Nem tudo o que parece é

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Para Carlos Guimarães Pinto não faz sentido uma escolaridade obrigatória de 12 anos porque, entre outras coisas, “Portugal é o país da Europa, juntamente com a Holanda, que impõe mais anos de educação obrigatória.

É verdade. Sucede que Portugal é igualmente o terceiro país com mais abandono escolar na Europa (e estou a contar com a Turquia). E isso tem causas: foi, juntamente com a Grécia, o último país da mesma Europa a abandonar uma taxa de analfabetismo que explica esse mesmo abandono escolar, os problemas educativos são sempre geracionais. Como muito bem explica a Maria João Marques “atualmente é muito lesivo das perspetivas profissionais de um jovem com aproveitamento escolar que seja obrigado pelos pais (mesmo que por necessidades financeiras da família) a abandonar a escola, pelo que os pais não devem poder tomar essa decisão“.

Claro que podia igualmente discutir se um motociclista corre ou não mais riscos que um peão quando circula, justificando a obrigatoriedade do uso de um capacete, a lógica sendo uma batata não obriga necessariamente a que seja uma batata frita, e parece-me mais simples ir à origem ideológica da coisa: um tal Murray N. Rothbard escreveu  Educação: Livre e Obrigatória, onde defende descaradamente o fim de uma conquista civilizacional, a do acesso ao ensino, e o regresso às práticas aristocráticas de antanho, texto que além de idiota padece de uma atroz ignorância histórica. Está disponível na página do Instituto Von Mises, esse mesmo núcleo central do chamado neoliberalismo em português, aqui mais uma vez se afirmando como continuidade do absolutismo do Antigo Regime.

Mais valia assumirem a paternidade ideológica da brilhante ideia de recuperar o Portugal de 1973, já para não falar do de 1819. E tentar perceber porque até o CDS votou a favor da escolaridade obrigatória até aos 18 anos.

Comments

  1. Lenin Colares says:

    É muita ignorância chamar o Instituto Mises de “núcleo central do neoliberalismo”. http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=920


  2. Concordo com tudo.
    E sou do tempo em que, falta de obrigatoriedade os pais tomavam mesmo a tal decisão de retirar os filhos da escola.
    Só que, convivendo com as pessoas, era fácil observar que, para idênticos meios financeiros, havia atitudes completamente díspares.

    A escola é obrigatória, não para “ajudar os pais” mas para o bem das crianças.
    A escola é gratuita, isso sim, para ajudar os pais.
    Mas, aqui também, antes de mais para dar iguais oportunidades às crianças.


  3. a verdadeira razão disto tudo é voltar ao tempo da mão de obra semianalfabeta, sem qualificação nem diploma.
    Mão de obra dócil e sem possibilidade de obter escalões ou equiparações no quadro de qualquer contratação, sobre tudo colectiva.
    É isto e mais nada.
    O resto é conversa de cotovelo no balcão.

  4. Carlos Novais says:

    “onde defende descaradamente o fim de uma conquista civilizacional”

    Orwell avisou contra este tipo de linguagem.

    Portanto, conquista civilizacional é algo passar a ser obrigatório.

    Além disso ignora-se um dos motivos primeiros para o início do ensino obrigatório e em estabelecimentos públicos: para combater a influência livre e voluntária da Igreja Católica no ensino. Por isso, os países protestantes forma dos primeiros a implementar tal conquista civilizacional. Nos países católicos foi algo parecido por parte dos republicanos e outros.

    Quanto aos méritos, difícil provarem que o ensino formal a partir de certa idade é melhor em termos de resultados finais, para o próprio, que o ensino informal em ambiente de trabalho mais cedo.


    • Orwell avisou contra muita coisa, a começar pelos malefícios do capitalismo. Contra conquistas civilizacionais, não me consta.
      Essa afirmação sobre “os motivos primeiros para o início do ensino obrigatório” faz parte de uma das coisas com que se preocupou, motivo central do 1984: a revisão da História.
      Isso é completamente falso: o ensino público nasce sobretudo pela defesa do princípio burguês da igualdade de oportunidades, e contra o ensino reservado à aristocracia. É filho do capitalismo, e uma das condições sine qua non para a sua existência. Apagar este facto é um crime de lesa-Orwell, é apagar a História.

  5. Carlos Novais says:

    “Quanto aos méritos, difícil provarem que o ensino formal a partir de certa idade é melhor em termos de resultados finais, para o próprio, que o ensino informal em ambiente de trabalho mais cedo.”

    Falo dos casos de jovens que abandonariam o ensino formal por desconforto, falta de adaptação, ou necessidade, se não fosse obrigatório.


  6. É interessante quando usar um termo que tem conceito duvidoso, como neoliberalismo, colocar o que significa para você. Neoliberalismo é geralmente um termo utilizado para descrever a Escola de Chicago, que faz parte do mainstream, enquanto o Mises Brasil defende a Escola Austríaca, que utiliza métodos diferentes – como a praxeologia -, sendo assim heterodoxa.
    Mas provavelmente nem você deve saber o que você quis dizer com “neoliberalismo”. É o típico papagaio esquerdista que só sabe falar reaça, neoliberal ou fascista, mas não sabe analisar com a mínima capacidade os fundamentos do pensamento de outra pessoa ou escola.

  7. Carlos Guimarães Pinto says:

    Obrigado pela referência. Se reparar, não contestei os princípios ideológicos por detrás da imposição de uma escolaridade obrigatória. Fiz um esforço para que o texto não fosse de todo ideológico, mas que partisse de uma lógica estatista de custo-benefício. Para entrar nesta discussão sem preconceitos ideológicos é preciso entender porque é que diferentes países têm diferentes níveis de escolaridade obrigatória e o que determina esses níveis. Naquele gráfico poderíamos colocar o Mali, que certamente está bem acima da Turquia em termos de abandono escolar. Justificaria isso o aumento da escolaridade obrigatória no Mali para 12 anos? Se não, porquê? Quando perceber a resposta a estas duas questões será mais fácil discutir.

    Já agora, é impressão minha ou o gráfico deste post só inclui jovens entre os 18 e os 24 anos, ou seja, jovens que não estão abrangidos pela escolaridade obrigatória?


    • Sim, o gráfico foi apanhado no google um bocado à pressa, não é o mais correcto para esta discussão, mas a posição de Portugal na faixa etária mais jovem é a mesma.
      Podemos falar de custo-benefício, sem dúvida, mas o ensino, quando o queremos “medir” tem de ser pensado geracionalmente.
      É provável que no Mali uma escolaridade de 4 anos chegue perfeitamente para dar o salto possível num país com uma elevada taxa de analfabetismo. Tentar saltos excessivos é um disparate, muito custo e benefício nulo (embora tenha sido feito com sucesso em alguns países asiáticos, mas isso é outro campeonato).
      Isto não é directamente proporcional: elevar a escolarização consegue-se de uma geração para outra, ciclo a ciclo, como foi feito, e bem, entre nós, desde a década de 60.
      A necessidade de tornar a escolaridade obrigatória até aos 18 anos é filha do abandono escolar, que a Maria João Marques explica muito bem: pais que estudaram muito menos que os filhos facilmente desvalorizam os seus estudos, é o clássico ele não precisa que eu também me desenrasquei com a 4ª classe, a que se soma a hipervalorização dos conhecimentos adquiridos na escola do antigamente, um mito completamente tolo mas que anda por aí à solta.
      Acrescento que se ela faz as suas observações com a experiência de empregadora, eu acrescento o ainda mais grave problema de os empregadores em Portugal terem uma baixa escolaridade, o que explica muita da debilidade da economia portuguesa. Como é que quem não fala inglês vai exportar para mais longe do que a Espanha?

  8. Joaquim Amado Lopes says:

    “Percentagem da população entre os 18 e os 24 anos que não continuou os estudos”
    Inclui quem tenha 24 ou menos anos de idade e já tenha completado um barachelato ou licenciatura?

    Já agora, para a discussão sobre a escolaridade obrigatória, não seria mais útil saber as taxas de abandono escolar por anos de escolaridade completados (<9º, 9º, 10º, 11º e 12º)?

  9. Eduardo says:

    Onde é que se já se viu os pais decidirem o futuro dos filhos… o senhor Estaline é que é indicado para fazer isso! Agora os pais… que raio de ideia…


    • Em que página do manual de instruções é que está essa do quando não temos nada para argumentar mandamos com o Estaline? é que ando à procura e ainda não encontrei.

    • nightwishpt says:

      Isso inclui o direito de lhes dar uma carga de porrada quando o glorigozo perde e de os molestar, ou é só para o que lhe convém?

  10. piet says:

    Aqui só uma pequena correção dos dados de comparação. Na Alemanha a escolaridade obrigatória também é de 12 anos escolares, ou mais exactamente até os 18 anos de idade de um jovem. Tem a ver que com as particularidades do ensino profissional dual, que quando um jovem não fazer a formação numa empresa (que típicamente inclui 1 ou 2 dias por semana na escola), tem que ir a escola full-time. Se me lembro bem pelo menos na Dinamarca e na Austria é a mesma coisa
    Cmprs


  11. Nada mais conservador e opressivo do que o ensino obrigatório. Assim você garante que o jovem vai desperdiçar o tempo com o que não gosta, onde ao final só será capacitado para fazer o que não quer, pois nunca teve tempo para desenvolver suas verdadeiras aspirações e aptidões. Mas o que importa é mão de obra qualificada para o regime e seus amigos.
    Qual a diferença entre o ensino obrigatório e uma pena criminal de serviço social? Não vale supor que todos os jovens adoram ir pra escola.


    • Tem toda a razão. Espero que nunca se cruze com um jovem que vai fazendo o que gosta, fora do ensino obrigatório, e desenvolve no corpo do Artur as suas aspirações e aptidões para o homicídio. Principalmente porque se ele for competente o Artur já não terá oportunidade para mudar de ideias.

  12. Vivendi says:

    O que é que se aprende mesmo nas escolas portuguesas?

    O ensino em Portugal está nivelado por baixo.Podemos auferir os resultados pela Imbecilização coletiva dos jovens (mereciam sorte melhor).

    O modelo subjacente à escolaridade obrigatória desvaloriza o trabalho produtivo, como se pudéssemos sobreviver sem produzir.

    Primeiro temos de perceber aquilo que o mercado precisa e depois aprofundar conhecimentos (de preferência técnicos). Quanto à cultura geral, a internet (ferramenta capitalista que os esquerdistas usam para falar mal do capitalismo) possibilita os meios necessários para aceder a uma série de informações em que cada individuo pode seguir o seu próprio caminho na busca do conhecimento.

    O instituto Mises só é o pior pesadelo dos socialistas.
    Ludwig Von Mises já tinha denunciado a falácia socialista antes dos resultados práticos da merda socialista virem ao de cima (só não previu os milhões e milhões de pessoas que seriam mortas em nome do socialismo).

    http://viriatosdaeconomia.blogspot.com


    • Ena, abriram os portões do Sobral Cid. Acho bem, sempre fui contra o internamento dos doudos.

    • nightwishpt says:

      Claro, isto por achismos e anedotas é como se deve fazer política.

    • Maquiavel says:

      “Viriatos da economia”? Bom apodo.
      Viriato era iletrado, vivia numa sociedade arcaica, só que era bom estratega militar;
      Viriato, por melhor pessoa que fosse, lutava contra uma civilizaçäo que traria o progresso e o avanço societal, arquitectónico, científico.
      Eu prefiro os “Romanos da economia”.

  13. migas says:

    Todos (ou quase todos) lhe chamam Mestre Agostinho da Silva.
    E, no entanto, ninguém (ou quase ninguém) considera as palavras do Mestre em relação à escola ou à universidade.

    Ao contrário dos socialistas, que consideram um avanço civilizacional a obrigatoriedade que hoje existe de todos frequentarem a escola, os liberais consideram um avanço civilizacional a oportunidade que hoje existe de todos frequentarem a escola.

    E com isto não pretendo insinuar que Agostinho da Silva foi um liberal, mas antes que os liberais têm um bocado de Agostinho da Silva.

    • Pedro says:

      “os liberais consideram um avanço civilizacional a oportunidade que hoje existe de todos frequentarem a escola.”

      Um doce se adivinhar como é que surgiu a “oportunidade que hoje existe de todos frequentarem a escola”…. repare que liberdade para frequentar a escola todos temos, assim como todos temos liberdade plena de comprar um ferrari. Aqui falamos de oportunidade, um conceito um bocado diferente.

  14. jorge says:

    A oportunidade que existe de todos frequentarem a escola surge da ausência de liberdade de uns a não pagarem a escola dos outros

    • nightwishpt says:

      E a oportunidade de não levar um murro nas trombas surge da ausência de liberdade de eu lho dar. São compromissos, uns mais difíceis ou menos lógicos do que outros.


  15. Quem precisa de escola…? Basta ler os comentários a este post. Chegada ao fim, concluo que o JJC está em plena forma.
    😀


  16. A escolaridade não deveria ser obrigatória até ao 12º ano, nem sequer até ao 9º, mas uma questão deixada à livre escolha dos interessados e família. Eventualmente nos primeiros anos a questão da alfabetização poderá ser colocada, mas ainda assim, tenho dúvidas. Tal como tenho dúvidas sobre o significado de neoliberalismo, palavra que surgiu há uns anos e logo virou moda. Talvez devessem empregar mais vezes a palavra neosocialismo, para descrever um conjunto de práticas que vão da escolaridade obrigatória ao salário mínimo, que vulgarmente ouvimos a esquerda catalogar como Estado social, procurando impor a toda a civilização os valores em que acredita sem direito a discussão ou opção de ficar fora do seu sistema. Mesmo quando este manifestamente falha. Porque precisam sempre encontrar quem pague a factura…


    • Fico a pensar se a estupidez é obrigatória para se ser de direita. Não acho que seja, mas um comentário deste quilate deixa-me dúvidas

    • nightwishpt says:

      É como a obrigação de tomar vacinas ou ter seguro na viatura, devia ser facultativo, não é?
      E usar as células cinzentas, não?


      • No caso de seguro contra terceiros, existe uma clara diferença, o prejuízo que pode ser causado a terceiros. Já no caso das vacinas, contraponho uma pergunta, qual a diferença para as pessoas que por motivos religiosos recusam uma transfusão de sangue ou tratamento? Deve a sociedade impor os valores ao indivíduo? A meu ver, não! Antes de tudo, a Liberdade!

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