Cinza da brasa

Cumpri recentemente sete anos sem fumar e avisaram-me que a data costuma vir acompanhada, tal como acontece nos casamentos, de uma crise a que nem todos sobrevivem. Admito que tenho saudades dos cigarros, já não direi todos os dias, que seria um exagero, mas todas as semanas. Sim, a saúde, a carteira. Escusam de dizer-me quanto ganho todos os dias, ou pelo menos quanto deixo de perder.

Sete anos sem fumar fazem lembrar os sete anos que Jacob de pastor serviu Labão, pai de Raquel, serrana bela. Sete anos de penitência para alcançar a recompensa final, tão almejada. E a minha recompensa, qual será? Dizem-me que ter deixado o tabaco me trará meses de vida, umas quantas páginas em branco a adicionar ao meu livro de bordo. É bom, mas é incerto. Acidentes, meteoritos, governos catastróficos, sabe-se lá o que me espera, que isto é tudo uma questão de probabilidades, tudo é acaso e sorte. Congratulam-me porque pouparei recursos ao depauperado SNS, coisa que me apoquentaria pouco, porque os impostos pagos pelos fumadores cobrem amplamente os seus hipotéticos enfisemas. E é certo que agora subo escadas que é uma beleza, e que o meu coração deve estar afinadíssimo, e as minhas artérias mais desimpedidas que uma antiga scut.

E eu fico contente com tudo isso, não sou mal-agradecida, mas penso que, se aí chegar, lá para os 75 ou 80 anos pegarei na bengala, descerei ao quiosque mais próximo, e comprarei um maço do que quer que seja que se fume na altura. A que saberá um cigarro retomado meio século depois? A mofo ou a morangos silvestres?

É que nestes sete anos ficou a faltar-me um cigarro em muitos momentos, senti falta da nuvem azul conspiratória quando me reuni com compinchas, não arranjei um substituto para todos esses gestos perdidos, o de brincar com o maço, girar o cigarro entre os dedos, sacudir-lhe a cinza, apagá-lo com pesar ou asco no cinzeiro.

Já não preciso da dose matinal de nicotina e alcatrão, a dependência física desprende-se de nós ao fim de pouco, o corpo é um bicho de hábitos, deixa de reclamar em pouco tempo, esquece-se de tudo. Mas faltou-me o cigarro quando era de madrugada e fazia frio e eu era a única pessoa na estação, ou quando procurava as palavras para dizer o que queria e não era fácil, e não havia nada para entreter os dedos até que a palavra certa irrompesse. E também me faltou o pensativo cigarro do Eça, esse que se acende quando há que ponderar, com tempo e distanciamento, o que fazer. À medida que o fumo nos envolve vemos mais longe, mais dentro, ajustamos a objectiva para nós mesmos e vemos com mais nitidez o que até aí esteve escondido.

É possível fazê-lo sem cigarro? Para quem nunca fumou será, de certeza. Mas os que fumaram ficam órfãos dessa companhia e tardam muito em reaprender. É uma espécie de fisioterapia dos hábitos, demora tempo, pede esforço e permanência.  E à nossa volta continuam a acender-se os cigarros dos outros, pequenas centelhas a faiscar à nossa volta, a testar a nossa resolução, e logo chega o fumo, chega sem que tenhamos tempo de fugir-lhe, carregado de memórias, insinuante, não tens saudades de mim?

Acaba-se a fugir a sete pés, a morder maçãs, pastilhas elásticas, a buscar tudo o que nos faça esquecer, como se nos curássemos de uma paixão que acabou mal. E depois é como a canção do Sérgio, o tempo faz mesmo cinza da brasa, e achamos que estamos curados.

Até que o calendário vira a página, atira-nos esse número esguio, tortuoso, e a gente pergunta-se se vale a pena. Sete anos. Mas esta manhã passei ao largo do quiosque, ainda não será hoje, não, nem amanhã. É que é curta a vida, sim, e não só a de Jacob.

Comments


  1. Belo texto, Carla, e parabéns porque tens mais força do que eu, que digo que deixo mas acabo sempre por voltar.


  2. Caramba! E já escrevia bem assim, quando fumava?

  3. António Fernando Nabais says:

    És perigosa: até me apetece começar a fumar.

  4. palavrossavrvs says:

    Não deixo de fumar o meu cachimbo, quando eu e o teu pai somos campeões outra vez. Espero que este ano ainda dê para isso.

    Belo texto. A sedução do intocável. Pudéssemos gerir o fumo como gerimos o que comemos: hoje ovos, amanhã espargos com arroz.


  5. Arrependi-me várias vezes de ter deixado de fumar durante longos períodos. Como me arrependi de ter voltado. Porém, como a Carla, admito: tenho saudades. Depois, a comida tinha um sabor mais intenso… e eu não resistia. Entre ambos os vícios, por certo, triunfou o pior. Mas que fazer? Alguém é servido de uma cigarrilha?!

  6. Carlos Fonseca says:

    É doloroso. Sei por experiência própria. Mas com a máquina avariada, já tenho cansaço que dure até á derradeira vez que expire ou inspire – não sei se sai ou entra o último ar da hora da partida; provavelmente é aleatório, como o resultado da ‘raspadinha’.

  7. Carla Romualdo says:

    lá está, para ler estes comentários, tão calorosos, apetecia-me recostar-me para trás e acender um cigarro. Mas a companhia do cigarro é sempre fraca quando comparada com a de gente atenta e generosa


  8. Não tive nenhuma crise aos sete anos. Quando deixei de fumar, o cigarro fez-me uma falta incrível nos primeiros seis meses; fez-me bastante falta dos seis aos oito meses; fez-me alguma falta dos oito aos doze meses; fez-me uma falta muito fraquinha, era só mesmo uma lembrança remota, até aos dezoito meses; a partir daí, nunca mais pensei em cigarros! Já lá vão cerca de vinte anos.
    É difícil em certas situações? Sente-se sozinha na estação? Tem frio? Não sabe o que fazer com as mãos? Não encontra a palavra certa? Desculpe, mas acho que não é o cigarro que lhe falta. O cigarro é só um pretexto. Falta-lhe outra coisa qualquer.
    Pense nisso!

    O fumo faz mal à saúde. Deixar de fumar não é garante de que viveremos mais tempo, ou que não apanhemos determinada doença. Mas é respeitar o corpo, cuidar dele. E todos nós temos a obrigação de o fazer!
    Parabéns por ter deixado de fumar 😉

    • Carla Romualdo says:

      “Falta-lhe outra coisa qualquer.
      Pense nisso!”
      E não é que é capaz de ter razão?!


      • Carla, ainda bem que compreendeu as minhas palavras. Confesso que, depois de publicar o comentário, fiquei em dúvida se devia ter escrito essa parte que cita, perguntei-me se não era demasiada ingerência na vida de alguém que não conheço. Quem sou eu para dar conselhos? Mas veio do coração 🙂

        Mais uma vez, parabéns!


  9. Sejamos dionisíacos! Porquê abdicar dos prazeres em função de uma hipotética longevidade que pode nunca chegar?
    “Eat, drink (smoke) and be merry”

  10. Orvalho says:

    E, eventualmente, falta contar-nos as vezes em que acordou com um sentimento de culpa por ter sonhado que já fumava outra vez.
    Eu, se conseguisse fumar até cinco cigarros por dia, voltaria a fumar. Já lá vão dez anos e, volta a meia, ainda me aproximo de quem fuma para sentir o cheiro. Ainda desejo, claro que agora com menos fervor, beijar a mulher que acaba de fumar. Coisas que Pavlov explicaria …

    • Carla Romualdo says:

      o seu comentário tem a graça adicional (para além de ser tão bonito) de me ter feito lembrar uma canção, “Innocent when you dream” (não, nunca me culpo pelos sonhos) que é parte importante de um filme para aqui chamado: Smoke.
      Isto anda tudo ligado ou serei eu que procuro pontas soltas

  11. jorge fliscorno says:

    Um dia, depois de não sei quantos anos (sei, foram dez), deixei de fumar. Passados anos encontrei numa gaveta o maço que deixara a meio e os isqueiros, entre os quais o raio do zippo que me despertava um instinto pirotécnico com o seu cheiro a gasolina. Lá estavam, amarelos, sem cheiro e lá ficaram. Cortei com o tabaco de um dia para o outro. Tive uma semana de cão, um mês de andar de rastos e depois, como dizes, o corpo foi-se esquecendo. Mas, mesmo anos depois, quando encontrava amigos numa situação em que ainda não tinha estado sem fumar, lá voltava o desejo. Assim andei cinco anos e, tal como parei, assim recomecei. Fumei mais alguns anos até que depois parei de novo, novamente de forma abrupta e desta vez para sempre. O corpo já não era o mesmo e a razão foi mais forte.


    • Também tive um maço com alguns cigarros, durante alguns anos, numa gaveta. Para um caso de emergência, como apetecer-me um cigarro, de repente, à uma ou às duas da manhã, numa crise qualquer…
      Quando, finalmente, o consegui deitar fora, soube que tinha ganho a guerra!

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