Um Parlamento que vive acima das suas possibilidades


parlamento(vive acima das suas possibilidades e trabalha quando lhe apetece, como fica provado pela foto em cima)

No espaço de um ano, o prejuízo da instituição Assembleia da República passou de 680 mil euros para 6.17 milhões. Uma subida, assim em contas de merceeiro, na ordem dos 907%. A coisa torna-se particularmente peculiar se considerarmos que o conselho de administração do parlamento é presidido por Albino Azevedo Soares (sim, o tal que ajudou a tentar encobrir o esquema do Passos), membro do partido cuja propaganda vomita rigor à mesma velocidade que Miguel Relvas tira um curso superior (um homem fala do Relvas e até rima!).

Claro que a culpa desta situação, como não poderia deixar de ser, é do bode expiatório do costume: o infame Tribunal Constitucional, essa brigada revolucionária ao serviço de esquerda irresponsável e sinistra, que desceu à terra para minar o caminho torto por onde o PSD vai escrevendo direito. Para os infiéis que não acreditam é ver o mais recente vídeo de propaganda laranja. Ou o ministro da propaganda iraquiano que vai dar ao mesmo.

Quem também faz parte do conselho de administração do parlamento são José Lello (PS) e Couto dos Santos (PSD), que ontem apresentaram uma proposta conjunta para repor as subvenções vitalícias dos ex-políticos. Esta malta do bloco central até pode fazer de conta que não se entende mas quando o seu futuro está em jogo, o verniz estala e os bandalhos são expostos. É que é preciso ser mesmo um bandalho para estar a gastar tempo pago pelos nossos impostos para preparar propostas para agradar às clientelas partidárias. E mesmo que as lideranças partidárias reflictam e ainda consigam fazer algum damage control, a verdade é clara e as intenções desta gente não deixam margem para dúvidas.

A nós que assistimos, com a serenidade ovina que nos é conhecida, continuam a vender-nos a fábula do português comum, esse irresponsável que viveu acima das suas possibilidades e que andou por ai a comprar frigoríficos e a mandar os filhos para a universidade, à revelia do superior interesse alemão. No mundo real, quem parece viver infinitamente acima das suas possibilidades é este parlamento, com destaque para aqueles que nos últimos 40 anos decidiram sobre todas as matérias que nos levaram até aqui. Como é que ainda existe tanta gente a votar em bandalhos?

Comments

  1. E o Para Lamento serve exactamente para quê?
    Além de servir para velhos gagás coçarem a micose e candidatos a desgovernantes se exibirem e ofenderem alegremente uns aos outros (exercício após o qual todos vão tranquilamente jantar)?
    Porque carga de água tenho eu de andar o mês inteiro a trabalhar e a descontar a maior parte do salário para alimentar estes parasitas inúteis?
    O que estes 230 bandalhos fazem não era igualmente feito por 2 ou 3? Ou melhor, por nenhum?

  2. José Honório says:

    Só um reparo: é conselho de administração e não concelho de administração. De resto concordo com tudo.

  3. Jorge says:

    Confesso que não vos percebo. Ou não leram bem a notícia? O Orçamento de Estado para 2013 não previu transferências para a AR de forma a cobrir o pagamento dos subsídios que o governo infamemente tentou cortar e outros encargos com pessoal O prejuízo decorre daí. O Tribunal Constitucional decidiu, e muito bem, que os subsídios de férias e de natal que o Governo tentou cortar tinham de ser repostos. E vocês defendem o quê? Que um trabalhador, só por trabalhar na AR (seja empregada de limpeza ou assessor das comissões parlamentares), não deve receber subsídios de férias e de natal?! É isso? Devem ter menos direitos do que os outros, só porque trabalham no parlamento?! É mesmo isso que vocês defendem?!!

    • Vou repetir o/a MJoão: e isso justifica um aumento de 900%??? Sejamos sérios, sim?

      • Jorge says:

        Meu caro, até podia ser 10000%, que não mudava uma vírgula ao que disse. A percentagem de aumento do prejuízo depende, obviamente, do valor do prejuízo do ano anterior. Imagine que lá no seu condomínio resolvem que no próximo ano não vão pagar subsídios de férias e de natal à senhora da limpeza (ilegalmente, claro, tal como fez o governo), e, por isso, não põem esse valor no orçamento. Vamos imaginar que são 1000 euros. A senhora, com toda a razão, recorre para o tribunal e o tribunal obriga o condomínio a pagar-lhe os subsídios. O condomínio terá de pagar os 1000 euros e, por isso, chega ao fim do ano com um prejuízo de 1000 euros (porque não havia receita orçamentada para cobrir esse valor). Agora imaginemos que o prejuízo no ano anterior tinha sido de 1 euro. Ena, um aumento de 1000% no prejuízo de um ano para o outro, que vergonha, que escândalo!!!!… Isto chega-lhe ou ainda não?

        • Pena que o seu exemplo não faça aqui muito sentido. Ou você acha mesmo que isso justifica que o prejuízo aumente 5,5 milhões no espaço de um ano? Quantas pessoas trabalham na AR? 200 mil?

          • Jorge says:

            Meu caro, não é muito bom em contas, pois não? 5,5 milhões a dividir por 200 000 dava 27,5 euros, ou seja, 13,75 euros de subsídio de férias e 13,75 euros de natal. Acha que é isso? A assembleia tem um quadro de pessoal de uns 400 ou 500 funcionários. Além desses, há que contar com a reposição dos dois subsídios para todos os funcionários reformados. E há ainda os subsídios de férias e de natal dos deputados, acho que também os recebem, e também estes tinham sido alvo do corte depois chumbado pelo tribunal constitucional. Pode achar que os deputados não deviam receber subsídios de férias e de natal, mas isso é outra discussão, que é bem diferente daquilo que escreveu neste post.

            Meu caro, também achei a história das subvenções vitalícias dos deputados uma vergonha, mesmo tendo sido retirada hoje. Agora, nisto que escreveu, acho que não tem razão nenhuma. A alternativa era manter os cortes (subsídios, pensões, etc.) apesar do que o tribunal constitucional decidiu. Por isso comecei por lhe perguntar se era mesmo isso que defendia. Se não defende, então estamos de acordo.

            P.S. Não trabalho no parlamento.

          • Por acaso não sou particularmente hábil com os números. Mas parece-me óbvio que o número 200 mil foi usado com a intenção de hiperbolizar a questão. De qualquer forma, vamos assumir que a AR tem 500 trabalhadores, já a contar com deputados e outros inúteis que por lá andam. Se dividirmos os 5,5 milhões de aumento da despesa estamos a falar de 11 mil euros por cabeça. O que me parece um absurdo na medida em que empregados de limpeza, bar e recepção nem metade desse valor devem ter a receber. Quanto aos funcionários reformados, é a AR que lhes paga os subsídios?

            Eu não acho que um deputado deva ser descriminado ao ponto de ficar sem subsídio. Pessoalmente acho que deviam ou receber um salário exponencialmente mais baixo ou então serem bem pagos com a possibilidade de serem despedidos em casos de incompetência, faltas permanentes de assiduidade (deputado que é deputado anda sempre no passeio, almoço aqui, fita cortada acolá and soo n). Eu defendo que o TC deve ser respeitado nas suas deliberações como qualquer órgão de soberania, a partir do momento que não esteja a deliberar em funções dos interesses das suas clientelas. Aí estamos de acordo. Mas mantenho a minha: até prova em contrário, não acredito que este aumento exponencialmente da despesa/dívida da AR seja derivado da questão salarial/subsídios.

            Quanto à onda antiparlamentarista que por aí anda, ora bem, são tempestades que se colhem. Ou acha que devemos tolerar os abusos da escumalha para defender uma suposta democracia instrumentalizada pelos partidos? Não sou adepto de regime totalitários ou de partidos únicos mas esta democracia não serve. Ou é profundamente reformada ou temos que começar a pensar seriamente num sistema novo porque este não responde aos problemas actuais: agrava-os.
            Finalmente, este post não se refere a outros anos mas apenas a 2013 e 2014. Podemos discutir os outros anos se achar relevante mas os limites temporais parecem-me muito claros. E a verdade é que, de 2013 para 2014, a despesa aumentou. Independentemente de ter ou não motivos para isso. Este parlamento vive mesmo acima das suas possibilidade e o trabalho que desenvolve não é merecedor sequer de metade.

  4. MJoão says:

    Mas se decorre do pagamento dos tais subsídios não aumentava 900%.

  5. Jorge says:

    Maria João, o que aumentou 900% não foi a despesa da Assembleia da República, foi o prejuízo anual, ou seja, a diferença entre despesas e receitas. Em 2012, não se pagaram subsídios de férias, nem de natal, aos funcionários, porque o Tribunal Constitucional, embora tivesse, e bem, considerado os cortes inconstitucionais, o admitiu nesse ano a título excepcional. Em 2013, o orçamento voltou a não contemplar as verbas para o pagamento dos subsídios, mas desta vez o Tribunal Constitucional não foi na conversa. Os subsídios tiveram de ser pagos aos funcionários, mesmo não havendo verba para isso no orçamento (por teimosia do governo, que não o fez num dos orçamentos rectificativos). O resultado é, obviamente, um prejuízo no final do ano. Não transformem é isto em algo que não é…

    • Again: 900%??? Really?????

      • Jorge says:

        Meu caro, até podia ser 10000%, que não mudava uma vírgula ao que disse. A percentagem de aumento do prejuízo depende, obviamente, do valor do prejuízo do ano anterior. Imagine que lá no seu condomínio resolvem que no próximo ano não vão pagar subsídios de férias e de natal à senhora da limpeza (ilegalmente, claro, tal como fez o governo), e, por isso, não põem esse valor no orçamento. Vamos imaginar que são 1000 euros. A senhora, com toda a razão, recorre para o tribunal e o tribunal obriga o condomínio a pagar-lhe os subsídios. O condomínio terá de pagar os 1000 euros e, por isso, chega ao fim do ano com um prejuízo de 1000 euros (porque não havia receita orçamentada para cobrir esse valor). Agora imaginemos que o prejuízo no ano anterior tinha sido de 1 euro. Ena, um aumento de 1000% no prejuízo de um ano para o outro, que vergonha, que escândalo!!!!… Isto chega-lhe ou ainda não?

  6. Jorge says:

    Ao contrário do que sugere este post, as despesas correntes da assembleia da república têm vindo a diminuir todos os anos. A única excepção foi 2013, e só subiram de 2012 para 2013 porque em 2012 tinha havido os cortes dos subsídios de férias e de natal (e outros), que foram repostos em 2013. Se compararmos 2013 com 2011, em 2013 as despesas correntes da assembleia da república diminuíram face a 2011. Se compararmos com 2008, a diminuição é significativa: 37%.
    É preciso ter cuidado com o que se escreve, porque para onda antiparlamentarista já basta a que existe por aí.

  7. Acacio says:

    JM no preciso momento em que estava a teclar para elogia-lo, nao e’ que entalei o dedo no teclado e la se foi a unha… Foda-se! Doi mesmo.

  8. Não são 40, são 38.

  9. Jorge says:

    João Mendes (comentário de 22/11, 23:10h):

    Não, não é de 2013 para 2014, é de 2012 para 2013 (de 2014 ainda não há contas, não chegámos sequer ao fim do ano!). Eu invoquei a evolução desde 2008, porque as contas mostram que a despesa corrente da AR tem vindo a descer todos os anos. Só subiu de 2012 para 2013. Mas a de 2013 é mais baixa do que a de 2011 e do que a dos anos anteriores. E o senhor continua a achar que é só coincidência o facto de 2012 ter sido precisamente o ano em que a despesa foi muito mais baixa do que o normal, por não terem sido pagos subsídios de férias e de natal e todos os encargos do parlamento, enquanto entidade patronal, associados ao pagamento desses subsídios (Segurança Social, Caixa Geral de Aposentações, ADSE, etc.).

    Não sei se o parlamento gasta ou não demais. Admito que me convençam do contrário. Mas com base em factos concretos. Se o senhor tivesse estado a analisar as contas do parlamento e escrevesse um post em que explicasse, justificado nos números, que “isto, isto e isto não bate certo”, eu estaria aqui a apoiá-lo. Mas a suspeita sem justificação concreta, a suspeita pela suspeita, a suspeita porque “não acredito que seja isso”, até “prova em contrário”, não leva a lado nenhum! O senhor nem sabe quantos trabalhadores tem o parlamento, além dos deputados!

    Quando falo de onda antiparlamentarista, é nisto que falo. Porque não ficarmo-nos pelo que já é mau, escusando-nos de acrescentar, sem fundamento concreto, que é pior ainda? Outro exemplo: a legenda que o senhor pôr na imagem do início deste post revela desconhecimento de que o grande grosso do trabalho dos deputados não é no hemiciclo, é nas comissões. Esse é menos visível, mas há um canal parlamento (que pode ver na net) pelo qual pode constatar o que lhe estou a dizer. Portanto, o facto de haver lugares vazios naquela imagem não significa “faltas ao serviço”. Ao dar a entender o contrário, está a prestar um péssimo serviço à democracia. Está a dar a entender que os deputados estão a ganhar ordenado e nem sequer põem lá os pés.

    Há deputados de qualidade no nosso parlamento. Infelizmente, estão a diminuir (alguns saíram para as autarquias), e grande parte dos deputados são de uma mediocridade preocupante. Concordo. Desde logo, é necessário mudar o sistema eleitoral. Mas também lhe digo, não chega mudar o sistema: os deputados que temos são a imagem do povo que os elege. Um povo que, aliás, tudo tolera quase sem protestar. Não é por acaso que levámos com 50 anos de ditadura criada e mantida por um crápula travestido de “sério e honesto”, que também apareceu a falar de um “sistema novo”, aproveitando a onda antiparlamentarista que se tinha instalado. Não estou a dizer que é isso que o senhor quer. Mas há que ter cuidado com o que difundimos sem fundamento sério, porque podemos ser nós a estar a semear as tempestades…

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  3. […] Rosa Albernaz (PS), outra das subscritoras do pedido de fiscalização sucessiva, encarnou também o papel de desgraçadinha e referiu mesmo a existência de “situações dramáticas” de ex-deputados e ex-autarcas. Só faltava dizer que não tinham o que comer. É preciso ter uma imensa cara-de-pau e não perceber minimamente o que se passa neste país. Será a estes que se referem aqueles que passam a vida a insistir na narrativa dos portugueses que viveram acima das suas possibilidades? […]

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