Da série: não acredito no que acabei de ler


Há pessoas que sem dúvida acham que o Observador é um pasquim sem utilidade mas eu discordo. Eu até gosto de ler o Observador. E diverte-me especialmente ler o senhor padre Gonçalo de Almada. Eu passo a explicar. Eu estudo na minha vida quotidiana o século XVIII, nomeadamente o Iluminismo e a Revolução Francesa e um dos grandes problemas dos historiadores é compreender a mentalidade da época. Quando leio sobre o Hébert é me difícil compreender de onde vem aquela raiva iconoclasta. E como caracterizar a “infâmia” que Voltaire combatia? Mas o senhor Padre Gonçalo resolve-me estes problemas porque a diferença entre ele e um jesuíta francês da década de 1740 é muito pequena.

O Padre Gonçalo achou por bem falar sobre o demónio. O demónio é, confesso, uma personagem que me é simpática. Afinal de contas, segundo alguma tradição Cristã é o demónio que convence Eva a convencer Adão a provar da árvore do conhecimento do bem e do mal e isso agrada-me porque a vida após Adão e Eva tornou-se infinitamente mais interessante. Imaginem só a ideia da Humanidade ter continuado a viver num estado pré-pecado original. Seria aborrecido. Aposto que não haveria futebol. Nem wi-fi. Nem livros. Não haveria livros. Não haveria utilidade para Espinoza, nem para Rousseau, nem para Darwin, nem para Newton. Garcia Marquez nunca teria escrito “Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo.” Eça nunca teria escrito “o que Portugal precisa é da Invasão espanhola” e Tolstoy nunca teria escrito Anna Karenina e qual é a razão de viver num mundo em que a Anna Karenina não existe?

Eu compreendo que a Igreja aprecie culpar as suas “fraquezas” e os seus erros numa entidade maldosa e imaginária em vez de assumir a responsabilidade pelos próprios actos. É tão fácil culpar os outros e é tão difícil olhar para dentro de nós e ver o bem e o mal misturados. É tão fácil acreditar na ideia do bom selvagem, da pureza original e da superioridade moral e é tão difícil perceber que todos temos a capacidade para sermos maravilhosos e terríveis – muitas vezes ao mesmo tempo.

E pergunto-me, senhor padre, se Deus é bom e se toda a sua criação é boa, então isso significa que vivemos, de facto, no melhor de todos os mundos? E se vivemos no melhor de todos os mundos então para que serve a esperança e porque a continuamos a ter?

(Já agora, o Diabo tem títulos muito mais interessantes do que qualquer outra entidade religiosa. Principe do mal? Pai das mentiras? A sério, parece saído do Harry Potter.)

Comments

  1. Não é um pasquim não senhor.
    É o tugúrio dos fascistas envergonhados.

  2. Rui Silva says:

    Cara Daniela Major,
    Provavelmente o mundo é mesmo de facto o melhor de todos os mundos. Pelo menos não há prova do contrário.

    cumps

    Rui Silva

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