Uma Luz Cívica ao Fundo do Túnel Político

E pronto, chegados a 12 de Março, nasce-me a única esperança digna desse nome no que à transformação urgente do Sistema Político Português diz respeito. Não importa que eu vote CDS ou BE, não importa, nunca importou, o que o Presidente da República viesse dizer, interrompendo o seu letargo de velho funcionário político prudentíssimo, segundo uns, acovardado, segundo outros; não importa ainda o que a morta social democracia dentro do PSD ou a falecida democracia cristã que havia no CDS ousem perorar só agora, saídas da tumba. Esperei por elas e defraudaram-me. Hostilizadas pela nova lei da selva na economia, desvaneceram-se. A Europa, na verdade, já não é região recomendável para a tradução renovada de um pensamento cristão da política. No entanto, há esperança. A rua semeou um princípio de mudança no Anquilosado Sistema Político Português, cujo bloqueio à cidadania vem sendo todo um tratado de opacidade e traição.

O principal fruto da rua parece desenhar-se e é este, por enquanto um Manifesto, em breve um movimento plural e reformador em que possamos apostar. Após toneladas de manifestos sectários, ronhosos, para nada, por isso mesmo sem adesão massiva, acrisolou-se um princípio em que quase todos certamente acordam: parte da resolução dos nossos problemas e da prevenção de outros ainda piores passa pela reconstrução do regime democrático e pelo fim da concentração do poder político nos partidos. Todos os democratas e apaixonados por Portugal, cansados do ódio sectátio estéril, ódio personalizado no A e no B, devem, sem demora, engrossar a mole de signatários deste manifesto. Todos sabemos da tragédia social, económica e financeira a que vários governos conduziram o País. Todos nos exasperámos e cansámos de partidos e executivos sem grandeza, sem ética e sem sentido de Estado, manipuladores de soundbytes, de números, de optimismos, cujos titulares, ápice da baixeza, saíram airosamente ricos. Todos nos vimos impedidos de uma participação democrática e em verdade, sem que o sistema político acolhesse a vertigem da novidade útil, da frescura, dos melhores e mais competentes.

Não chegava, de todo, a revolta pela revolta, os gritos roucos e raivosos de esperança morta, uma indignação meramente higiénica, sem projecto agregador. As manifestações dos últimos meses mostraram, não um protocolo carnívoro de símios à solta à espera de deflagrar desvarios de saliva e sangue, mas um povo pacífico, em sofrimento extremo, um Povo desejoso de mais democracia, participada, cumpliciada pela inteligência e a lúcida frieza que só a rua, o café da esquina e a tabacaria documentam assim como a Universidade.

A Hora é a de operar reformas profundas no Estado e na economia, mediante 1. leis eleitorais transparentes e democráticas que viabilizem eleições primárias abertas aos cidadãos na escolha dos candidatos a todos os cargos políticos. 2. abertura da possibilidade de apresentação de listas nominais, de cidadãos, em eleições para a Assembleia da República, tornando obrigatório o voto nominal nas listas partidárias. 3. garantia de igualdade de condições no financiamento das campanhas eleitorais.

Esse nicho protegido político-partidário que permite a emergência de políticos incompetentes às vezes décadas no activo, encavacando-nos com pesporrência, altivez, suficiência parva e desastrosa, tem de chegar ao fim, mediante o crivo e o controlo de qualidade que só os cidadãos podem exercer directamente. O sistema político tal como está não é democrático. A legislação em vigor amputa a quota de intervenção e criatividade que qualquer de nós deseja ver espelhada no fazer político. Já conhecemos o ranço bloqueador dos Partidos, das suas lógicas muito relvísticas. Se nada se fizer, um referendo nacional às reformas propostas deverá bastar. Falta então que este Movimento se coloque em movimento, aberto a todas as correntes de opinião, até que o Parlamento aprove novas leis eleitorais e do financiamento das campanhas eleitorais. Isto é para ontem.

A Troyka e o interposto Governo habituaram-se ao herbívoro povo bom de Portugal. Um Povo que não sangra, apesar de lacerado, mas agora temos a oportunidade de converter o nosso asco antipolíticos, a nossa frutração fundada que abrange toda a classe política, todo este desespero comprimido em mola numa nova esperança sem trincheira nem facção. As manifestações futuras terão de ter isto multiplicado: em vez do insulto democrático nulo e inerte, o sonho de transformação democrática do Sistema que nos deu todas as nódoas e todos os conúbios danosos Política-Banca.

Não há esperança nem oposição na Oposição. Não se espere que nos mobilize e assimile a nossa revolta quem nem sequer foi competente na fiscalização alarmada e alarmante da acção ruinosa de sucessivos executivos passados. Não há resposta possível que a miragem PS encavalitada no palito eleitoral BE e no fóssil PCP possam oferecer ao País, nem no plano local, muito menos no plano nacional.

A única alternativa credível é o fim da alternância mortífera dos mesmos pelo enriquecer das agendas e das listas partidárias com a emergência dos cidadãos, dos seus rostos, do seu carisma, da sua paixão e activismo: abram-nos a porta e Portugal voltará a respirar, eliminando os bloqueios que se desenham no panorama de curto e médio prazos: não é dos partidos que advirá ao País esse qualquer coisa novo no espectro eleitoral, qualquer coisa que revolucionará a expressão da nossa vontade delegada. Não será dos Partidos e da sua escada rangente de politocratas, subindo e descendo no favor do líder, que nascerá um novo entusiasmo ou a captação da atenção das pessoas, qualquer coisa capaz de surpreender. As lideranças maturam-se na vida habitual de uma carreira, de um trabalho que se amou, das gentes cujo pulsar se testemunhou. O político profissional, sem vida própria, sem alma e sem futuro fora do salto habitual previamente preparado, tem-nos oferecido apenas o espectáculo deprimente da inconsistência e da avidez.

Precisamos de velhos na Política sem gula nem a ambição parola dos sócrates, dos relvas, dos varas. Só com sabedoria e experiência de vida há futuro: muitas vezes a mania da juventude é um tiro no pé do progresso. Precisamos agir rapidamente no sentido de corrigir as injustiças sociais, fazendo convergir com o salário mínimo as reformas de merda que a esmagadora maioria recebe: se o Estado Social está sabotado por demasiados, demasiadas empresas e demasiados particulares que lhe exploram as fragilidades de escrutínio e os limites de fiscalização, faça a devida pedagogia. Este Estado Social nunca foi demasiado generoso para a maioria. Pelo contrário. Nós, os da geração com vinte, trinta e mesmo quarenta anos, estamos a migrar dentro desta Europa para onde se pague dignamente, a fim de fugir ao desemprego que a Troyka gerou, nova peste que nos desespera e mata as perspectivas dos mais pequenos. Está tudo errado, a escala do País é minorca no mercado interno hoje oprimido e comprimido. A generosidade dos empregadores mais desafogados sempre foi nula. O mérito é reconhecido com uma palmadinha nas costas e não é para aqui, Portugal, chamado. Mentalidade de merda. Pagar bem é contagioso e, por enquanto, somente as empresas estrangeiras o fazem.

A rua teria de ter, teria de passar a ter, começa a ter, portanto, um discurso e uma exigência. O País envelhecido e a envelhecer está a falar: a nossa revolta aguda ainda é pacifica e visa pressionar o sistema político, mas o País, mesmo a grande nação que mora no Facebook, terá de secundar este reformismo pois a alternativa é que o abismo social e o desânimo abram a porta ao caos. A democracia foi posta em causa também pela nossa futilidade e alheamento. Se a austeridade e a miséria nos não acordarem em massa para uma mudança tangível e rápida, em 2015 poderemos estar a limpar as mãos à parede com bolsas de insurgência, desvario, dissolução.

Comments

  1. amadeu says:

    Ó pra mim 100% de acordo com o Joaquim. 🙂
    Vai ser preciso fazer muita força. Fico curioso por qual a posição do PS, PCP e do Bloco.
    Será mais uma “manobra tardia de um grupo populista” ?

  2. Ana A. says:

    “A democracia foi posta em causa também pela nossa futilidade e alheamento.” Grande verdade, mas talvez tenhamos chegado ao ponto de ruptura e uma nova sociedade surja e se faça respeitar.

  3. luis says:

    Atenção que o sistema irá reagir como puder contra alterações que se queiram introduzir. Marinho Pinto denuncia aqui um desses cassos, através do Tribunal Constitucional. Curiosamente, ninguém no Aventar referiu esta vergonhosa decisão do TC.
    http://www.jn.pt/Opiniao/default.aspx?opiniao=Ant%F3nio+Marinho+Pinto

  4. palavrossaurius,

    Eu já nem sei qual dos teus discursos é mais bacoco, se o do mau do Sócrates e do coitadinho do Coelho (passando pela experiência espiritual e zen do desafio do desemprego e do não consumismo e ainda da cena dos ódios ou do não se odiar- como se isto acrescentasse alguma coisa – e ainda pelos nivelamentos por baixo, dos desvios abissais entre os vencimentos dos jurássicos do quadro e os professores contratados) a esta anulação e diabolização dos partidos políticos e do poder às massas, qual discurso populista e fast food onde desaguam todas as frustações e lamentos.

    E eu, como tantos outros, que não contribuí para por nem Sócrates nem Coelho no poder, tenho agora de levar com estes populismos reaccionários em cima.

    Para a próxima vê lá se atinas na altura do voto.

    • Concluo dizendo o seguinte: o que escreves e pensas não tem nada a ver com isso de estares bipolar.

      É outra coisa.

  5. maria says:

    Excelente, Joaquim! Este texto deveria ser lido por esse país fora!

  6. Na minha modesta opinião, enganou-se caro senhor! Eu diria pólvora ao fundo do túnel. Não tenha pressa que o BE vai solucionar tudo! Vamos viver no país das maravilhas! Já não vou emigrar, que bom!

  7. You can definitely see your skills in the paintings you write. The world hopes for even more passionate writers like you who aren’t afraid to say how they believe. All the time follow your heart.

Trackbacks

  1. […] Tivesse eu arte e o mesmo teria escrito. Não esquecer de ler também o Joaquim. […]

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