Do problema sério que é o bullying


Eu pensei, ingenuamente claro, que das pessoas da blogosfera, o Rodrigo Moita de Deus fosse um dos que estivesse mais predisposto a simpatizar com o rapaz da Figueira da Foz. Afinal de contas, o Rodrigo há meses (anos?) anunciou publicamente no blog que ele e a família, nomeadamente os filhos, recebiam ameaças de morte por parte dos anónimos que vagueiam o 31. Portanto, não deixa de me espantar que o Rodrigo, face a receber este tipo de lixo que é apesar de tudo, uma forma de bullying psicológico porque nenhum pai devia ser posto perante uma situação de ameaça aos filhos mesmo que a ameaça seja anónima e online, não consiga encontrar em si uma reacção qualquer que não seja gozar com o rapaz. É uma pena.

Ele também está enganado quando se refere à campanha de indignação. Para já porque isto é, de facto, caso para indignação mas também porque revela que para a maioria das pessoas o bullying é uma coisa teórica que se passa nos high-school americanos e que o acontece em Portugal são uns meros “encontrões” ou putos a lutar com acontecia “antigamente”. O antigamente é excelente porque “antigamente” as escolas eram muito boas. O bullying então partia dos professores e não dos alunos. Se voltassem as réguadas nada disto aconteceria (isto é a versão educacional de “precisamos de um Salazar em cada estação da Carris”). Eu que saí da escola há 5 anos posso atestar que o bullying existe. Que existe bullying psicológico, que existem alunos que são universalmente gozados ou conhecidos por serem gozados em toda a escola, que existem grupinhos de pessoas – rapazes e raparigas – que se juntam para “intimidar”, isto é, bater, num elemento qualquer. E sei que isto tudo se passa com o conhecimento e aceitação tácita dos professores e da direcção. Que há nas escolas um problema de aplicação. Isto é, quem é que vigia os alunos nos intervalos? Como é que 7 ou 8 “auxíliares” vigiam centenas, em alguns casos, milhares de alunos? Se uma escola for muito grande os auxíliares encontram-se nas zonas mais populadas, os blocos, as entradas para as salas etc. não é aí que o bullying acontece. O bullying acontece nas casas de banho, nos cantos escondidos, lá fora, ao pé dos campos de futebol. Não há uma resposta para o bullying porque o bullying não é uma cena de pancadaria das antigas que acontecia no pátio da escola para toda a gente ver e em que os intervenientes eram prontamente separados e depois obrigados a pedir desculpa. O bullying é simultaneamente escondido e aberto: isto é, não é difícil saber quem sofre de bullying mas é difícil descobrir onde, como, quem são os perpetuadores. E é difícil contrariar a tendência. A prova disto é a reacção do Director da escola que claramente demonstra uma incapacidade para lídar com a situação e para enfrentar a família dos agressores.

Como é que se resolve isto? Não se pode expulsar as criancinhas porque hoje em dia não se expulsa ninguém (na minha escola um tipo apontou uma arma que depois veio a saber-se de brincar, a uma professora e foi suspenso por meia dúzia de dias).  Mudar a vítima de escola podia ser uma solução mas e se não houver mais escolas na área? E porque é que tem de ser a vítima a mudar de escola (como acontece nos Estados Unidos como solução ao problema) e não os agressores?

A internet veio revolucionar o bullying. O bullying online é um problema enorme que vai tornar-se ainda mais gigantesco. Mas aí, então, ninguém tem formas de o combater especialmente porque a ignorância dos país e das “autoridades competentes” é ainda maior. O bullying online já levou ao suicídio de vários adolescentes no Reino Unido precisamente porque, simplesmente, a audiência é maior e adolescentes de 14, 15 anos são alvos fáceis para qualquer anormal. Aliás, o bullying online é tão pérfido que todos nós, mais ou menos, o facilitamos (ou no caso do Rodrigo Moita de Deus, activamente contribuímos para ele). Ao publicar e republicar as imagens de agressão estamos somente a fazer com que elas não desapareçam e se propaguem. Tal como no caso das orelhas do rapaz dos Ídolos em vez de perceber que a última coisa que o rapaz quererá é ser recordado com o “rapaz das orelhas grandes que foi gozado na televisão” estamos só a contribuir precisamente para que isso aconteça. As campanhas de indignação têm de ser geridas com mais bom-senso.

A solução? A solução passa pelos pais. A solução passa por acabar com esta ideia de que a “escola educa”. A solução passa por não ter uma mãe cujo filho é agredido mas que decide não fazer nada. A solução passa pelos pais perceberem que já não estamos em 1965 e que a escola já não é o “antigamente”. A solução passa pelos pais das agressoras que se deviam perguntar como é que as filhas foram capazes de tal barbaridade. A solução não passa, nem pode passar, somente pelas escolas. As escolas devem arranjar formas de combater o bullying. Mais auxíliares (Se dinheiro para isso houvesse), turmas mais pequenas, novos planos de rondas, identificação e maior atenção aos elementos problemáticos e finalmente, compreender que o bullying é um problema sério e tem de ser resolvido. Mas as escolas não podem, nem devem, fazer tudo. Não se pode culpar a escola porque um grupo de miúdas foi excepcionalmente cruel. O meu pai ensinou-me que não se deve bater em ninguém. Eu nunca bati em ninguém. Onde estão os pais destes adolescentes?

PS: A mim não me interessa “se isto sempre existiu” ou não. “Ah mas sempre houve bullying”  é o argumento mais dado nos comentários das caixas de jornais logo a seguir a “ah mas ele era um rapaz como é que se deixa bater por duas raparigas” (mas eu nem vou discutir este este argumento porque para além de ser estúpido, insensível e absurdo é sexista e é somente uma forma de culpar as vítimas, e portanto nem merece ser discutido). Pois olhem, sempre houve fome e analfabetismo e precisamente por isso é que não se deve fazer nada em relação a estes problemas. Sempre existiram. O Alexander Fleming em vez de ter descoberto a penicilina devia ter dito para si mesmo, “mas a meningite e a septicémia sempre existiram para quê arranjar uma coisa que as cure?”.

Comments

  1. Mario Reis says:

    Um parvalhão esse rmf

  2. Reblogged this on O Retiro do Sossego.

  3. Essa palavra estrangeira não tem tradução?

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