Pablo Iglesias e a retórica de Maximilien Robespierre

marat robespierre danton

Iglesias tem um vídeo e um artigo em que explica muito bem que a fundação da modernidade se encontra na Revolução Francesa. É verdade. É também verdade que a Guilhotina e a morte do rei tornaram-se um símbolo da Revolução e, quase mais importante, um símbolo da República. É obvio o que Iglesias está a dizer: Uma Revolução, especialmente uma Revolução como a francesa, que pretendeu – especialmente a partir de determinada altura – mudar por completo a sociedade em que se vivia, que pretendeu, na realidade, uma regeneração não só politica e social mas sim de valores e mentalidades, não se faz sem violência. Robespierre, tal como Iglesias aponta no vídeo, disse de facto que “castigar os opressores é clemência, perdoá-los é uma barbaridade.”

Infelizmente, Iglesias esqueceu-se de dizer que quando a guilhotina é introduzida e aprovada pelos deputados da Assembleia Nacional, Robespierre fazia discursos em que pedia a abolição da pena de morte. Robespierre mudará de ideias aquando o julgamento de Luís XVI mas provavelmente teria sido mais intelectualmente honesto admitir que em 1789 quando Robespierre e outros entraram nas reuniões dos Estados-Gerais ninguém está a pensar em matar o Rei – muito menos Robespierre que nessa altura nem era Republicano (a culpa não é dele, em 1789 praticamente ninguém era Republicano). Aqui encontra-se o problema com a utilização de Robespierre. Não compreender Robespierre é no fundo, não compreender a evolução da Revolução Francesa. É não compreender que não se pode reduzir a Revolução Francesa ao Terror, é compreender, contudo, que o Terror faz parte da Revolução e é compreender, sobretudo, que os anos de 1789-1795 são anos de tremenda mudança para todos os envolvidos. Todos mudam de ideias, todos evoluem, todos se enganam, todos se elevam, todos cometem tremendos erros. Todos. Desde o Rei, a Mirabeau a Robespierre, a Brissot, a Thomas Paine. A Revolução Francesa, alguém devia explicar a Iglesias, não é só Robespierre. A Revolução Francesa é a dicotomia entre Rousseau e Voltaire. A Revolução Francesa é a virtude do Terror mas é também a libertinagem de Mirabeau, é também a presença de Sade, a força de Danton, a raiva de Marat, o federalismo dos Girondinos, as piadas de Desmoulins e o humor ofensivo de Hébert. A Revolução Francesa é o rescrever de Molière mas é também Cérutti e a guerra de panfletos, é a proliferação de teatros, clubes e jornais. É o radicalismo e a moderação. A Revolução Francesa é a rejeição da sociabilidade aristocrata mas é também o ateísmo e o deísmo. A Revolução Francesa foi uma abertura de tudo a tudo mesmo que tenha sido fechada em alguns momentos.

Iglesias tenta chamar Robespierre para o ajudar na sua retórica. Mas Robespierre não merece isso. Robespierre não o merece porque aquilo que Robespierre quis a partir de um determinado momento na Revolução foi uma total mudança e regeneração de valores. Não era só a morte do Rei e o nascimento da República. Era uma República baseada na virtude e numa série de valores que eram o contrário a (quase) tudo o que tinha vindo antes. E mais do que isso, Robespierre – que era, ao contrário do que os historiadores dizem, um homem que tinha que lidar com problemas práticos como “Estamos a ser invadidos por todos os lados e há uma guerra civil” – queria salvar e salvaguardar a Revolução e ao mesmo tempo, tentar salvar o país. Isto implica que Robespierre não passava os dias a pensar em virtude; provavelmente passava os dias a pensar em quantos soldados temos para mandar para a frente, o que fazer em relação à falta de pão em Paris, o que fazer se o Duque de Brunswick chegar à capital, o que fazer para que Hébert pare de agitar os Sansculotte porque já temos problemas suficientes. Ou seja, a tarefa de Robespierre e os valores de Robespierre estão a leste de tudo o que Iglesias quer fazer. Não é minimamente comparável. Robespierre, a partir de determinada altura (1792 diria eu), tornou-se tão radical, a mudança que almejava era de tal forma radical, especialmente quando comparado com a situação vivida antes no Antigo Regime, que não há comparação possível. Isto é, ser radical, ser Robespierre, ser Danton, Saint-Just, Desmoulins ou mesmo Brissot, em 1792-93 não é o mesmo que ser radical na Espanha do século XXI. Caso seja eleito, Iglesias não vai abolir a monarquia. Vai, certamente, fazer os possíveis para frustrar as tentativas dos catalães à independência. Querer enfrentar a troika e a “Europa” não se compara a querer desmantelar a sociedade de Antigo Regime. Iglesias não se compara a Robespierre nem quando Robespierre era mais “moderado” e não queria nada mais do que uma monarquia constitucional. Alguém hoje em dia ser contra a pena de morte na Europa Ocidental é apenas mostra de bom senso e humanidade. Alguém ser contra a pena de morte em 1790 é ser contra uma das ideias mais difundidas e implicitamente aceites e apoiadas pela grande maioria da sociedade.

A retórica “Revolucionária” de Iglesias é má por duas razões: para já, dada a sua incompreensão e simplificação da Revolução Francesa, algo que é normal e que necessariamente vai acontecer quando se pretende utilizar um acontecimento qualquer para justificar ou falar sobre outro acontecimento. Começou com Burke que utilizou a Revolução Francesa para falar do aumento do radicalismo na Grã-Bretanha. E depois, porque não ajuda. Robespierre não é uma personagem querida para a maioria das pessoas. Robespierre foi a cara do Terror e da violência política, apesar de, como sabemos hoje em dia, o epíteto ser muitas vezes injusto – havia um Comité que tomava decisões em conjunto e é geralmente aceite que Robespierre tentou conter o Terror (até Napoleão sabia isto). Mas a imagem do “terrível jacobino” continua aí e difundida apesar dos esforços de alguns historiadores para a contrariar. Ao querer colar-se a Robespierre, Iglesias não soa radical. Soa simplesmente ridículo. Iglesias não é um revolucionário. Se o admitirmos, estamos só a banalizar a ideia de Revolução e tudo o que ela implica.

Comments


  1. Muito bem. Mas esperar que malta de Ciências Políticas saiba História, em particular da Revolução Francesa que é quase sempre contada com mais cliches que ciência, é um bocadinho ingenuidade tua…

    • Ru Silva says:

      Caro João José Cardoso
      Tem toda a razão . Na mouche. Este Pablo Iglésias é formado em Ciências Políticas, ainda não percebeu bem o que são “Revoluções”.

      cumps

      Rui Silva

    • Daniela Major says:

      Sim é um bocadinho ingénuo de facto, mas tentar explicar não custa 🙂

  2. Tiago says:

    “A fundação da modernidade se encontra na Revolução Francesa”
    Eu diria que a fundação da modernidade encontra-se um pouco antes, na Revolução Americana, a primeira grande revolução Iluminista.

    • Ru Silva says:

      Caro Tiago,
      Concordo consigo a 100%. Mas eu não lhe chamo revolução mas sim Independencia dos EUA..
      cumps
      Rui SIlva


    • A revolução (sim, tal como todos os processos de independência incluindo a indiana foi uma revolução, aprende-se nos manuais) americana não derrubou um antigo regime, a bem dizer nem o tinha, nem fundou um estado moderno, ainda lhe faltou, por exemplo, abolir a escravatura.

      • pedro barros says:

        A revolução francesa também não aboliu a escravatura, apesar das propostas nesse sentido dos escassos abolicionistas. Quanto ao mais, ainda se andavam a cortar cabeças em França, e já se votava nos EUA.
        Os pensadores franceses que advogavam a democracia e a liberdade e que influenciaram a revolução americana viram os seus ideais cumpridos nos EUA quando ainda não se sabia quando seria possível alcança-los em França.


        • Foi abolida em 1794, nas colónias. O que Napoleão depois fez já não é Revolução Francesa, é contra-revolução.
          Quanto a cabeças cortadas, é uma prática que nunca teve muito sucesso nos EUA, como é sabido vão praticando a pena de morte de formas muito mais bárbaras.

    • Nascimento says:

      O Espinoza tem algo ver com o assunto?Já agora o DIderot? E o Montesquieu? Olha já sei, aquilo foi uma de “combustão” espontanea…saltou o oceano, e,pimba…lindo! Por acaso, parece-me que a França, foi uma pais central da “coisa”, mas, deve ser erro meu…

  3. maria celeste ramos says:

    Todos os acontecimentos citados convergem no que ~e hoje o mundo ocidental sem importar os “desvios que, esses, andamos a analisar, criticar, minimizar – Liberdade Igualdade andam por aí, a Fraternidade esboça-se – anda-se à velocidade possível – mas anda-se sempre para a frente mesmo com os recuos em que nos pertence participar (muito recentemente) para que não sejam descuido por omissão ou ainda indiferença – etc – participação do cidadão já começou, também

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