamento dos olhos que do futuro nos observam não escaparás, Angela. Há-de saber-se que gerações inteiras foram sacrificadas para que uma elite perpetuasse o seu lucro, e que houve um tempo monstruoso em que o dinheiro se impôs à vida, tal como monstruosos nos parecem agora os esclavagistas ou os inquisidores.

O clamor dos povos é, por vezes, como esses movimentos da crosta terrestre que começam imperceptivelmente – uma vibração, um sussurro, um estremecimento – e se estendem sob a superfície do que vemos, ampliam-se até irromperem com o ímpeto que ninguém até aí pudera prever. Poderás pensar que esse clamor será abafado, mas enganas-te, Angela, e só o saberás quando a terra tremer sob os teus pés.

Sairás daqui, chancelerina, sem ver os rostos desta nossa gente, mas esses olhos estão cravados em ti e em todos os que a cada dia nos traem. A mesma gente de quem dizia uma luminosa poeta deste país “que tem o rosto desenhado / por paciência e fome / é a gente em quem / um país ocupado / escreve o seu nome”.

O tempo das chancelerinas que impõem a sua vontade sobre quem não as elegeu acabará, como sempre acaba o poder injusto e iníquo, por muito sólido que pareça em certa altura, e o teu nome será só mais um na lista dos que um dia pisotearam os direitos dos povos, e acabará por perder-se, como acontece a todos os burocratas que escolheram pôr-se ao serviço da avidez e da injustiça.

E nós que te esperamos, Angela, podíamos dizer-te como os gregos, que não chores por nós, mas preferia lembrar esse mesmo poema de Sophia e dizer-te que renovamos o nosso canto e recomeçamos “a busca de um país liberto / de uma vida limpa / e de um tempo justo”.

Vai-te despedindo, Angela, o vosso tempo chega ao fim.

Comments

  1. xico says:

    Conheci um miúdo que foi aos ninhos e caiu da árvore partindo a cabeça. No hospital chamava nomes às enfermeiras que o picavam e lhe davam amargosos remédios…a enfermeira ainda lhe disse: se o menino quiser, não venha cá. Vá para casa e peça à mãezinha que lhe dê muitos beijinhos no dói dói, a ver se passa!

  2. piet says:

    ò grande poeta, não nota o sexismo e a infantilidade naquilo que escreve? Acha mesmo isso adequado á situaçåo? Eu tinha vergonha.


  3. Sentido de humor minha gente! Sentido de humor, que isso ao menos ainda não paga imposto! Bom texto! Com humor, com poesia, com emoção. O que nos falta é emoção! A ver se descobrimos forças para partir a grilhetas!


  4. Texto genial! Muito bom mesmo. Partilho.

  5. João Proença says:

    Acho que o momento não é de poetisas que se deviam informar antes de abrir a boca, ou escrever o que lhe vem à mente. O tempo é para se fazerem as coisas com uma palavra que mete medo e repulsa aos portugueses que é: RIGOR… Conhecem algum povo mais rigoroso que os Alemães??? Não pois não? Então ainda bem que eles dependem do nosso sucesso para escapar à “invasão” que aquele povo mais teme e que está à porta… O que proponho é que se informem antes de se armarem em cultos porque minha gente, o português é muito pouco cultivado e os que se começam agora a cultivar tornam-se incoerentes. Já não há pachorra para gente que se queixa da doença, não conhece nenhuma cura nem aceita sugestões… Por favor, imigrem e deixem-nos em paz…


  6. Desculpa lá amiga, mas não resisti ao abuso de te citar aqui:
    http://solossemensaio.blogspot.pt/2012/11/perguntas-de-fim-de-semana.html

  7. Carla Romualdo says:

    à parte a debilidade dos compatriotas, que se entende até certo ponto, diria que são os adeptos da política merkel os que devem emigrar. Quanto ao rigor como receita para Portugal, parece-me que a receita aplicada vai no bom caminho e tão bem o faz que daqui a pouco será mortis

  8. Jorge Humberto says:

    Bom texto, a expressar poeticamente tudo o que gostarimos de dizer a essa “senhora”, que parece apostada em seguir as pegadas de certos antecessores, com os brilhantes resultados alcançados em 1914-1918 e 1939-1945.
    Mas enfim…. parece que há quem goste.
    Mas mais que o texto no seu todo, classifico como sublime e de clareza dolorosa este parágrafo:

    “Há-de saber-se que gerações inteiras foram sacrificadas para que uma elite perpetuasse o seu lucro, e que houve um tempo monstruoso em que o dinheiro se impôs à vida, tal como monstruosos nos parecem agora os esclavagistas ou os inquisidores.”

    Está tudo dito, aqui.

    Parabéns

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