Finalmente, a praxe

Sendo que sou estudante e estou inserida no sistema de ensino superior português penso que tenho alguma legitimidade para falar sobre este assunto.

Devo confessar que – devido à  natureza e à história da minha universidade – até há relativamente pouco tempo eu achava que as praxes nas universidades públicas eram brincadeiras em que a malta era pintada e faziam flexões e todos bebiam cerveja por 50 cêntimos. Sabia que Coimbra era uma excepção mas sinceramente não fazia ideia que na maioria das universidades a praxe era tão divulgada e tão universal. Entretanto, comecei a ler umas coisas e a falar com pessoas e a desenhar algumas conclusões. Escusado será dizer que a minha faculdade não precisa de retirar legitimidade da “tradição académica”. Isto tudo para explicar que a partir do momento em que entrei para a faculdade nunca me foi incutido que a tradição académica era importante para avaliar o valor de uma universidade, seja ela qual fosse.

O problema da praxe mede-se essencialmente não só pelas práticas que são abusivas mas por uma série de concepções erradas que se criaram nos meios estudantis á volta da chamada tradição académica. Ontem, no Prós e Contras onde os defensores da praxe foram absolutamente cilindrados, em especial pelas excelentes intervenções do Professor José Caldas (a Fernanda Câncio não conta porque claramente estava mais interessada no Twitter e apesar de ela achar que isto é ter uma postura “descontraída” é na realidade uma falta de consideração quase tão grande como os cromos que apupavam na assistência), ninguém mencionou esta questão.

(Pequeno aparte para dizer que é uma pena que os defensores da praxe não tenham ido buscar alunos mais articulados. O “second hand embarrassment” ao ver aqueles desgraçados foi enorme.)

Ou seja, eu não sou contra a tradição académica. Não acho mal que haja tunas, não acho mal que haja serenatas, não acho mal que haja jogos, não acho nada mal o traje (até acho piada àquilo do ponto de vista estético). O problema é que se começou a associar tudo isto à praxe: começou a gerar-se a ideia de que para um estudante participar na tradição académica tem que estar dentro da praxe. O que não é verdade e nos casos em que assim é devia deixar de ser. Gerou-se a ideia de que um estudante para fazer parte de um grupo académico-estudantil com traços de identidade próprios, que muitas vezes se relacionam com as próprias instituições, tem de fazer parte da praxe. A ideia de que um bom estudante de Coimbra tem que entrar na praxe ou um estudante universitário para aproveitar a experiência universitária tem que ser praxado primeiro. Ou seja, a ideia de que a praxe proporciona um estatuto de excepção – é daqui que nasce o elitismo, não só dentro da praxe mas fora dela. Quem praxa é “melhor” – e que quem tem este estatuto consegue aproveitar e ter acesso a uma série de coisas que os outros não têm. E é também por aqui que se gera a ideia para os caloiros de que a praxe é “obrigatória”. Pois mesmo quem não é coagido por meios físicos ou psicológicos a ser praxado, sente que está automaticamente excluído de uma série de coisas.

Quem quer acabar com a praxe não tem que vir repetir que a praxe é violenta – ou que pode rapidamente tornar-se violenta ou que há casos em que o é – porque isso é uma ideia que é partilhada pela maior parte das pessoas. E porque mesmo que ela não fosse violenta bastariam um ou dois casos em que as coisas se tornassem violentas ou abusivas, para dizer que as práticas têm que ser controladas. Quem quer acabar com a praxe tem que começar por contrariar a ideia de que a praxe é tradição académica, de que uma instituição tão antiga como a Universidade de Coimbra, tem mais valor e é melhor para os estudantes por causa da praxe. Por alguma razão é que, como disse Vasco Pulido Valente no Público, as universidades privadas com pouco nome e pouca reputação apoiaram e incentivaram este tipo de práticas. Só a partir daqui é que se pode começar a criar mecanismos que substituam a praxe por outras práticas.

Não é a proibição ou criminalização da praxe que vai resolver alguma coisa porque isso é uma ideia quase infantil e provavelmente difícil de por em prática. O que se devia estar a discutir seriamente são maneiras de “esvaziar” a importância da praxe no meio académico. A importância não só concreta mas também ideológica. Para fazer isto tem que se trabalhar com as universidades – não com as associações de estudantes. Porque a verdade é que as universidades são em grande parte coniventes com esta situação, e estranhamente ontem no Prós e Contras também não me recordo de ter ouvido isto mais do que uma ou duas vezes. O facto é que mais uma vez estamos a discutir um assunto sério, em que argumentos são repetidos até à exaustão mas que muito poucas pessoas conseguem de facto ir ao cerne da questão, o que se significa que daqui a uns meses a “tragédia do Meco” vai cair no esquecimento, até porque vai começar o Mundial, e não vamos falar mais disto até ao próximo “acidente”.

Comments


  1. A menina Daniela Major é uma Blogger com muita experiência e resolveu dar uma ajuda: É preciso que se discuta a praxe todos os dias, até fins de Abril. As eleições para europeias são em Maio. Os partidos do Governo agradecem.

  2. PQP a Praxe! says:

    A menina Daniela fez uma coisa ainda pior. Desvalorizou as intervenções da Fernanda Câncio por ter sido a única que provou que os excessos da praxe eram a própria praxe, a começar nos seus códigos. Aliás, provou que os praxistas violentos têm cobertura em códigos. E os twitter que a Fernanda Câncio enviou sobre a estudante algarvia do absinto não transmitiu um milésimo da repugnância que a praxista militante provocou.em quem a ouviu. A Universidade dela deve orgulhar-se de a ter lá. E os pais deverão estar babados.
    ———
    “Porque a verdade é que as universidades são em grande parte coniventes com esta situação, e estranhamente ontem no Prós e Contras também não me recordo de ter ouvido isto mais do que uma ou duas vezes.” Foram ditas as vezes suficientes, Daniela. Mas aposto que os responsáveis não ouviram nenhuma. 😉

  3. Maquiavel says:

    Pois é.
    Aqui na selvagem Finlândia vi há umas horas uma… PRAXE!
    Lá iam eles, todos trajados (aqui é um fato-macaco colorido), uns à frente vestidos de Tartaruga Ninja e tal, a cantar, e dirigindo-se a fazer “castigos”, alguns até envolvendo vender revistar para ganhar dinheiro para organizar eventos, ou até emborcar cerveja a preço de saldo!
    A tragédia! O horror!

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