To sam ja (this is I)* ou tudo está ligado
Este é o último postal desta viagem. Não vale a pena falar da nostalgia que sinto já. Já o disse ontem. De acabar esta viagem onde aprendi, como sempre, tantas coisas, mas sobretudo continuei a aprendizagem do que sou. E o que sou é isto. Esta mulher que aprende sempre, que nunca deixará de o fazer. Esta pessoa que caminha pelas ruas em cidades estranhas – algumas onde seguramente nunca mais voltará – e se sente também ela estranha. Isto sou eu. «To sam ja». «This is I». E isto que sou é tantas coisas que, mesmo que quisesse, jamais saberia por onde começar. Isto sou eu. Esta pessoa que perde e ganha oportunidades. Esta pessoa que vê tudo muito bem e escreve postais para si mesma, para a lembrança amanhã, para a memória que há-de vir nos dias longos do futuro.
Visitei hoje o belíssimo Museu de Arte Contemporânea. Gosto de arte contemporânea acima de todas as outras épocas. Nada a fazer. O Museu é grande. Tem um magnífico espólio, sobretudo de artistas croatas. Perco ou ganho no Museu quase 4 horas. E regresso depois ao centro da cidade (o MUS fica no Novo Zagreb, atravessando o rio Sava) onde como, onde tiro as últimas fotografias à Praça Josipa Jelacica, para regressar ao hotel, escrever este postal e abalar, já a seguir, para o aeroporto onde apanharei o avião que, desejavelmente, me levará a Lisboa, cidade a que pertenço mais que a outras, mesmo se não sou de nenhuma parte e sempre estranha.
Não escrevo habitualmente postais de Lisboa. Talvez escreva um (ou mais um, creio que já o terei feito de outras vezes) para o que penso ter deixado em Sarajevo. Em toda a parte onde estive, é certo, mas principalmente ao que julgo ter deixado em Sarajevo. E isto é mais do que posso explicar ou compreender. Um sentimento. Que dificilmente voltarei a ter noutro lugar. Talvez escreva um postal, em Lisboa, lembrando Sarajevo para um destinatário que está noutro lugar, longe de Lisboa, longe de Sarajevo e talvez longe do resto, como uma daquelas memórias que terei nos longos solitários anos que hão-de vir. Eu mesma, antes de tudo.
Não tenho mais nada para dizer a não ser que genuinamente gosto deste mundo pequeno em que acabamos por nos encontrar. As pessoas que importam. independentemente de onde somos, de para onde vamos, de quem e do que somos. Tudo está ligado. Em nós. Tudo faz sentido.
«To sam ja»
«This is I»
Isto sou eu. E regresso.
*título da exposição de Vlasta Dalimar, no Museu de Arte Contemporânea de Zagreb.