Ainda o “corrupio” (lendo António Nabais)

 Armindo de Vasconcelos

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Sobre o tema aqui versado pelo António Fernando Nabais e comentado pelo João Esteves de forma superlativa, exemplarmente quando refere o “luxo” de contratar “revisores competentes” vs “ditames do lucro financeiro”, atrevo-me a chamar à conversa o extracto duma entrevista concedida por José Mário Costa, jornalista responsável pelo projecto Ciberdúvidas, à revista “Os meus livros”, em Fevereiro de 2012.

Sobre o panorama da tradução e revisão dos livros, referiu: “Como tudo o que nos cerca, nomeadamente nos tempos que correm, há do bom, mesmo do muito bom, e do pior. É um problema geral do País: a qualidade e a competência cada vez menos estimuladas”.

E, generalizando o horizonte da sua perspectiva, acrescentou: “Passa tudo pelo ensino do português desde a escola primária. Se até há cursos (universitários!) de jornalismo sem qualquer disciplina da área-ferramenta de trabalho nuclear da profissão, qual a surpresa da proliferação do mau uso do idioma nacional generalizado, hoje, tanto nos jornais como na rádio e na televisão?”.

Sobre o mundo da revisão e da figura do revisor, esse “sentinela da língua”, estou com Francisco Wlasek Filho, quando ensina: “(…) é indispensável que os revisores sejam donos não só de uma cultura vasta quanto variada, como igualmente de bastante tirocínio (aprendizado) profissional e gosto literário; que não se limitem apenas a corrigir descuidos ortográficos e tipográficos, mas falhas de memória, citações defeituosas, os lapsos da escrita e a pontuação inexata; numa palavra: os erros de toda espécie que escapam aos autores; que possam, enfim, desobrigar-se perfeitamente das suas funções, legitimando as justas e elogiosas referências que sempre mereceram dos mais célebres escritores e gráficos de todos os tempos, entre os quais Firmin Didot, o criador dos caracteres do mesmo nome, e Victor Hugo, para quem eram modestos sábios, tão hábeis em polir as penas do gênio.” (Francisco Wlasek Filho, Técnicas de preparação de originais e revisão de provas tipográficas).

E não posso deixar de importar o que escreveu Sophie Brassaud em “La lecture angoissée ou la mort du correcteur”, na tradução da brasileira Sara Baldessin: “O revisor se define não por seus conhecimentos, mas por seu perfil psíquico. A revisão é mais que uma profissão: uma neurose. Esta neurose se caracteriza como uma espécie de sacrifício consentido (desejado) pelo revisor; é um tributo à saúde (qualidade) da edição. O revisor se oferece, sempre, em sacrifício à Deusa do Idioma Francês, portanto, todos aqueles que se dedicam a esse ofício nunca serão normais. (…) Para o revisor, o importante não é o que ele sabe, mas o que ele está consciente de não saber ou, pelo menos, não saber totalmente, e que por isso exige permanente verificação. (…) O revisor não lê como todos os demais homens leem, ele fotografa a palavra visualmente. (…) O exercício da profissão do revisor pode ser descrito, perfeitamente, como uma ‘leitura angustiada’. O seu trabalho é, justamente, evitar que todos os outros seres humanos necessitem fazer essa leitura angustiante.”

Ciclo de vida

Eu já passei pelo mundo da revisão, durante anos, acabei por ser vítima dos tais “ditames do lucro financeiro”, mas, mesmo afastado, continuo a reler exaustivamente os muitos livros de formação na área, que coleccionei (e continuo, assiduamente, a adquirir) em nome dessa neurose. Que já não tem cura! Daí, a minha revolta sempre que pago a peso de oiro um livro e vejo que fui ludibriado. Não me calo, e algumas editoras têm nos seus ficheiros (ou no lixo) o clamor dessa minha insurreição contra quem me burla. Em dois casos, registe-se, substituíram o livro por outro à minha escolha, ficando com o meu exemplar, anotado e sublinhado em muitas dezenas de atropelos à língua portuguesa.

É claro que muito mais poderia ser escrito. Desde a experiência em empresas de tradução que pagam mal e a más horas (quando pagam) aos seus tradutores, e que, por via disso, se socorrem de amadores em busca de uns tostões, nesta ditadura de lucro unilateral. Poderia ainda escrever sobre essa espécie de supostos tradutores, os quais, na sua santa ignorância, se tornam arrogantes quando vem ao de cima, na revisão, essa incultura, a sua falta de preparação. Mas, por agora, fiquemos por aqui. Porque a matriz do meu post é o “corrupio” do António Nabais e um comentário do João Esteves. E, sim, inteiramente de acordo: o trabalho em equipa é essencial!

Comments

  1. António Fernando Nabais says:

    Completamente de acordo consigo, caro Armindo, também no que se refere à importância do trabalho em equipa. A questão do ensino do português, no entanto, é crucial, sem dúvida, e aí é que reside a origem do problema. O jornalista a que faço referência no meu texto tinha o 7º ano do Liceu, o que não o impediu de saber mais português do que muitos professores e alcançar uma cultura geral acima da média. Não quero com isto defender que um jornalista ou um revisor não necessitem de formação superior, mas há muito em que pensar. Muito prazer em lê-lo.

  2. Konigvs says:

    O meu inglês é muito roscofe mas ainda assim por estes dias fiquei a saber no Odisseia que Benjamim Franklin disse que há três coisas certas na vida “A morte, os táxis e a gravidade.”
    Mais um que ingressou na jotinha e depois fez os estudos por equivalência.


  3. Caro Armindo, fiquei sensibilizado com o seu texto, que subscrevo na íntegra. Embora a língua portuguesa não seja, por assim dizer, a minha ferramenta de trabalho, o que provoca por vezes sobressaltos e mesmo incorrecções por ausência de automatismos que são naturais noutros, a verdade é que fico sempre extremamente embaraçado quando essas incorrecções me acontecem. E entristecido quando observo a leveza e até leviandade como certos agentes da nossa vida pública, sejam empresas, publicitários, jornalistas ou políticos lhe dão uso. A proliferação de estrangeirismos na vida comercial e empresarial é disso um exemplo. Há uma afectividade intrínseca pela nossa língua materna, que é a que nos acompanha desde que nos conhecemos, que nos ajudou a descobrir o Mundo e a exprimir o que sentimos, seja alegria, seja tristeza, seja até raiva e revolta. Devia por isso ser tratada como parte de nós.
    Obrigado pelo seu texto.

  4. maria celeste d'oliveira ramos says:

    Em que língua sonho a dormir e acordada – Em que língua rezo ou praguejo – em que língua falo com aqueles com quem falo – em que língua entendo os sentimentos e emoções daqueles que deles me falam ?? Em que língua me ensinaram a dizer mãe e pai e o que tenho hoje na mesa para me alimentar – Em que língua sinto no silêncio do meu sentir se a minha cabeça sente pensando ? Haverá sentir sem pensar e pensar sem sentir ?? Mais uma razão para regeitar o AO – em que língua invento palavras novas mesmo que me digam que não existem ??

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