Quando eu morrer


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Hoje, já dia 2 de Novembro, mas ainda dia 1, celebrou-se mais um Dia de Todos os Santos. Dia de ida ao cemitério. Dia que se justificava ser feriado, já que as famílias aproveitam para se encontrar. Velar os mortos é apenas um pretexto e em muitos casos reúnem-se dezenas de pessoas em torno de um jazigo. É uma forma de recordar quem partiu e de estar com quem ainda por cá anda. Morte e vida são celebradas de mãos dadas. Mas claro que a nossa Igreja, ao ser confrontada com a necessidade de reduzir feriados religiosos, escolheu eliminar este. Um dos poucos feriados que realmente juntavam as famílias. Tem muito de pagão, é verdade, mas foi a própria ICAR que tentou abafar uma celebração bem mais ancestral…

Hoje celebra-se a vida através da recordação dos mortos e dos seus feitos. A mim continua-me a fazer espécie aproximar-me de um buraco no chão coberto por lápides de mármore, sabendo que o corpo inerte do meu pai está algures ali por baixo desfazendo-se lentamente. Raramente visito o cemitério. Não suporto a ideia de o saber ali. Detesto ver a fotografia dele numa placa de mármore. Abomino sabê-lo ali. Sempre acreditei e defendi que a melhor homenagem que podemos fazer aos nossos mortos é tê-los tratado bem em vida. Que adianta ir regularmente ao cemitério, limpar campas, comprar flores, acender círios, se não os tivermos tratado bem em vida? Não foi exactamente o meu caso. Sempre «choquei» com o meu pai. Feitios demasiado semelhantes. Demasiadas diferenças de opinião. No entanto, já doente, visitei-o sempre que podia. Por vezes sabia que iria ser mal recebida, que iria ser maltratada, mas aparecia. O fim de vida dele não foi digno. Um homem enérgico preso a uma cama, a usar fraldas, dependente de terceiros para a higiene e alimentação, frequentemente com alucinações… Não foi bonito.

Sei que não estive presente tanto quanto devia. Sei que não dou o apoio que devia à minha mãe. Sei que não a vejo tanto como gostaria e isso vai radicalmente contra a minha teoria de tratar bem em vida porque o que importa e o que conta é a sua presença vivos. É isso que nos permitirá recordá-los depois de os perdermos.

Não quero, NÃO QUERO, que um dia as minhas filhas passem pelo mesmo que eu passo. Não quero que elas pensem na mãe como um corpo sem vida e em decomposição. Quero que elas se lembrem de mim viva.

Quando eu morrer, não quero ser um corpo inerte dentro de um caixão num buraco debaixo da terra com uma placa de mármore por cima.

Quando eu morrer, quero que me mandem cremar. Se possível, evitem-me o velório. Não quero estar ali exposta, um invólucro vazio de vida, um ser impotente.

Quero que me recordem com vida, sempre a resmungar, a andar de um lado para o outro.

Mandem-me cremar e espalhem as minhas cinzas por aí. Não me guardem num frasquinho. Não me prendam, por favor. Deixem-me voar nas asas do vento. Deixem-me subir ao topo das árvores. Deixem-me navegar nas ondas brutas do mar. Deixem-me deslizar no rio.

Não espalhem as minhas cinzas num lugar emblemático. Isso não! Um lugar emblemático ou especial obriga-vos a voltar lá e só lá conseguirão recordar com mais intensidade a vossa mãe. Não, espalhem-me por aí, nos montes e vales, nos rios e mares, ao vento e à chuva. Espalhem-me numa noite de tempestade, com trovoadas fortes e ribombantes, com relâmpagos brilhantes e assustadores. Isso sim, isso será a verdadeira celebração da minha vida. Eu, em harmonia com os elementos. Eu, nos braços do que de mais possante existe neste planeta. Ah, fantástico!

Desta forma, estarei sempre convosco.

Uma brisa trar-vos-à a minha voz, que vos sussurrará aos ouvidos as palavras de amor que vos sussurro depois de adormecerdes.

O cheiro de flores no ar recordar-vos-à do meu perfume, do meu cheiro característico, do odor dos meus cremes que vós gostais tanto de usar.

O chilrear de um pássaro trará à vossa memória as canções que vos cantei.

O travar brusco de um carro vai fazer-vos pensar num determinado episódio da minha vida.

O som do mar será para vós mais meigo e apaziguador.

A calma do rio certamente vos fará lembrar da energia que a vossa mãe tinha.

O crescimento de uma flor ou árvore far-vos-à reviver momentos da vossa infância passados com todo o nosso amor.

Por tudo isto, minhas filhas, se me quereis viva em vós, em tudo o que vos rodeia, se quereis sentir a minha presença e o meu amor nos momentos da vossa vida, por favor quando eu morrer não deixeis que me enterrem. Mandai-me cremar e espalhai-me por aí. Deixai-me voar e ser, finalmente, livre. Tudo isto, sabendo que aquele laço invisível de amor que nos une nunca se quebrará, mesmo quando eu morrer.

Comments

  1. O dia de finados é 2 de novembro.

  2. MJoão says:

    Gostei muito do que escreveu, bonito. Na verdade sinto o mesmo, o dia de todos os Santos era , apesar do local e por ele mesmo, mais uma ocasião da família se ver/reunir, a Igreja assim não o quis entender. Aliás, era dos feriados mais celebrados, talvez só ultrapassado pelo Natal

  3. luis coelho says:

    Estou inteiramente de acordo que este feriado devia continuar a ser feriado! Todavia estamos entregues a quadrilheiros, ladrõees e incompetentes que em nome de principios economicistas pensam que retirando uns quantos feriados, resolvem todos os problemas que eles próprios criam, o que está mais do que provado que é mentira quando verificamos que a nossa divida comtinua a aumentar.No que respeita aos meus mortos e aos meus vivos, não os vou ver e atender só quando posso, fui e vou sempre que é preciso enquanto me puder mexer. No que respeita ás visitas ao cemitério e á forma como nos vamos tornando em pó não há nada a fazer é assim desde sempre na nossa tradição e assim irá continuar, mas reconheço que será muito cómodo para quem não lhe apetece ir ao cemitério, escudar-se em frases condoídas. no que respeita a ser cremado, acho muito cómodo para quem cá fica e não quer ir ao cemitério! Comigo farão o que entenderem, já que diz a ciência que corpo morto não sente nem dá ordens, mas francamente ainda não estou preparado par aceitar ser churrascado!

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