Também eu falo de Charlie


Deixei passar esta semana para escrever sobre os acontecimentos de dia sete de Janeiro. Li bastante, várias opiniões, passei eu também por várias fases e agora cá estou.

Charlie Hebdo é uma revista satírica que faz parte de uma tradição humorística não só “muito francesa”, como se tem dito por aí, mas ainda mais relevante, uma tradição que deriva do Maio 68. Nem Deus nem mestres, como Wolinski dizia. Independentemente do que faziam ou escreviam ou desenhavam, nada, mas nada, mas mesmo – garanto-vos – nada justifica a morte de alguém. As pessoas civilizadas como eu e espero também como o leitor são contra a violência, são contra a morte de alguém em retaliação por ofensas reais ou imaginadas no cérebro de loucos.

Contudo, não foi a esta conclusão que muitas das pessoas chegaram. Temos agora debates sobre a liberdade de expressão. “Afinal eles provocavam…”. Foi-se desencantar a história sobre o Philippe Val e o Siné que foi despedido por antissemitismo. “Ai, afinal eles próprios não eram assim tão pela liberdade de expressão…”dizem as pessoas com uma desonestidade intelectual estonteante porque sabem perfeitamente que Val não estava no jornal desde 2009.

Meus amores, qualquer pessoa que comece a frase, “Eu não concordo que se mate pessoas MAS” são pessoas que não interessam. Porquê? Porque estão a tentar justificar o injustificável. Porque estão a culpar as vítimas. E porque estão a confundir as coisas.

É verdade que não devemos contribuir para a discriminação de grupos que já são discriminados. É verdade que não devemos contribuir para a opressão. Isto é absolutamente verdade. Mas perguntemo-nos sinceramente. O Charlie Hebdo era um instrumento de opressão? Um jornal que criticava e espero que o continue a fazer, aqueles que de facto contribuem de uma forma muito real para a discriminação: a Frente Nacional, racistas no geral (veja-se as capas em relação ao Dieudonné), os sucessivos e ineficazes governos. Vamos ser francos: é um jornal, com 60 mil exemplares por semana, que é odiado (como veio dizer Jean Marie Le Pen para não haver dúvidas) pela extrema-direita, que critica os valores “burgueses” (à falta de melhor palavra) da sociedade um instrumento de opressão? A sério? Mas francamente? Um jornal satírico que esteve durante os últimos anos à beira da bancarrota? Quer dizer, o Charlie Hebdo um jornal satírico que gozava com as pessoas que têm de facto poder para perpetuar formas de discriminação, que gozava com a mentalidade de grupos que perpetuam essa mesma discriminação, é também ele um instrumento de opressão? Não me parece.

Não quero com isto dizer que o Charlie Hebdo é uma publicação livre de defeitos. Cometeram vários erros. Philippe Val é um bom exemplo apesar de ter sido agora trazido à baila pelas piores razões. É evidente que podemos considerar que o jornal se excedia na defesa da laicidade, que era ofensivo e vulgar. Podemos até dizer, se calhar, que foi um “jornal de esquerda” que se desviou do caminho (se caminho houvesse para desviar). Mas nada disto significa que um seja 1- um instrumento de opressão 2- que a pena por ofensa seja um tiro. Quem está ofendido, não lê, não vê, não compra. Quem está ofendido, protesta. Quem sente que aquele jornal contribuía para a discriminação usa os tribunais porque são estas as armas das democracias. Claro que esta é uma linguagem que não se aplica a terroristas. Tal como já foi referido por várias pessoas, não podemos cair no erro de racionalizar o comportamento dos terroristas porque ao fazermos estamos imediatamente a tentar justificar. E tal como não justificamos os massacres do Boko Haram, tal como não justificamos o blogger da Arábia Saudita que está a ser torturado até à morte, tal como não justificamos Karl Brandt ou Himmler. Falar de ineficientes políticas de imigração, falta de integração ou de colonialismo é sempre válido mas não no seguimento destas discussões. Não para justificar a morte de 17 pessoas.

Infelizmente, também houve pessoas que não perceberam que esta onda de solidariedade e admiração pelos cartoonistas não equivale necessariamente a uma aprovação imediata do conteúdo do jornal. Houve aqueles que começaram a agir com algum grau de imaturidade e disseram – para fingir que pensam outside the box – que “je ne suis pas charlie”, muitos deles vindos da esfera anglofóna e armados com uma tremenda desonestidade intelectual porque nem se deram ao trabalho de traduzir os cartoons e procurar pelo contexto.

Pessoalmente, admiro o Charlie Hebdo. Admiro não necessariamente por aquilo que eles publicam ou publicaram, mas porque há neles inerente uma noção de irresponsabilidade – uma irresponsabilidade que não pretende influenciar ninguém, que não pretende fazer dinheiro, que não pretender fazer o leitor ir por este ou aquele lado – que eu acho saudável. Que eu acho importante existir numa democracia que tem por base a liberdade de expressão e de opinião. Não vejo as pessoas que morreram como heróis porque eu não acredito em heróis. Os heróis são sempre fabricações, são sempre idealizações. Eu não acredito nisso. Acredito em coragem, acredito em audácia (l’audace, toujours de l’audace), acredito em fazer o que me dá na gana sem ter que ter medo, acredito em dizer e fazer o que me apetece sem medo. E eles eram isto. E por isso, são dignos de admiração.

É também por isto que eles se tornaram símbolos. Para bem ou para mal eles tornaram-se agora, no imaginário geral, símbolos da Liberdade de Expressão e da Democracia. Na realidade, e para sermos precisos, eles já personificavam estes valores antes quando mesmo depois de ameaçados em 2011 continuaram a publicar o jornal e os cartoons. Mas eu detestaria que eles fossem reduzidos a isto. Detestaria que o Charlie Hebdo fosse reduzido a um símbolo, a uma frase para por em t-shirts, a um slogan que sai da boca de gente como Hollande e Netanyahu. Detestaria que começasse a ser utilizado e instrumentalizado politicamente por pessoas que nada têm a ver com o jornal – que muito provavelmente sempre o detestaram. Isso é contra o propósito e o ethos do próprio jornal. Não, não quero isso. Eles são um símbolo mas não podem ser só isso. Eles são homens que morreram porque desenhavam. E é assim também que devemos por as coisas. É assim também que percebemos o quão absurdo é eles terem morrido. Eles são um símbolo mas não podem ser só isso.

Je suis Charlie e por isso quero que eles continuem a ser como sempre foram. O símbolo não pode matar a realidade.

Comments

  1. Augusto says:

    É esse mesmo o espírito Charlie, Daniela. Temo no entanto que muitas pessoas não o tenham entendido assim. E muitas vão ficar decepcionadas quando abrirem a revista que tanto terão pugnado para obter.
    Sou do tempo do Hara-Kiri, que era como se chamava o Charlie Hebdo, anteriormente. Vivia em Paris e sentia muito mais o ambiente gerado pela publicação.
    Sofri com a morte de Wolinsky que me fez rir durante mais de 40 anos.
    Sofri com a morte de todos os outros, vítimas de fazer humor.
    Já agora fiquem sabendo que se pode receber as capas da revista por email, sempre que sai. Pelo menos era assim, espero que continuem.

  2. Reblogged this on O Retiro do Sossego.

  3. Sarisa says:

    Acho que foi uma óptima estratégia esperar e analisar todas as perspectivas e só então formular uma opinião. Eu fui também formando a minha. Logo à partida fiquei impressionada com as mortes assim como fico sempre que leio notícias destas. Fiquei também com as 30 pessoas que foram mortas pelo enfermeiro alemão que andava entedeado. Quanto à revista em questão, acho horrível. Vi os desenhos sem qualquer ideia pré-concebida, na altura tendo em conta o que lia até esperava encontrar ali um humor inteligente, com mensagem que ajudasse as pessoas a pensar e acabei por não ver ali humor nenhum. Fez-me recordar aqueles colegas parvos da escola que nos ofendiam e tentavam ridicularizar e ainda queriam que achassemos piada senão não tinhamos humor. Eu passava sempre por mau feitio por não aceitar as ofensas. Quando vi aquelas imagens senti isso. Senti-me ofendida e nem é nada comigo… Para mim aquilo não é humor, é bullying.

    • tekapa23 says:

      Cada qual tem o seu sentido do humor. Tem esse direito. E se não gosta, não olhe.

    • José almeida says:

      Sarisa, concordo com o que diz, e sobretudo a frontalidade. Para mim aquilo também não é humor. Estou em paz com qualquer religião. Gostei da frase … “Para mim aquilo não é humor, é bullying”. Sou Charlie, MAS…

      • Sarisa says:

        Eu sou a favor da liberdade de expressão e por isso não sou definitivamente Charlie. Pois aquilo não representa liberdade de expressão alguma… Mas sim a tentativa de ter a liberdade de ofender.
        Tekapa23 pode ter a certeza que não olho. Olhei só para ter a minha opinião, já que diziam que represantava a liberdade de expressão e tinha um humor espectacular. Desde então acredite, não olhei mais. Mas obrigada pelo conselho!

        • Daniela Major says:

          Está a ver?
          Não foi preciso dar um tiro a ninguém. Bastou a sessão de desanuviamento na secção de comentários de um blog.

        • tekapa23 says:

          Obrigado, Sarisa pela sua resposta que, ao contrário do que se costuma ver por estes foruns, foi educada. Assim, ficamos ‘cada um na sua’, cortezmente.

    • Maria João says:

      Não tem nada a ver comparar cartoons com ofender pessoas. 1º – os cartoons são para quem os quer ler, vêm num jornal que é preciso pagar para ler; quem se sente ofendido vai pagar para se sentir mal? No bullying a criança não tem como não ouvir – não tem liberdade de escolher se ouve ou não: é coagida a…
      2º – No bullying há ofensa a uma pessoa concreta, nos cartoons são sátiras a ideias, crenças; se qualquer um de nós se identifica de tal forma com uma crença que a sua identidade não se separa dela, sentindo-se ofendida pelos cartoons, isso não é de todo saudável, pois bem sabemos que crenças, ideias, não são verdades absolutas, com o tempo vamos mudando, alterando algumas, há quem mude de religião. Não, as coisas não são de todo comparáveis… E depois se falarmos de desrespeitar a religião, quem mais a desrespeita? Os cartoonistas ou os que matam em nome de um Deus?

    • ferpin says:

      Se quiser é uma espécie de bullying do david contra os golias.

      Na minha opinião por vezes não tinha sequer piada, era muitas vezes ofensiva, mas a sua existência é por si só a garantia de que se vivia em democracia.

      Faz-me lembrar o John Stewart, que era a única coisa que, em período Bush, me convencia que os EUA ainda eram uma democracia. Se bem que em termos de qualidade o John Stewart é muito melhor. Ah, e embora judeu, nem os judeus lhe escapam.

  4. Rui Esteves says:

    Daniela, apoiado. Disse tudo e mais alguma coisa. Eu sempre gostei do Charlie Hebdo e das caricaturas deles. É um amor que vem de longe, dos anos 73, 74, quando descobri o Wolinski de quem tenho vários livros de BD.

  5. Marquês Barão says:

    E eu também:
    Pergunto-me baixinho para que ninguém oiça como serão todos os charlies de ultima hora caídos do céu, nos círculos restritos onde se movimentam a par e passo. Em família, no trabalho, no desporto, nas colectividades, na politica e mesmo á mesa do café. Será que perante chefes e subordinados, pais, filhos e companheiras, parceiros de mesa ou de esquina, nos confrontos políticos como no desporto ou em assembleias de bairro, são assim tão apreciadores e respeitadores, senão mesmo acérrimos defensores do direito á liberdade de expressão que tanto se cansaram agora em apregoar? A democracia como a liberdade não são apenas para exibir autocolante em dia de montra enfeitada, mas inquestionavelmente mais para praticar nas rotinas diárias de relacionamento com os outros quando na ausência dos holofotes. Qual é o senhor que nos pode perdoar?

  6. Não sou Hebbo porque não tenho a sua coragem. Não me identifico com a revista mas tenho de respeitar a frontalidade. NÃO, não há qualquer desculpa para o assassinato. Quem o faz aceita a violência doméstica, a violação, a pedofilia, o bullying (quantos não se riram quando presenciaram situações de intimidação na escola ou trabalho ), tudo no segredo dos deuses, intramuros, enquanto Hebbo fazia público alarde da sua justificada denuncia agressiva de imoralidades com que convivemos miseravelmente sem termos a coragem de as desafiar tal como contra a ditadura ou contra a pouca vergonha em que este país se está a tornar, e calamos, fodem-nos todos os dias em nome de uma ficticia balança que tende só para um lado à espera de algo ou de alguém que tenha a coragem de se chegar à frente e dizer NÃO é bem assim e NÃO é assado.
    A liberdade de expressão é HEBBO, e não sou Hebbo, não o sou…..

  7. Ainda ontem todos falavam sobre Charlie e depressa foram posar para a fotografia mas, se o povo não acordar, não há Charlie que resista.

  8. Rui Moringa says:

    Se tudo é permitido em sede de liberdade de expressão ou outro princípio qualquer, estamos mal, muito mal.
    Todos temos direito à opinião, inquestionável.
    Todos temos direito à liberdade, inquestionável.
    MAS… Há um limite. E um desses limites é não ofender os outros por mais “estúpidos” eu sejam. Todos têm uma dignidade.
    Podemos gostar ou não dos desenhos do Charlie. Isso não é o problema. Nem foi esse o problema.
    Isso foi móvel para uma acção de guerra (guerrilha urbana) que vai mais para além da liberdade de expressão. É a liberdade em si mesma que foi posta em causa e a guerra é a expressão máxima para condicionar os outros a aceitarem à força a nossas ideias e vontades.
    De facto, nem tudo é permitido, mas numa acção de guerra ou guerrilha temos de reagir. Isto é uma guerra. Penso que poucos falam assim. Basta ir ler o Manuel do Che Guevara sobre guerrilha urbano, na selva de betão.
    A religião e os desenhos são o móvil para algo mais preocupante e profundo. Anda muita gente a aldrabar-nos, sobretudo os políticos.
    Pensem no petróleo, na água e na energia em geral.
    O resto são formas de alienar mentes para a “confusão” geral.
    O problema não são os praticantes de uma ou outra religião e os desenhos do Charlie. São os que manipulam em nome da religião, dos desenhos. Ponto.
    Bom Domingo para todos.

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