Ainda sobre o vídeo de Camilo Lourenço

Comentário de Maria João Branco, professora de História Medieval na FCSH, Universidade Nova de Lisboa no Facebook:

“Também talvez alguém lhe devesse contar que, por exemplo, em Oxford consideram Economia o curso menos útil e mais estupidificante de todos. Até Gestão teve grande dificuldade em imperar, embora agora a Said Business School tenha bastante prestígio. O presidente de um dos colégios mais prestigiados era licenciado em Filosofia e foi o chefe do Tesouro da Thatcher durante vinte anos. Quando lhe perguntei como tinha feito para compreender as complexidades da Economias, olhou-me com espanto e disse-me: “- mas isso aprende-se em qualquer estágio de 3 meses, é uma idiotice passar anos a estudar uma coisa tão óbvia”. Os cursos mais valorizados para tudo, especialmente para o civil service, diplomacia o bolsa de mercados são, em primeiro lugar Clássicas e logo a seguir História, pela capacidade de compreender problemas complexos, equacionar dados múltiplos de forma crítica e produzir respostas e soluções inovadoras. Seria de pedir um comentário a este senhor, sobre esta e outras realidades de países com bastante tradição em eficiência e profissionalismo?”

19 comentários em “Ainda sobre o vídeo de Camilo Lourenço”

  1. Colocar as coisas no seu lugar passa por chamar dispensáveis aos da “macroeconomia” que só conseguem olhar para o umbigo dos seus patrões.

  2. E é por conta desta gente que a história, que desconhecem, se repete. Houvessem mais historiadores em cargos de poder e talvez a Europa não estivesse à beira de um novo precipício.

  3. Claro que o sr Camilo disse uma bacorada das antigas, mas digamos que se estava à espera que isso acontecesse.
    Mas arranjar créditos para um personagem por ter trabalhado com Thatcher acho ser um absurdo completo, incompreensível.

    CRUZES CANHOTO !!!

    1. Eduardo, a Thatcher aqui é a titulo de exemplo. A moral da história, como se costuma dizer, é que nos países civilizados as pessoas 1- não tem que fazer sempre aquilo que passam 3 anos a estudar, 2- têm vistas mais alargadas.

      1. Acima disso, um ministro é um decisor político, que tem acesso a qualquer consultor ou especialista do país para lhe sugerir o melhor caminho a tomar. Esta ideia que um governo tem de ser puramente tecnocrático é de uma ingenuidade e espírito pacóvio que é alarmante.

  4. O precipício existirá enquanto existir SISTEMA MONETÁRIO quais as actuais regras fundamentais… E como estamos a falar de História deixo aqui um pedaço dela…

    Tinha dito que não fazia mais ligações para o meu espaço, mas como estou de saída deste “mundo virtual”… QUE SE LIXE, e lá foi mais uma ligação!!!
    Depois se quiserem enviem a factura da publicidade com o NIF do Passos que eu “Mando Pagar” através do Gaspar… 😆

    Abraço 😉

  5. Acho que é a primeira vez que vejo alguém a referir-se às políticas económicas de Thatcher como sendo um paradigma de competência, e que afirmar que aprende-se o suficiente para segurar a economia do país com um curso de três meses. Seria interessante ver como é que compatibilizam esse hino ao neoliberalismo com as críticas ao governo actual, e esses elogios rasgados à virtude de não se tirar uma licenciatura com as críticas ao infame dr Relvas.

    Não se pode ser coerente todos os dias.

  6. E ainda ninguém falou daquilo que – parece-me – o CL quis referir: o excesso de licenciados em História (e ciências humanas em geral) para as reais necessidades do país e a continuação da aposta na formação de novos licenciados (quando já há mestres e doutores no desemprego ou em áreas completamente diferentes), que os torna inúteis, pois não têm possibilidade para aplicar os conhecimentos que adquiriram ao longo das licenciaturas. E não me digam que o Estado pode contratar 150 ou 200 novos licenciados em História todos os anos.

    Creio que ninguém com dois dedos de testa pode pôr em causa a mais-valia da História para uma sociedade. Sem dúvida nenhuma que se se desse mais ouvidos à História, não se tinham cometido metade dos erros que se cometeram ao longo dos anos. Não é preciso vir falar dos conselheiros da Thatcher ou do contexto inglês. Mas essa mais-valia decorre da sua produção científica e da sua empregabilidade; e ter muitos licenciados não é sinónimo de ter boa produção científica. Pelo contrário, prejudica a imagem da História, que passa a ser encarada como um curso que não serve para nada e os professores e as faculdades de ciências sociais e humanas como operários e fábricas de desempregados. A História fica desprestigiada, a autoridade da opinião histórica perde peso e torna-se assim mais fácil de ser enjeitada.

    1. totalmente de acordo. Mas não são 200 licenciados em história por ano, isto é uma faculdade, mas o país tem varias faculdades com cursos de historia. No total são bem mais de 200, várias vezes mais.
      Obviamente um excesso cujos principais prejudicados são os proprios alunos.

      1. Se não me engano, no ano passado foram preenchidas cerca de 300 vagas em História nas Universidades do Minho, Porto, Coimbra, Clássica e Nova de Lisboa e Évora. Duvido que daqui a três anos esses 300 alunos estejam licenciados, Daí o meu número de 150/200 licenciados.

    2. Hugo eu concordo consigo, mas aí o problema não é da História. O problema é do sistema universitário em si. Choca-me muito mais que por ano entrem 450 alunos para Direito na UL (e quantos destes vão ser advogados ou juizes?). Ok, há muita gente formada em História? Na Nova, todos os anos, há 45 vagas para o curso de História. As turmas podem chegar a 60 sendo que os restantes são alunos “sénior”. Pelo que sei as vagas nos cursos de História não excedem os 100, andando entre os 45 e os 80. Eu sou totalmente a favor de se criar novas formas de acesso ás universidades de maneira a tornar a própria entrada mais exigente (entrevistas, testes escritos, o que quiserem. Acho absurdo contar só a média e depois temos gente que mal sabe escrever, mas isso é outra conversa) mas o que é mesmo um exagero, comparando com outros cursos? As ciências sociais são dos cursos que menos alunos têm.

      E porque é que alguém que estuda História tem que ser historiador ou investigador…? Esta ideia que uma pessoa deve passar a vida a fazer aquilo que passou três ou quatro anos a estudar quando tinha vinte anos parece-me redutora (e para usar uma expressão que os economistas tanto gostam, “já não se adapta” aos tempos em que vivemos).

      Camilo Lourenço revelou o preconceito existente na sociedade portuguesa contra as humanidades (não só na portuguesa mas é aqui que vivo e por isso não vou falar sobre os outros). Bom é ser engenheiro, médico ou advogado. Quantas vezes eu ouvi que estes eram os únicos cursos que vale a pena tirar.

      Se ele quisesse ter abordado a questão do ponto de vista em que o Hugo está a pegar, podia, certamente, tê-lo feito de outra maneira. CL estava claramente a diminuir o papel da História e das CS e não a fazer a crítica do sistema.

      1. Daniela, 100% de acordo com a sua primeira frase. O problema está longe de ser da História, que é um saber tão útil à sociedade como outro qualquer. O que eu quis dizer no meu comentário foi precisamente o que aponta: há demasiados licenciados em História e demasiadas vagas no ensino superior. E não é só na História. É nas ciências sociais e humanas em geral. Posso estar enganado, mas penso ter lido em tempos que num dos concursos de acesso ao ensino superior público português, mais de metade das vagas preenchidas a nível nacional eram em cursos das ciências sociais e humanas. Eu já nem ponho em equação a questão de os alunos estarem bem ou mal preparados. Podíamos ter 200 licenciados por ano extraordinariamente bem preparados, que o problema da (des)empregabilidade se mantinha. Não é questão de qualidade, é mesmo de quantidade. Concordo quando diz que o CL podia ter abordado a questão de uma forma mais polida. Chamar inútil a alguém é estimular a raiva e contribuir para uma discussão baseada em insultos e insinuações e não em argumentos (como se tem visto nos últimos posts e comentários deste blogue).

        Discordo quando diz que só há 100 vagas para os cursos de História, se se refere à totalidade do país. O ano passado as vagas eram cerca de 300 (nas Universidades do Minho, Porto, Coimbra, Clássica e Nova de Lisboa e Évora). Discordo também quando diz que um licenciado trabalhar numa área que não a sua seja uma coisa boa ou desejável. Muitas vezes é uma obrigação, porque a alternativa é o desemprego. E no caso das ciências sociais e humanas é uma situação ainda mais grave pois os conhecimentos ministrados na maior parte dos cursos são extremamente específicos e pouco adaptáveis a outras áreas. Daí o comentário do Camilo Lourenço. Quanto a mim, esta situação é um desperdício de recursos e para o próprio indivíduo é angustiante, seja em que área for. Acho irracional que o Estado gaste recursos a formar uma pessoa e depois gaste (ou o próprio indivíduo) ainda mais recursos para reciclar os seus conhecimentos. Para isso, mais valia procurar encaminhar a pessoa logo à saída do liceu para aquela segunda área. É por isso que acho que a formação em História deveria assentar na melhor das hipóteses no segundo e terceiro ciclos e direccionar-se a pessoas que já têm uma actividade profissional estabelecida e pretendam aprofundar ou adquirir conhecimentos nesta área.

        Independentemente da intenção da mensagem do Camilo Lourenço (não me parece que ele pretendesse menosprezar a História, mas sim indicar o excesso de licenciados e de formação nesta área e na área das ciências sociais e humanas em geral), o facto mantém-se: existem já demasiados licenciados e o sistema de ensino superior continua a formar ainda mais. Assim que esses novos licenciados cheguem ao mercado de trabalho, não vão conseguir arranjar trabalho na área. Terão ou que se sujeitar a trabalhos menos exigentes em termos de formação ou que reciclar os seus conhecimentos. Qualquer um dos casos constitui uma situação que não é ideal quer do ponto de vista individual, quer do ponto de vista da sociedade/Estado.

      2. “[…] Choca-me muito mais que por ano entrem 450 alunos para Direito na UL (e quantos destes vão ser advogados ou juizes?) […]

        Cara Daniela:

        Podem entrar 450 alunos/ano na FDL, mas saem, ao fim de 4 anos de “licenciatura” (as de Bolonha não merecem mais do que aspas), menos de metade, acredite; no fim do meu primeiro ano, em que entraram cerca de 500 alunos, já mais de 90 tinham desistido. Na minha subturma, que começou com cerca de 35 caloiros – por oposição a alunos repetentes ou que estavam a fazer a cadeira isoladamente, que eram poucos -, verificaram-se 11 desistências até ao meados do segundo semestre, em Março/Abril, estabilizando o número até ao fim do ano lectivo. O principal motivo era mesmo a brutal (por vezes a raiar ou mesmo a extravasar para a sacanice) exigência do curso – o segundo motivo mais alegado era uma combinação das vicissitudes do curso com a constatação de que não se queria ser jurista. Em Coimbra, mesmo havendo menos vagas, o rácio é mais ou menos o mesmo.
        E não esqueçamos a FDUNL, que tem umas 100/150 vagas por ano, bem como a EDUM e a FDUP. O desvario é total.

        Deveria escandalizar-se era com os 200 que entram por ano numa qualquer Lusíada ou Xulófona e saírem esses mesmos 200; é que a FDUC e a FDL têm, apesar de tudo, provas dadas e produção científica, algo que a esmagadora maioria das restantes faculdades de Direito deste país não tem. Só por isso merecem uma observação atenta e rigorosa, porque não se tratam de meras fábricas de canudos à moda cavaquista, guterrista ou coisa que o valha.

        Tal como outros leitores do blogue, creio que, para os tempos que correm, há vagas a mais em TODOS os cursos, mas isso já é outra história.

        Bem haja.

  7. Camilo Lourenço não é inútil para a economia, Camilo Lourenço é NOCIVO para a economia!!!
    Camilo Lourenço não passa de mais um não-liberal pró-cleptocracia! Aliás, os especialistas “comentadeiros” nos media são pagos para isso mesmo, servir o regime vigente…

  8. Para o Sr. Camilo Lourenço, o curso dele também foi inutil…porque não o fecham? senão vejamos, é licenciado em Direito, pela FDUL, mas está a brincar aos jornalistas e comentadores politicos…não devia estar nos tribunais? ou fez aquilo que os licenciados em historia fazem? tiram aquilo que gostam e depois, se não há emprego, vão para outras áreas…vão me dizer que na grande maioria dos cursos isso nao acontece? conheci licenciados em direito, psicologia, gestão, economia, linguas, publicidade em call centers, em bancos, a fazer secretariado de pequenas empresas…foi para isso que tiraram os cursos? que curso em Portugal actualmente emprega todos os alunos? ah…medicina…aquele que não tem vagas e que manda vir medicos de outros países, pois!

    1. Mas é só por agora, espere uns anitos e se não diminuirem o nº de vagas de medicinas vai ter cerca de 205 de desempregados… ou emigram. A este ritmo estamos a formar médicos para irem trabalhar para outros países.

      1. correção – aonde se lê 205 desempregados deve ler-se 20% de desempregados. Até acho que pode ser mais. Já temos uma das taxas de médicos por habitantes das maiores do mundo e nos últimos anos o nº de vagas praticamente duplicou. O resultado vai ser uma taxa elevada de médicos desempregados. Como outros países têm falta de médicos estamos a formar médicos para outros países.
        A despesa é elevada e perderemos muitos dos jovens mais capazes para a emigração. Espero é que o ministro da saúde perceba isso e baixe o nº de vagas em medicina.

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