Vai, corre, não olhes para trás

Enquanto tentava acompanhar a conversa à minha mesa de café, o que se contava na mesa do lado interessava-me cada vez mais. Com inclassificável falta de vergonha, fui-me inclinando para o lado para apanhar o que podia.

– A funcionária da repartição … quarenta e pico… filhos na universidade… deixou tudo… fugiu para parte incerta… com um músico de rua… mais novo do que ela.

Oh, a emoção da vida dos outros, quão palpitantes podem ser as desventuras dos anónimos da mesa do lado.

Distraio-me por completo da conversa à minha mesa e sigo, com o coração aos pulos, a aventura da mulher de meia-idade, funcionária entediada de uma repartição, que mandou tudo às urtigas e fugiu com o baladeiro. Imagino as noites de insónia, as incertezas, e depois a mala feita à pressa, a carta aos filhos, o comboio apanhado de manhã cedo, à hora a que a devia estar a sair para o serviço. As mãos dela à volta da cintura dele, a guitarra ao ombro. E quando dou por mim, estou capaz de levantar-me da mesa e gritar-lhe: “Vai, não olhes para trás, corre!”

No filme “Palombella Rossa”, de Nanni Moretti, maravilhoso delírio sobre o desencanto, há uma cena na qual os atletas e espectadores de um jogo de pólo aquático interrompem a partida para ver um momento crucial do “Dr. Jivago”. Yuri viaja num eléctrico quando vê Lara a passar na rua. Chama-a mas ela não o ouve. Sai do eléctrico e tenta alcançá-la mas sofre um ataque cardíaco fulminante e morre na rua, sem que ela chegue a vê-lo.

No bar da piscina, juntam-se todos em frente do televisor, e vão gritando, incentivando os protagonistas:

– Escuta! Olha! Corre atrás dela! Vai! – como se se tratasse do momento decisivo de uma partida.

Quando Jivago cai prostrado e Lara segue o seu caminho, sem imaginar quão perto esteve de reencontrar o amor da sua vida, a reacção é a mesma que a um golo falhado.

Podia levantar-se agora o café inteiro, se estivesse a ouvir a história que se conta aqui ao lado, e aplaudir com fervor essa estupenda louca da repartição, a que não teve medo nem bom-senso. E com ela se redimia um bairro inteiro de cidadãos cordatos, pagadores de impostos e de juros à troika.

Vai! Corre! Não olhes para trás!

Comments


  1. Que bonito Carla


  2. Não olhes….

  3. Maria João says:

    Adorei o que escreveu….

  4. Ze Maria says:

    Os gajos de calça vincadinha, barbeiro semanal e outras merdices costumam zurzir nos seus círculos fedorentos de conversa e dentes podres sobre as mulheres que ousaram, como a “louca da repartição”querer ser FELIZES.
    Não sei, Carla, se a tua magnifica “estória” é real nem, isso agora aqui me interessa. Agora e aqui.
    Sempre e em todos os lugares fico reverente perante quem teve uma coisa que nos querm tirar. CORAGEM.
    Vivam TODAS as “loucas da repartição” do meu país!!!


  5. Mas que lindo!!!


  6. Muito bom. Que latejo tão bem expressado.


  7. Gosto muito das suas estórias. São um mapa para o amor, a rebeldia e, sobretudo, a generosidade.

  8. marta says:

    é que os esse tipo eléctricos não passam duas vezes …

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