Aventar

A manipulação de notas


A entrada para a Universidade em Portugal depende, na maior parte dos casos, da classificação final do ensino secundário, o que inclui a avaliação do trabalho dos alunos ao longo de três anos e os resultados dos exames, que poderão ter pesos diferentes conforme correspondam ou não a disciplinas específicas escolhidas pelas instituições de ensino superior.

Assim, um aluno que queira entrar para um curso superior tem de se preocupar apenas com as classificações. O “apenas” pode parecer estranho, como se tirar boas médias fosse fácil, mas a verdade é que ter como única preocupação uma média aritmética é empobrecedor e enganoso, porque não é garantia de que um aluno fique verdadeiramente preparado e, mais do que isso, não é suficiente para ficar a saber se escolheu o percurso académico que se ajusta às suas características.

São frequentes as referências à necessidade de rever o sistema de acesso ao ensino superior, que deveria passar por um papel mais activo das próprias universidades, uma vez que, no fundo, se limitam a seleccionar os seus alunos com base no trabalho realizado no ensino secundário. As razões para esta abstenção universitária serão várias, incluindo falta de recursos para realização de provas de acesso e de entrevistas, por exemplo.

Tendo em conta a realidade existente, é natural, portanto, que encarregados de educação e alunos se preocupem com as médias. Se houver escolas dispostas a inflacionar as notas de frequência e a dedicar mais tempo ao treino para exame, não faltarão clientes, assim haja dinheiro.

Segundo parece, o Conselho Nacional de Educação descobriu que há escolas que se dedicam a esse negócio, algo que já se sabia há muitos anos.

Este negócio, como qualquer outro, faz-se não tanto de segredos, mas sobretudo de silêncios. Entre muitos assuntos silenciados, sabe-se que, em muitas escolas, há pressões sobre os professores para que dêem as classificações pretendidas. Toda a gente se cala, por razões óbvias: cala-se quem precisa das médias, porque pode pagá-las; cala-se quem precisa de emprego, porque tem contas para pagar; cala-se o Ministério, porque pode ou pôde fazer de conta que não sabia de nada. É a pescadinha de rabo na boca, esse ouroboros tuga.

Estou à espera que os pândegos insurgentes, blasfemos e observadores venham explicar que este atropelo ético resulta do imenso poder dos professores ou dos sindicatos ou dos comunistas, que, para eles, coitados, é tudo a mesma coisa.