O meu post de 25 de Abril

Demorei até escrever este post porque fui obrigada a pensar bem no que queria dizer. Nem sabia bem o que havia de escrever até que um sketch do Ricardo Araújo Pereira me iluminou.

A minha visão do 25 de Abril e do Estado Novo nem sempre foi aquela que é hoje. Desde muito cedo que tive opiniões e elas nem sempre foram as mais inteligentes, especialmente não o eram quando eram fruto de influências alheias. Felizmente, rapidamente me passaram, e hoje sou menos parva do que era há 6 anos. Ou há 6 meses, há 6 dias, há 6 horas. As pessoas devem, penso eu, evoluir.

Dei comigo a dizer há uns dias a um amigo que amava a Democracia e que amava a liberdade e que amava os deveres que delas advinham. Nos últimos meses, e isto até vem a calhar, comecei à procura de uma consciência europeia. Percebi que sou muito mais Europeia que Portuguesa, e penso que é mais interessante tentar compreender o que é a Europa do que compreender o que é Portugal – tarefa do meu ponto de vista, mais fácil, embora também difícil. Não é possível dissociar aquilo que como Portugueses somos e fizemos de um contexto Europeu. A Democracia e todos os direitos e deveres que ela implica fazem parte de uma herança cultural que nasceu na Europa e depois se expandiu. Não quero com isto dizer que um Europeu conhece melhor a Democracia ou é mais merecedor dela do que um Asiático ou Africano. A questão não é essa. Quero apenas dizer que a Democracia faz para bem e para o mal parte de uma herança cultural que vamos carregando. E que nós, portugueses, que gostamos de ser Europeus para umas coisas mas para outras não, também carregamos. E que isso é não um motivo de orgulho, porque não é isso que estamos a discutir aqui, mas sim uma responsabilidade adicional nos nossos ombros. Responsabilidade com a qual lidamos mais ou menos bem mas, verdade seja dita, por vezes, lidamos francamente e terrivelmente mal.

O 25 de Abril, o dia da Liberdade, o dia da Democracia trouxe para Portugal aquilo que nunca tinha tido antes. Tornou-nos melhores porque o sistema é o melhor e porque houve quem lutasse por ele. Agora faltamos nós. Agora falta tudo o resto. Nós, os portugueses, o povo e as elites. Após 40 anos o que é óbvio é que não sabemos ainda lidar com a liberdade, com a democracia. Quase como se não soubéssemos o que fazer com ela e sobretudo, como fazer, como usá-la, como nos revoltarmos, como a defender. Como se não houvesse seguimento.

O sketch que me levou a escrever este texto foi o da Maria do Céu Guerra. Ela, viúva do Estado Novo, debita todo um tipo de banalidades sobre o antigo regime que todos nós já ouvimos e conhecemos bem. O sketch é cómico e a pessoa ri-se mas é muito mais do que isso. Porque no fim do riso, ela diz, “Eu até acredito que a Liberdade possa ser uma coisa boa. Eu é que não tenho serventia para ela”. E esta frase assustadoramente simples resume muito dos últimos 40 anos. O que não pode acontecer é que resuma os próximos.

Comments

  1. rosaamarela says:

    Efectivamente foi a frase que resumiu tudo o que ela disse . A cereja em cima do bolo.

  2. E quem se serve dela como se serve, e não serve a milhões, é democracia ?? Eu diria que não – É o menor dos males de Churchill ?? onde está o nosso Churchil ??

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