É possível acordar melhor?

A Comissão de Educação do Senado brasileiro resolveu “criar um grupo de trabalho destinado a estudar e apresentar proposta para aperfeiçoar o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, firmado em 1990 por todos os países de língua portuguesa.”

Desse grupo de trabalho fará parte Ernâni Pimentel, criador do movimento Acordar Melhor, que visa “propor uma simplificação na ortografia para que todos a dominem e se libertem de dicionários e manuais, na hora de escrever x/ch, j/g, s/z, s/ss/sc/sç/x/xc.” O mesmo movimento combate o recurso à memorização e defende que a simplificação ortográfica dará origem à inclusão social.

Já tinha exprimido a minha opinião sobre os pressupostos deste movimento. Insisto: a aprendizagem, tal como qualquer outro processo, deve estar a salvo de obstáculos artificiais ou escusados, mas partir do princípio de que se deve facilitar para que todos possam aprender ou de que o treino da memória deva ser excluído é, antes de mais, antipedagógico e, portanto, censurável. Para além disso, sempre encarei os dicionários e os manuais como instrumentos de libertação.

Relembre-se que o senador Cyro Miranda, presidente da Comissão acima referida, já havia defendido que o início da vigência do acordo ortográfico deveria passar para 2018 e não para 2016, de modo a serem feitas alterações.

Face a isto, não me espantará que venham a surgir alguns linguistas portugueses a defender que verbos como “axar” ou “puchar” fazem todo o sentido. Vai ser o “mássimo”! Basta que haja pressões nesse sentido.

Talvez por aqui apareçam alguns iluminados a fazer referência ao meu antibrasileirismo por atacar esta coisa a que chamam acordo ortográfico ou porque me atrevo a discordar de opiniões de brasileiros, pecado capital para os seguidores da Lusofonia, cujos fiéis vociferam “nacionalista” ou “colonialista”, sempre que um português tem o atrevimento de criticar qualquer cidadão de outro país de língua portuguesa. Não me espantaria, aliás, que Millôr Fernandes viesse a ser queimado em efígie. Ou em esfinge.

Comments

  1. dora fonte says:

    Penso que, este extremismo contra o acordo, é completamente absurdo. Acordo é acordo, não passa disso. E não passa de ortográfico.
    Tendo em conta outras alterações ortograficas havidas, por exemplo: farmácia…
    Que arrepio é este, que faz correr tanta tinta, em tempos tão contorbados?

    • António Fernando Nabais says:

      Já eu penso que o extremismo a favor é, esse sim, absurdo. É importante que se informe mais, antes de emitir uma opinião sobre o assunto: as alterações ortográficas têm consequências em outros campos da língua e da cultura.
      Vivemos tempos conturbados no âmbito da língua e da cultura portuguesas, em consequência de um acordo ortográfico mal concebido e inútil.

    • Nightwish says:

      É olhar para o acordo e ver que, tal como acontece hoje em dia, é impossível de cumprir.


    • Que arrepio é este? Um ‘acordo’ feito à medida de uns tantos editores|distribuidores, que vem semeando o caos ortográfico, mercê da sua inconsistência de fundo – e do carácter contra-natura de muitas das suas directivas. Já “contorbado”, cara Dora, nem com ‘acordo’..

  2. Carlos Faraco says:

    Sempre achei que para “acordar melhor” a gente devia tomar menos uísque na noite anterior. Agora, os senadores brasileiros me dizem que é preciso mexer na ortografia?!??!! Espantadíssimo!!!

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  1. […] dicionários. As ideias do dito movimento têm penetrado no Senado e está, assim, em curso um processo de uma alegada simplificação que pretende levar os brasileiros e, pelos vistos, todos os países lusófonos, a escrever […]


  2. […] do AO90] constitui (…) uma forma de democratização da língua portuguesa.” No Brasil, o Movimento Acordar Melhor defende que a simplificação ortográfica deve ir mais longe, sempre com o objectivo de facilitar […]


  3. […] menos, um defensor do chamado acordo ortográfico que se opõe a essa ideia. Na minha opinião, acordar melhor é estar a […]

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