Sr. António Jorge

 

Os nossos caminhos cruzaram-se, que eu saiba, ontem pela segunda vez.
O nosso primeiro «encontro» deu-se num dia de Setembro, creio, estava eu a sair de casa. Tinha caminhado poucos metros e ainda na minha rua vi uma pessoa deitada no chão, no passeio, com um pé a escorregar para a estrada. Antes de mim, várias pessoas passaram por ele. Ninguém fez o menor gesto para tentar perceber o que se passava. A situação parecia facilmente explicável. Um alcoólico caído no chão. Desmaiado de tanto beber. Fazer o quê?
Fazer o que eu fiz. Tentei chamá-lo. Não acordou. Puxei-lhe o pé para o passeio, evitando que ficasse caído numa rua onde passam tantos carros, camiões e autocarros. Finalmente, quando percebi que o homem não acordava de forma alguma e não queria, não podia, deixá-lo assim estendido no passeio sem qualquer apoio, liguei ao 112.
Entretanto, as pessoas passavam. Olhavam. Seguiam o seu caminho. Uns riam, outros abanavam a cabeça em sinal de reprovação. Todos ignoravam. Ninguém se apiedou dele. Ninguém me ajudou a tentar pô-lo de forma menos perigosa. Apenas uma senhora parou.
Recordo-me do cheiro fétido, nauseabundo, que emanava daquele corpo inerte, nitidamente vítima do álcool.
Tive que me afastar enquanto esperava a chegada da ambulância.
Logo que esta chegou, sossegaram-me: «Pode ir. Este é nosso conhecido!»
E fui. Até ao fim do dia de ontem não voltei a pensar neste senhor.
Ontem, enquanto escolhia uns legumes na mini-mercearia do Sr. Mendes, vi um homem cair do passeio do lado oposto à mercearia. Bateu numa carrinha que estava a passar. Vendo que o condutor se apressou a sair e, juntamente com outras pessoas, o ajudava a levantar-se, continuei a fazer as minhas compras. Quando saí da mercearia, vi-o sentado no passeio, uma senhora com ar atrapalhado estava com ele. O homem emitia uns queixumes. Atravessei a rua. De imediato senti aquele odor que tanto me havia incomodado da última vez, embora desta vez fosse menos intenso. Perguntei se precisavam de ajuda. A senhora não sabia o que fazer. Tinha deixado o telemóvel em casa a carregar. Tinha também visto o sucedido, mas achava que não tinham chamado ajuda. O homem queixava-se incessantemente de dores numa perna. Acordado, desta vez, disse-me que o homem do carro lhe tinha dito para ficar ali à espera de ambulância, que ele já tinha chamado («Sabe, minha senhora, ele não queria nada comigo e eu não queria nada com ele»).
Achei estranho chamarem a ambulância e não esperarem que esta chegasse. Liguei para o 112. Não havia qualquer pedido de ajuda para aquele local. Accionaram o pedido.
Mais uma vez, fiquei eu ali na rua à espera que chegassem. Mais uma vez, os olhares, a curiosidade, o desprezo. Ninguém perguntou o que se passava com aquele ser humano, se era preciso ajuda. Entretanto, a senhora que estava inicialmente com ele, aproveitou a minha chegada e «deu de frosques».
Ficámos os dois ali, no passeio. Observei-o. Estava com o sobrolho muito inchado, com pontos, um ferimento de aspecto ainda recente. Um dos pés, também muito inchado, tinha uma meia ou ligadura imaculadamente branca. No outro pé, uma meia preta. Apesar de tresandar, parecia ter sido tratado pouco antes.
Fomos conversando. «Sabe o que eu queria, minha senhora? Era uma roupinha. Não tem uma roupinha para mim? Eu gostava assim de um fato. Um fato de treino.»; «Não tenho pai nem tenho mãe. É muito triste. Foi muito triste. O meu pai morreu e a minha mãe foi logo a seguir. Não tenho ninguém.»: «Minha senhora, obrigado. Obrigado por tudo. A senhora é que me está a ajudar. Obrigado». E eu: «Está a queixar-se tanto, o que é que lhe dói?» «Dói-me a perna e a cabeça. Olhe, dói-me!»

E eu, mázinha, a pensar que era normal que lhe doesse a cabeça devido ao álcool.
Ao fim de algum tempo de espera, não muito, apareceu a viatura do pré-hospitalar.
Um dos técnicos saiu: «Ó Sr. António Jorge, é o senhor outra vez? Que aconteceu agora?»
E virando-se para mim: «Não se preocupe, pode ir. Vamos levá-lo outra vez para o hotel».

Pouco depois, ouvi a ambulância passar à minha porta, com certeza em direcção a um hospital.

Toda esta situação fez-me pensar na falta de solidariedade que grassa por aí. As pessoas não ajudam outras. Porque receiam ser mal-interpretadas, porque, como neste caso, acham que é «mais um borrachão, deixá-lo dormir. Cozer a bebedeira, que aquilo passa». Mas, e se não passar? E se a pessoa estiver mesmo a sentir-se mal? Alcoólico ou não, pode cair no chão por estar doente. Incomodou-me a frieza do condutor que se apressou a ir embora sem sequer ter o cuidado de pedir auxílio para aquela pessoa. A ligeireza com que deve ter pensado que se trata de um bebedolas qualquer, não precisa de ajuda. Dores? Que dores? Está é borracho!

Ao mesmo tempo, sensibilizou-me, tocou-me, a forma polida com que estes técnicos do pré-hospitalar trataram o paciente. É necessário respeito, mesmo para com aqueles que aparentemente não nos merecem respeito nenhum, porque todos os seres humanos, salvo algumas excepções que por aí circulam, maioritariamente nas administrações dos bancos e de algumas grandes empresas e na Assembleia da República, merecem o melhor de nós e merecem ser respeitados.

Em todo o caso, uma coisa é certa, embora respeite o Sr. António Jorge, prefiro não voltar a cruzar-me com ele. Os nossos encontros não têm sido muito felizes.

Comments

  1. Luiz Carvalho says:

    Felicito-a; deverá, certamente, ser uma boa pessoa. Felicito-a pelo gesto, pela paciéncia e carinho em escrever sobre este episódio, e nao sobre tudo (!…) o que se escreve agora…
    Pessoas como você vão, no (nosso…)mundo, rareando.
    Bem haja
    Luiz Boavida Carvalho

  2. joao figueira says:

    …mas a sua atitude é fantástica, humana e chama a att para a indiferença com k vamos tratando casos como este.
    obg

  3. Maquiavel says:

    Sim e näo. Alguém que cai por fraqueza, idade, doença é uma coisa.
    Alguém que näo faz mais na vida que beber e queixar-se de que näo tem dinheiro para outras coisas é outra muito diferente.
    Corro sempre a ajudar quem precisa, mas avalio as situaçöes. E com “reincidentes por vício” tenho muito pouca paciência. Sou solidário mas näo sou parvo, e lidei com alcoolismo na família. E também na família tive gente que nunca bebeu mesmo estando em dificuldades.

  4. Joaquim Gomes says:

    Sr Maquiavel: então os «reincidentes por vicio» não fazem parte da sua vida!.. Muito bem… É que o senhor maquiavel é uma pessoa importante «avalia as situações»

    Deixe perguntar-lhe… e os seus vícios??? quem os avalia??? alguém que não é parvo??? se for assim e face á sua reacção/missiva vai ser bonito!….Não gostava de ver….mas…..

    Á senhora amiga do sr. Antonio Jorge, desejo que tenha «a sorte» de o encontrar mais vezes (em qualquer ser humano ou não), pois tenho a certeza que naquela ocasião se lhe encheu o coração; obrigado por todos os Antonios Jorges que puder ajudar

  5. Maria says:

    Também já passei por várias situações idênticas de total indiferença e falta de sensibilidade para com homens e mulheres a precisar de ajuda, muitas vezes essas pessoas que ignoram o seu semelhante dão mais importância a cães, gatos, etc (tenho 4 gatos felizes) do que à raça humana.

  6. celesteramos.36@gmail.com says:

    Quem sabe quem foi e o que levou àquela situação este António Jorge que cada vez mais há no país do abandono – mas quem não quis parar, que sabe, terá filhos e netos que caem em coma alcoólico no Bairro Alto onde além disso deixam garrafas e outros lixos na rua numa verdadeira esterqueira e fazem barulho não deixando os moradores da rua dormir – se caísse as senhoras e senhores teriam mais compaixão (??) já que para comparar o incomparável toda a gente escreve muito preocupada com os jovens acabados de fazer Bolonha e não têm emprego mas não se condoem com os de 40 a 60 anos que o perderam (por vezes o casal a trabalhar no mesmo local) e nada têm nem idade para procurar outro que, mesmo que haja não lhe dão – ai jovens não tirem emprego aos de 40 anos sem a v/ preparação académica que não tiveram por não ter tido condições nem se estudava à BORLA como hoje (e lá vai o meu IRS outra vez) – pois os jovens podem ir para onde quiserem mesmo até ao Dubai e até de biciclete – Deixem os empregos (e os lugares nos autocarros) aos mais velhos que ainda não são velhos – pois não se condoem com o que caíu de bêbado ?? mas condoem-se com os que fizeram doutoramento no belo copianço e tudo à borla ?’ ai que humanismo nestes humanos – vou mas é ver o jogo do benfica – não tem “surpresas” – vivó benfica e o Sálvio ali mesmo no sítio

  7. Joaquim Gomes says:

    QUERIDA CELESTE RAMOS: Doeu-me o teu texto. Parece-me um um grito de revolta. Revolta-te mas não te deixes abater!… E sempre que tiver dúvidas, ajuda, ajuda,ajuda. Tu. Tu e eu!… Não acredites nas instituições que muito mais que ajuda ao outro, fornecem «tacho» aos amigos do partido. Ajuda todos os Antonios Jorges que te apareçam. Anonimamente, com humildade e sempre com muito carinho e muita força. Ajudemo-nos!

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