A mudança já começou

“Acordai”, Porto – Foto: Renato Roque

Interessa-me pouco a contabilidade dos números do 2 de Março, não atino com metros quadrados nem sei contar multidões, e muito menos me interessa enveredar pela redução das gentes a item contabilístico, uma das pechas dos que foram eleitos para governar o país.

Podemos ter sido mais cem mil ou menos cem mil. Fomos mais do que a 15 de Setembro último, quando houve quem quisesse ler no protesto pouco mais do que a rejeição de uma medida concreta, o aumento da TSU. E não fomos apenas os precários “à rasca”, este não foi só o protesto de uma geração. O que se ouviu a 2 de Março foi o grito uníssono do povo português, de gente muito diferente entre si mas que tem em comum a revolta contra aquilo em que o país foi transformado.

Um governo, para além de legitimado pelo voto dos cidadãos, deveria assentar na honradez de quem dele faz parte. Talvez esta frase produza um sorriso irónico em quem a lê, e isso é já um triste sinal. Mas creio que, se ao fracasso de todas as políticas (até dentro do PSD já não faltam as vozes a apontar o dedo à incapacidade de Vítor Gaspar acertar numa previsão), se junta a insatisfação do povo, um governo composto por gente honrada e bem-intencionada resignaria e daria novamente ao povo o direito de escolher. Tampouco se limitaria a depor no cepo a cabeça de Vítor Gaspar, até porque a máxima responsabilidade será sempre do primeiro-ministro, a menos que se ele tenha tornado inimputável. Mas este é o mesmo governo que tem posto repetidamente em prática aquilo que, em período de campanha, jurou nunca fazer, e quanto a honradez estamos conversados.

Podem argumentar que a 2 de Março éramos mais ou menos, podem garantir que não será o protesto nas ruas a fazer cair o governo, até podem intimidar-nos com a inevitabilidade da austeridade, ou com o dilúvio depois deles. Mas não poderão enganar-nos. Porque nós, os que estivemos nas ruas, vimo-nos, trocámos olhares cúmplices, cantámos em uníssono, e sabemos que a mudança já começou. Cantámos os primeiros versos da “Grândola” com um nó na garganta, mas a nossa voz foi-se fazendo mais forte quando sentimos, à nossa volta, um coro que enchia as praças, que parecia não ter limites e se ampliava no coração de cada um.  Nós agora sabemos que não é a precariedade, nem o medo, nem a desesperança que evitarão que sejamos capazes de transformar o nosso futuro. Enquanto estivemos sós, encerrados na bolha, passivos espectadores da análise política, do comentário, do discurso pensado para paralisar qualquer rebelião, acreditámos no que eles diziam. Mas agora vimos a nossa força conjunta e sabemos que a mudança está em marcha e somos nós a fazê-la avançar, sabendo que, para isso, teremos de fazer mais pela nossa democracia do que depositar nuns quantos eleitos a responsabilidade de nos representar.

Quando, no sábado, entrei na avenida dos Aliados, depois de um lento percurso desde Santa Catarina, e fui avançando a passo lento até ao fundo da avenida, distraí-me da manifestação, distraí-me do que se ia dizendo, e perdi-me a olhar para os rostos das pessoas nos passeios, as que tinham chegado antes de mim e esperavam, ou gritavam, ou apenas olhavam quem ia chegando à avenida. Era uma sucessão de rostos marcados. Muitas histórias de sofrimento, de desespero, muita gente em lágrimas, muitos a agarrar-se à raiva para não chorar.  Muita gente que levava cartazes escritos por si, que procurava expressar, numa frase, num grito, a angústia ou a raiva ou a esperança que ainda teima em não se apagar por completo.

Esta nossa gente tem estado silenciada, tem sido reduzida a estatísticas “em linha com as previsões do governo”. À incompetência técnica de um governo que tem feito destruir a nossa economia, junta-se a mais chocante insensibilidade social, amplificada pelos comentários insultuosos de quem nos diz que não temos outro remédio senão aguentar, ou que bem podemos ir limpar matas se o que nos falta é o trabalho. Temos sido espoliados e insultados. Temos aguentado tudo com resignação e espírito de sacrifício, quase pedimos desculpa por ter havido quem vivesse acima das nossas possibilidades, quase pedimos desculpa por estarmos vivos e termos sonhos.

A 2 de Março vimo-nos as caras e percebemos que não estamos sós. E que se alguém tem de ter medo são os que estão a espalhar a desigualdade e o sofrimento. Na praça, repleta de gente como a nunca tinha visto, confesso-vos que senti uma enorme alegria porque vi a mudança e eu sou parte dela. 

Comments

  1. manuel silva moutinho says:

    Excelente texto, estou totalmente de acordo. A luta continua, eles hão-de ir para a rua.

  2. João Paulo says:

    Somos! É isso mesmo, como um leitor do Aventar comentou: “O medo mudou de lado!”.

  3. Jorge Filipe Ferreira says:

    Eu que pertenço à geração de Abril, que libertamos o País dos grilhões de uma Ditadura, senti, de novo a alegria, de ver conjugado o verbo na terceira pessoa “NÓS”. De fato, se dúvida havia, a mudança já está em marcha. E eles passaram a saber, se andavam distraidos, que nada será como antes!

  4. murphy says:

    Pois… seria tão bom se toda esta crise terminasse com a simples “remoção” de Passos…

    Objectivamente, o modelo económico e social instituído em Portugal não serviu a globalidade da população, antes uma minoria que passou a controlar a estrutura do Estado.

    Sendo INEVITÁVEL uma alteração do modelo económico português, o qual terá de passar, OBRIGATORIAMENTE, por uma forte aposta nos sectores mais tradicionais (nomeadamente, na Agricultura e Indústria), ATÉ QUANDO, a imposição deste modelo de sociedade preconizado por uma pseudo-elite bem instalada em “Lesboa”, constituirá um OBSTÁCULO ao desenvolvimento social e económico de Portugal?
    http://jornalismoassim.blogspot.pt/2013/02/portugal-lisboa-e-o-resto-do-pais-1.html


  5. Uma rebelião implica pegar em armas. É uma forma de resistência pela violência. Muito poucos serão certamente capazes disso, por isso, devemos pesar as palavras. Defendendo, em certos casos, o direito à resistência armada e à violência revolucionária, temos de admitir que o tempo dos bolcheviques já lá vai. A que tipo de resistência está o povo português disposto? Já me coloquei estas questões e não sei até que ponto vai o meu espírito de sacrifício pela causa comum.E o seu?

  6. Carla Romualdo says:

    Não, uma rebelião não implica inevitavelmente pegar em armas. Aquilo que se designa como não-violência activa (diferente de pacifismo) tem poucos mas bons exemplos. É como diz, Fernando, o tempo dos bolcheviques já lá vai e não estamos condenados a repetir a História.

    • nightwishpt says:

      Talvez, mas a ultima vez que houve uma revolta pacifica deu nisto, ficaram ou voltaram todos a mandar rapidamente.


  7. Um olhar certeiro e uma voz revoltada, soltos por uma alma solidária com quem sofre à tua volta e confiante que, unidos, havemos de vencer. É assim que interpreto o sentimento e a determinação expressos no teu excelente texto.

  8. nightwishpt says:

    ” À incompetência técnica de um governo que tem feito destruir a nossa economia”
    Mas que incompetência? É esse o objectivo. É essa a corrente económica dominante. Eles limitam-se a seguir o livrinho do não liberalismo.

  9. Orvalho says:

    Pois, pois … mas eu que em 1973 já era rapaz, não consigo deixar de pensar para onde evoluiu a democracia que tantos e de forma tão séria e sofrida, em manifestações assim, ajudaram a implantar.
    Por outras palavras, consigo ver, em muitos destes queridos e honestos manifestantes, os prepotentes, para não dizer os fascistas, de amanhã.
    Sinceramente, às vezes penso que tudo isto é cíclico e que a grande revolução terá de começar pelas mentalidades.
    Até lá, claro que vou participando … agora mais com os olhos do que com o coração.

    • Carla Romualdo says:

      ” a grande revolução terá de começar pelas mentalidades”. Estamos inteiramente de acordo

  10. Miguel says:

    Vão encontrar algumas sugestões de soluções neste pequeno documentáqrio. Vejam, e se acharem que vai de encontro ao que defendem – acredito que sim – passem a palavra a outros: http://www.youtube.com/watch?v=S7RWqoq3fOo


  11. Agradece-se a força fresca do texto, Carla. Pesa-me o estado de coisas a que as pessoas se vêm abocadas e não só: pesam-me os mortos e torturados deste século e precedentes e quantos sofrem e sofreram por lutar por um bem comum, agachados na sucessiva transmissão dos poderosos. A dívida não está com a troika, senão com aqueles que nos precederam: a Sua Memória, merece a Mudança. Casualmente, lendo um artigo de Enzo Taverso, explica muito bem: ” A luta, não só é um acto gozoso, liberador, senão também um momento de resgate dos vencidos da História”.
    Ponho aqui o artigo por achá-lo muito interessante de lêr.
    Haja Força para a Mudança.

    http://vientosur.info/spip.php?article7730

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