A  Sopa e os segredos

Maria de Almeida

tacho

Soava a estranho a ordem de ir buscar dois tijolos e uns pedaços de ferro, restos de um móvel velho, que se havia queimado, já há uns tempos e com eles fazer uma pequena lareira, próxima da escada que dava acesso ao primeiro andar, da casa de “morar”.
Mas não havia muito a fazer. Naqueles tempos em que um não, a um pai ou a uma mãe, valiam por si só, um par de tabefes, que durante uns tempos não se esqueciam, quanto mais não fossem pelas marcas vermelhas que deixavam.

Era incompreensível para aqueles quinze anos, a irritação permanente que se vivia em casa já há uns tempos. O pai reclamava por tudo e nada, a mãe gritava e a intransigência face a pequenas brincadeiras tinha aumentado imenso.
Era estranho mas nada havia mudado muito: os filhos continuavam os mesmos cinco, o autocarro continuava a passar às seis e quarenta e cinco para chegar a tempo à escola, as notas continuavam as possíveis (nada brilhantes, mas também não eram negativas), não tinha havido (que se soubesse) nenhuma carta da escola para refrear a rebeldia (ai que boa aluna que ela podia ser se não fosse tão rebelde! – era a conversas recorrente da reuniões de pais na escola) e, para não variar, o almoço continuava as ser as já insuportáveis sandes de pão feito em casa pela mãe, recheadas de doce, feito das sobras das árvores que povoavam os poucos terrenos que se cultivavam.

Cumprida a ordem, que era aí que íamos antes de todo este intróito, havia o feijão para escolher e meter a cozer, as couves para a arranjar, os pauzitos para partir e fazer o necessário calor e aquela sempre inglória tarefa de acender a coisa, com meia dúzia de paus de fósforos.

O tempo corria. Os mais novos da prole divertiam-se em correrias, e a atirar pedras à panela, pela qual os quinze anos se haviam tornado responsáveis.

Chegou a altura de moer o que havia a moer. As couves do quintal, tal como as batatas já estavam cortadas em pequenos cubos e prontinhas a entrar na sopa.

“Mãe!!! Ó Mãe!!!” – gritava – “dê-me aí o azeite que já se está a fazer tarde para o meter na sopa.”

“Mãeeeeeeeeeee!!!!”

Era o que mais faltava! Ela nunca mais vinha e não tardava a panela estava no chão, à conta da melhoria da pontaria dos fedelhos mais pequenos.
Subi a escadas rumo a cozinha e sentada no mocho encardido, sob a mesa, repousava a cabeça da mãe, lavada em lágrimas.

“O gás acabou e não há com que comprar mais. E agora, pensava eu que havia azeite e nem isso! És capaz de ir à Luzia pedir um bocadinho? Mas, não contes nada! Fica um segredo só nosso, que já és grande”.

E assim foi: “Ó Ti Luzia arranja-me um “cadinho” de azeite que gastei o que a minha mãe me deu para a sopa, a aceder o lume.”
“Ó rapariga, saíste-me cá uma desajeitada! Toma lá e não lhe digas nada senão ainda levas outra vez!”

O azeite chegou à sopa. Ferveu um pouco e chegou a hora de a levar para a cozinha, onde os fedelhos já ocupavam os seus lugares, tal como o pai no seu topo habitual. Então, a panela mascarrada pousou por fim em cima do fogão a gás, agora sem préstimo, e de lá saiu a sopa que nessa noite, sem mais nada, nos encheu a barriga.

Acreditem que ainda hoje lhe guardo o sabor, tal como os segredos falsos com a Luzia e os verdadeiros com a Mãe.

Comments

  1. J. Edgar says:

    Para quem como eu, aprecia e se delicia com Torga, acho que este conto lhe assentava como uma luva!!! Muito bem Maria, é um prazer ler-te.

  2. Paulo Freitas says:

    Muito bom. Agora, neste Presente maldito, ainda tem mais sentido.

  3. Zé Manel Cunha says:

    Muito boa sopa…

  4. amarelo submarino says:

    Sim, muito bem construído e com “ambiente” . Infelizmente é uma memória que volta a ser actual…

  5. irene peres says:

    Mto bom mesmo

  6. Belinda says:

    Gostei muito! Faz mesmo lembrar tempos difíceis pelos quais alguns de nós passámos e que, infelizmente, estão a voltar para muitos portugueses.

  7. patricia duarte says:

    brilhante!!! vidas de outros tempos!!! tempo esse, que para alguns não será assim tão distante,e que para muitos continua…parabens!!!

  8. Augusto says:

    dos dias. que correm. e nos moem.

  9. Zé Povinho says:

    Infelizmente é disto, e muito mais coisas, que imensamente falta á nossa juventude e adolercencia! Evolui-se numas coisas e perde-se noutras! Mas estou para aqui a perder tempo e tenho que ir ao super comprar uma lata de sopa de rabo de boi! Inté dispois!

  10. Wanda Ribeiro Miranda says:

    Francamente muito, muito bom! E… uma lição de vida para as ‘exigências’ que actualmente se fazem…! Parabéns!!!

  11. mena says:

    Eu tenho 1 membro da família a pôr em pratica como se vivia há 100 anos atrás, E faz belas sopas! Defensor de que não é preciso ter tudo para se viver e ser feliz!

  12. Maria de Ameida says:

    Foram tempos complicados, mas, sem o sabermos muito bem, éramos felizes.
    Hoje os tempos continuam complicados e não me parece que os metafóricos “quinze anos” possam dizer o mesmo por falta de futuro.
    Obrigada pelos comentários.

  13. Tó Mordado says:

    sabes, lembra-me quando vim viver para a aldeia.. na cidade, é diferente… a não ser em bairros e casas que estão fora das vistas das pessoas menos atentas…havia pessoas a colher urtigas para fazer sopa.
    e lembro-me de alguns lugares que conheci na ilha da madeira, fora dos circuitos turísticos e que o alberto joão diz não existirem no seu reino….

  14. Tó Ramalho says:

    Gosto muito!… e da sopa, provavelmente, também!?… 😛

  15. Leandro Velosa says:

    Um tema saudável mas pouco valorizado!! Gostei!

  16. Vasco Trancoso says:

    Parabéns. Bem escrito e com uma sopa a rescender a uma infância que agora se repete. Ou não andassemos todos às “sopas” novamente. 🙂


  17. Parabéns, gostei muito ! Continua!

  18. Vasco Baptista says:

    temos escrito e escritora, não desistas 🙂 parabéns

  19. A. Gamboa says:

    Grande sopa de boas letras. Parabéns, continua.


  20. Tempos e vivencias que deviam apenas ser passado, hoje muito presentes para muitos, esperemos que este tempo se dissipe como o passado e que melhores ventos apareçam. Parabens à autora, é para continuar.


  21. Muito bom! O ambiente criado está perfeito. Muito realista. Senti o cheiro do lume e juro que consigo sentir o sabor daquela sopa.


  22. Gostei deste texto que conta “segredos”, segredos que hoje parecem longínquos, no entanto hoje infelizmente muitos outros segredos de pobreza ficam escondidos nas casas das famílias cada dia mais pobres e quantas vezes abrigadas pelos “segredos” que as protegem das vergonhas da necessidade.


  23. Muito bom, para quando um livro ? 😉

  24. Elisa Salgado says:

    Parabéns, gostei muito! Memórias que, infelizmente, ainda se revêm nos nosso dias…
    outras memórias “as boas” que ficam para a vida e, por mais voltas que a vida dê o “Ó mãeeee… é eterno! A cumplicidade entre mãe e filho é inigualável! 🙂

  25. Olga Vilan says:

    Adorei! Excelente retrato! Fico à espera do livro! 🙂

    • marés vivas says:

      Gosto muito! É tempo de não parares, a falta de nicotina contrariamente ao que é usual dizer-se, não tira inspiração. Beijinhos e continua. Marés vivas

  26. Teresa Henriques says:

    Lindo!!!!!
    Andei no tempo…
    Continua.

  27. Anabela Marques says:

    Gostei muito.
    Regressei mentalmente a um universo também meu, parte de uma história que, de certo modo, também foi minha… a aldeia e os seus segredos.
    Parabéns!


  28. Bem retratado e bem escrito. Deliciosa sopa de letras!

  29. Sandra Nobre says:

    Excelente estória, os meus parabéns à autora!!!

  30. Clément Gouvillier says:

    Delicioso… Tal e qual como os ingredientes, os sabores e cheirinho da Sopa e os Segredos que ela contém…

  31. Sandra Almeida says:

    obrigada pelo texto. cada vez mais uma realidase se muitos pais e filhos.

  32. Ana Amorim says:

    “Retrato” fiel da nossa antiga ruralidade, mas tão presente nas memórias de quem as experenciou e as quais não faz questão de as remeter para um baú velho e bolorento.

    Parabéns à autora que se revela pela sua escrita, de fortes e inesquecíveis raízes à “terrinha”.

  33. Mafalda Lopes says:

    Que bonito texto. Gostei muito. Parabéns 🙂

  34. cristina marques says:

    gostei muito! mesmo!!

  35. Manuel says:

    Parabéns.O interesse mantém-se até ao final. Quanto à história que venham outras o azeite não vai faltar…até lá!

  36. Hermínia Gomes says:

    Li a “sopa e os segredos” e trouxe-me recordações, vivi tal em casa da minha amiga de infância e sentia-me tão bem naquela família grande, pobre, mas também divertida e eu filha única, tão só na minha casa!
    Gosto muito da tua escrita, consegues agarrar o leitor.
    Continua porque é um legado. Deixas todos, os que gostam de ti, partilhar memórias e isso é magnífico!
    Nunca deixes de escrever!

  37. Conceição Monteiro says:

    É um texto magnífico! Afinal ainda existem coisas que não tem preço!
    Por isso nunca poderás deixar de escrever!


  38. são palavras que fluem nas lembranças da minha infância..adorei

  39. Luis Lopes says:

    Muito bonito. Há muitos segredos assim…


  40. Uma historia contada num futuro sobre um passado que é o presente.

  41. Natacha Narciso says:

    Aqui está uma sopa especial que despertou em cada um de nós, sabores e cheiros de outras eras. Ficamos a aguardar por mais memórias e outros intensos retratos.

  42. Manuel says:

    Uma saborosa sopa com segredos. Muito bem.Vidas e memórias de todos… (há ali uns “S” de gralha a sanar).

  43. José Matias says:

    Muito bem.
    Fez-me lembrar a casa da minha avó paterna e de uma das minhas tias.

  44. Graça Vicente says:

    Gostei muito Maria de Almeida!

  45. outono says:

    Grato!

  46. Marta says:

    Dá gosto ver o que escreve… quase que entrei nesse “mundo” e saboreei a sopa…continue. Estou ansiosa por ler mais…

  47. elsa rocha says:

    Gostei muito mesmo,penso ke nao podes parar deixaste me com agua na boca… 🙂

  48. Maria João menino says:

    Boa! Está enquadrado nos nossos dias 😉
    Parabéns à querida autora e beijinho grande 🙂


  49. Muito bom…
    Parabéns… =)

  50. Artur Duque says:

    Parabéns! Tens uma escrita que se adivinha fácil e muito colorida. Pareceu-me até ver a velha lareira da avó Margarida e vocês os muidos, correndo pela ampla sala, escada abaixo, escada acima… Tens que reunir os teus melhores trechos e publicá-los. Beijinho

  51. Mia carvalho says:

    Muito Bom! Adorei o ambiente, senti o cheiro do lume e o sabor da sopa. Excelente!
    Infelizmente muito atual. Parabéns Maria continua. Beijinhos . Mia Carvalho

  52. Rute says:

    Essa sopa devia ser uma delicia não é!? Agora sabes dar o valor…..quanto ao resto ….dos segredos ainda continuam!!! 😉


  53. Tal como na historia, todos guardamoss segredos…
    O da escrita em si, foi muito de ser revelado 🙂

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