Aventar

O lado sombrio da emigração



Jornais de Lisboa fizeram-se eco do discurso assertivo que o deputado socialista Andrew Cash fez no parlamento federal, em Otava, contra sucessivos surtidas de agentes do CBSA (Serviço de Fronteiras do Canadá) em estaleiros de construção, centros comerciais, bilhares, padarias e cafés, em busca de emigrantes ilegais portugueses. O parlamentar, indignado, atribui estas acções a “discriminação racial” contra os portugueses. Compreendo o seu ponto de vista mas a minha experiência de 30 anos obriga-me a adiantar que o caso é ainda mais grave do que isso.

Na verdade, estas acções de força policial são sempre originadas por denúncias, muitas delas anónimas. E quem faz as denúncias? Pois aí é que está o grave e doloroso da situação: são sempre feitas por pessoas do mesmo país das pessoa que são denunciadas. Portanto, portugueses denunciam portugueses. Há mais mulheres denunciantes do que homens mas em ambos os casos, por infeliz coincidência que psiquiatras e sociólogos haviam de estudar para alertar as autoridades canadianas, trata-se de pessoas que foram sexualmente abusadas por familiares e/ou vítimas de violência doméstica. A perversão moral coze em caldo de inferioridade, despeito e inveja, saltando para o crime da denúncia quando apanha o mínimo pretexto. Vou dar-vos um exemplo. Uma jovem açoriana, a Ana, viu-se coagida pelo mau passadio e falta de trabalho em S. Miguel a entrar em Toronto como turista, deixando-se depois ficar e arriscar. Felizmente, encontrou trabalho de cozinha no restaurante dum português do continente. O processo de emigração foi iniciado, e demora sempre, mas ela trabalhava com gosto e ganhava bem a vida. Um dia, sentiu umas dores esquisitas no peito e como não tinha direito a assistência médica por ser ilegal, o patrão pagou generosamente essa assistência que se saldou, de imediato, por uma biopsia. Nessa mesma altura uma mulher da sua freguesia insistiu para que fosse viver em casa dela e do marido. De boa fé, Ana aceitou. Logo de seguida, a tal encostou-lhe facas ao peito: ia abrir um restaurante e contava com ela para ali trabalhar. Decente e bem formada, Ana recusou alegando que o patrão não merecia uma coisa dessas, pois lhe tinha dado trabalho, pagava-lhe bem e respeitava-a. A resposta da outra veio de recochete: ai era assim?, pois ela ia ver o que era bom. Ao amanhecer, a chamada polícia de imigração apareceu na casa, levou a Ana, em roupão e chinelos, para o hotel-prisão junto do aeroporto e deportou-a. Meia dúzia de dias depois desta brutalidade, o médico ligou para o restaurante à procura da Ana e ficou siderado quando lhe disseram que ela tinha sido deportada. Quis falar com o patrão e pediu-lhe que avisasse imediatamente a moça porque ela tinha um cancro da mama. Ana viveu o calvário da cirurgia nos Açores, da quimioterapia e radioterapia em Lisboa, tem uma saúde precária e vive dum magro subsídio da assistência social e de ajudas de pessoas de boa vontade, entre as quais se contam o antigo patrão e colegas do restaurante. Nada aconteceu à criminosa que a pôs nesta situação e é facil de calcular que esteja muito satisfeita com a façanha.

Apesar de tudo, a Ana ainda teve um governo regional que a ajudou. O Tiago Ferreira, que por estes dias faz três anos que foi encontrado morto na pensão onde vivia, viu negado apoio ao seu funeral para Tomar pelo patrão para o qual trabalhou, pelo Consulado de Portugal em Toronto (ao tempo dirigido por um diplomata retornado e intolerante, que espezinhou os funcionários e partiu sem deixar saudades), pela Secretaria de Estado das Comunidades (onde há sempre um Cesário de serviço) e pelo ex-governnte Miguel Relvas, esse que deve a carreira política ao concelho de Tomar, e também ficou a dever as salgadas contas do telemóvel que a câmara lhe deu. Todos eles ficaram indiferentes à fatalidade que atingiu um compatriota, obrigado a tentar a emigração por culpa dos maus governos do país.

O Canadá é um país que tem fama, e proveito, de ser generoso – muito embora o seja menos quando os conservadores estão ao leme do governo federal (e do actual podemos mesmo dizer que não é flor que se cheire). Mas o facto é que as autoridades canadianas desconhecem estes desvios de comportamento de portugueses residentes no seu território, desvios esses que, à face da lei canadiana, configuram crimes de ódio a serem severamente punidos. E não sabem porque, por sentirem vergonha ou por desmazelo, os deputados, ministros e vereadores luso-canadianos não têm a franqueza de abrir o jogo em sede própria. Se o fizerem, esta miséria moral acaba. Do estado português os emigrantes nada esperam dos sucessivos governos de Lisboa, muito embora seja de destacar a excepção que foi José Lello quando dirigiu a Secretaria de Estado das Comunidades. É bom que se diga claramente que o estado português falhou completamente a emigração e a Igreja portuguesa não soube, ou não pôde, formar padres que tivessem tanto civismo como fé, salvo raras e honrosas excepções.

O jornalismo é, acima de tudo, um serviço que se presta à comunidade. Não faço mais do que o meu dever alertando os possíveis candidatos à emigração para que tenham cuidado e pesem bem o salto a dar para fora do país. O seu inimigo não será nunca o povo que o recebe, mas os tarados que falam a sua língua. Não se julgue que isto acontece apenas no Canadá, acontece em todas as comunidades espalhadas pelo mundo. Por muito que nos custe a reconhecer, a inveja é um mal secular do nosso país.