Dar sangue não é um negócio

Dar sangue é um acto fantástico – um daqueles em que o dador recebe muito mais do que aquilo que dá.sangue

Resolvemos, por cá, organizar uma dádiva benévola de sangue e temos duas intenções claras, que justificam esta excepção de trazer para o Aventar coisas pessoais:

– recolher sangue e com isso contribuir, nem que seja com uma gota, para as necessidades hospitalares permanentes.

– formar futuros dadores, contribuindo para a dimensão cívica das crianças e jovens.

Mas, há um motivo maior:

Portugal já foi auto-suficiente nas suas necessidades de sangue, mas alterações recorrentes e permanentes na área da sua gestão têm contribuído para que a capacidade instalada se tenha reduzido de modo significativo. Apesar do trabalho diário e permanente de centenas e centenas de voluntários, a pressão do mercado começa a fazer-se sentir e os tubarões andem aí.

Só há uma maneira de manter esta dimensão da nossa cidadania e da nossa maioridade enquanto povo – dar, dar e dar. E, depois, continuar a dar, dar e dar, sempre de forma benévola e deixando a dimensão financeira de fora. Muita gente viveu porque alguém, não interessa quem, nem quando, deu um pouquinho de si. Num dia – amanhã é em Canidelo, Gaia – alguém deixou os seus medos de lado, ganhou coragem e decidiu salvar a vida de alguém.

Simples, não?

Comments

  1. Konigvs says:

    Dar sangue num sistema capitalista em que o SNS cobra-se agora mais do que no privado é o quê? Idiota? Parvo? Ou só muito estúpido?

    Querem sangue? Paguem-no bem pago que imediatamente o espírito de bom samaritano desce sobre mim.

    Bem sei que o Cavaco quando primeiro-ministro nos anos noventa privatizou os nossos corpos, fazendo de todos nós dadores obrigados, mas eu enquanto consciente, do meu sangue ainda faço o quero.

    Querem dadores? Paguem o sangue bem pago. Ou vamos agora dar sangue à entidade que depois o vai vender a quem precisar dele?


    • Obrigado pelo teu comentário.
      Até poderia concordar contigo, não fossem dois problemas:
      a) o negócio que se ia gerar na disponibilização do sangue a quem dele precisa, isto é, se ele é dado por nós, ninguém pode condicionar a ninguém o acesso a quem dele necessita;
      b) a qualidade do sangue disponibilizado seria pior na medida em que a dificuldade financeira de alguém poderá levar a que use e abuse dessa “fonte de rendimento”, prejudicando a sua saúde e criando dificuldades ao próprio sistema.
      JP

  2. Konigvs says:

    Ora bem, se existem regras sobre a doação, em que os doadores têm de ter mais de 50Kg, serem heterossexuais, sim os gays continuam a não poder dar sangue – afinal não deve haver assim tanta falta não? mas continuando, não terem doenças, não consumirem drogas, e poderem dar de X em X, não estou a ver em que é que um serviço pago fosse baixar a qualidade do sangue, uma vez que as regras seriam exatamente as mesmas. Estou em crer que até seria melhor pois a riqueza está na diversidade genética e neste caso mais significaria melhor, mas isto é senso comum e especulação. Mas creio que estamos de acordo que, se o serviço fosse pago, os dadores aumentariam largamente.

    Depois sobre o pagar, sempre se pagou, se não há sangue nacional suficiente paga-se ao estrangeiro e manda-se vir um carregamento de fora. Todos estamos lembrados do triste caso dos hemofílicos com sida com sangue importado contaminado, e já agora mais um caso em que a culpa morreu solteira.

    A vergonha do meu país rouba-me todos os dias, faz de mim presidiário, pois há mais de dois anos que estou com termo de identidade e residência simplesmente porque fiquei desempregado contra a minha vontade, e querem agora que eu dê alguma coisa? Ainda merecia era ser enrabado!
    Não vivemos nós em pleno capitalismo do deixar a procura e oferta funcionar livremente e quanto menos Estado melhor?
    Então se precisam de sangue paguem-no. Ou então mandem a polícia, até pode ser a ASAE a casa de cada pessoa, metam-lhe um colete de forças e roubem-nos também o sangue.
    Só falta isso.


    • Obrigado por teres comentado. Esta parece-me ser uma das questões que vale a pena pensar porque estamos a lidar com algo que mexe com a vida das pessoas.
      Dás alguns exemplos verdadeiros, mas não nos podemos esquecer que alguém à procura de dinheiro, poder ir dar sangue no local A e depois ir, logo a seguir a um outro espaço B, colocando até em risco a sua própria vida, por dinheiro.
      De resto, penso que não discutiram um tópico central – o acesso ao sangue a quem dele precisa. Como gerir isso quando pelo meio há dinheiro?
      JP

  3. Konigvs says:

    É lógico que o meu comentário reveste-se de algum sarcasmo mas não deixa de transparecer o que penso, porque sempre ouvi dizer que “à terra que fores ter, faz como vires fazer”.
    Acho que, como diz o povo sempre sabiamente, “não é com fel que se apanham as moscas”, e quando todos os dias, temos um Estado que em vez de cuidar das pessoas mais frágeis, inventa formas para as espezinhar, depois não tem qualquer moral para pedir o que quer que seja, e quando o prémio que deram aos dadores de sangue foi passarem a ter obrigação de pagar taxas moderadoras, depois não se podem queixar que as dádivas tenham caído abruptamente.

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