Da falta de dignidade


Os portugueses são um povo estranho. Somos facilmente atraídos por um sentido de superioridade, porque, na verdade, até agora fomos superiores poucas vezes e portanto aproveitamos qualquer oportunidade para alimentar a aparência de que somos melhores do que os outros. É um fenómeno criado sobretudo por alguma imprensa, espelhado em notícias como “Portuguesa limpa o chão da Casa Branca e uma vez foi cumprimentada por Obama”. Como se sabe qualquer noção de superioridade deriva essencialmente de um complexo de insegurança e inferioridade gigantescos. No caso de alguns portugueses, pelo menos, assim é.

Vamos lá ver. Se nós aceitarmos que há uma (como a Europa aceita) uma divisão entre Norte e Sul da Europa em que o Norte é mais rico e o Sul mais pobre para a Europa do Norte (Onde se inclui países como a França que não é bem do Norte mas Norte e Sul já se tornaram quase ideias, conceitos e não propriamente noções geográficas) a diferença entre um grego e um português é nula. Não há diferença. Para a Europa do Norte os problemas da Grécia e os problemas de Portugal são quase indistintos. A Europa do Norte não acredita, como muito boa gente espalhada por este país (incluindo o nosso excelso Primeiro Ministro), que Portugal é melhor do que a Grécia. E mais! A Europa do Norte não acredita que a narrativa atribuída a Portugal seja diferente daquela atribuída à Grécia. Isto é, para quem crítica a Grécia em Portugal, para quem refere a preguiça dos gregos, os “erros dos gregos”, a inércia dos gregos, não percebeu ainda que a percepção de Portugal “lá fora” é sensivelmente a mesma. Também os portugueses são preguiçosos, corruptos, gente que viveu acima das suas possibilidades etc. etc. O que é interessante é que há muita gente pronta a dizer que isto é verdade; e se calhar até é. O que é ainda mais interessante é perceber que não há uma responsabilidade pessoal nesta situação. Os Portugueses viveram acima das suas possibilidades; os outros, nunca eu que ainda hoje tenho o carro que comprei em 1991 quando saí da Universidade. Os Portugueses são corruptos; não eu, que estaciono no lugar dos deficientes e sempre que possível trago material do escritório para casa. Os Portugueses são preguiçosos; não eu que estou do meu smart-phone a postar coisas sobre a lata do Syriza no Facebook em vez de estar a trabalhar.

Agora interessa-me muito pouco saber se estas coisas são ou não verdade. Há aqui um número grande de estereótipos que nos foram vendidos em forma de propaganda. Olhando para os países do Sul do ponto de um vista distanciado é inegável que houve um crescimento muito grande nas mais diversas áreas desde há 40 anos para cá. Foi um pós-guerra que nunca tivemos, por assim dizer. Se há corrupção e problemas de mentalidade? Pois, parece-me que sim, Armando Vara foi preso ontem e o Sócrates foi uma vez reeleito. A mim o que me interessa é frisar isto: assumindo que há um preconceito contra os povos do sul ele inclui-nos a nós. Nesta Europa miserável que se formou nos últimos anos, que faria Mitterrand dar voltas na tumba e fez Kohl levar as mãos à cabeça, nós não estamos “naturalmente” do lado dos alemães ou dos suecos. Não somos postos ao lado deles. Mas continua a haver gente que continua achar que nós, os portugueses, podemos dar-nos o direito de criticar os gregos como um alemão critica os gregos (embora eu duvide que é legítimo um alemão criticar um grego). Como se não nos estivessemos a trair a nós próprios. Como se tivessemos direito a arrogar-nos a esse (falso, falso) sentido de superioridade. Nem a isso temos direito. Como se para um alemão um grego e um português não fossem praticamente a mesma coisa. Portugal não é a Grécia – mas só para o nosso Primeiro-Ministro. Para toda a gente Portugal é a Grécia.

A posição de alguma opinião pública de assumir um lado e tentar devagarinho, como quem não quer a coisa, empoleirar-se nos “vencedores” é ridícula. E pior, é não perceber a Europa, o que a Europa deve ser. Nós não somos a Grécia, dizem eles, somos melhores. Não, não somos. Nós nem somos dignos de ser Europeus. Verdade seja dita, contudo, que hoje em dia não há muitos povos da Europa que sejam dignos de ser Europeus.

Comments

  1. Rui Moringa says:

    Oh!?
    Não gostei do seu texto.
    Quero lá saber do que pensam os nórdicos e outros!
    Estereotipos? Há-os para todos os gostos. Há por aí papagaios a criá-los e a dessiminá-los, masi do que as atitudes individuais.
    as classificações de “europas” são sempre um tiro no pá de qquem as produz.
    Sou português, com as minhas vitudfes de defeitos. Quanto aos defeitos percepcionados ou atribuídos, estarei atento para me adaptar melhor e vive rmelhor com os meuis concidadãos.
    Acordos com os vizinhos serão bons se forem para manter a paz e a prosperidade. em caso contrário não se fazem ou se reformulam.
    Há sempre alguém a cavalgar o exito dos outros ou alguém a fugir das desgraças do vizinho antes que ela lhe bata à porta.
    Lérias…

    • Pedro says:

      Eu acho que o texto não era para gostar, mas para mostrar a realidade, que essa é que é feia, porque releva o mau carácter de muitos. É simples: andam muitos portugueses aí a dizer que somos melhores do que os gregos. Nós trabalhamos e somos poupados, eles são preguiçosos e gastadores. Ora, pergunte a um finlandês, por exemplo, o que acha dos habitantes do sul, em geral, sem distinguir gregos de portugueses ou italianos, que para eles é tudo a mesma coisa… Eu já vi que que o Rui Moringa, pessoa boa, nunca atirou pedras aos vizinhos gregos, nunca os condenou, etc, com manias de superioridade. mas há quem o faça.

    • Daniela Major says:

      Caro Rui, como disse o comentário do Pedro eu não estou aqui para dizer que os portugueses são melhores ou piores do que os outros. Eu não tenho opinião do “carácter colectivo” do povo português pois sei que carácteres colectivos incluem muitas vezes generalizações que não devem ser feitas e quando se diz A e B não quer dizer que se aplique a toda a gente mas que é uma tendência geral – para pegar num exemplo inofensivo, nem toda os portugueses gostam do Ronaldo mas os media vendem-nos o Ronaldo como símbolo máximo de Portugal que nós temos de defender a todo o custo. Portanto, há sempre descrepâncias entre o que algumas pessoas acham e o que pode ser tomado como opinião geral por força dos media, da opinião pública das outras pessoas etc.

      O meu texto vai no sentido de fazer com que as pessoas percebam que não só a narrativa que “nós somos melhores do que a Grécia” é absurda, como também é algo que nos prejudica. Ao descredibilizar e atacar a Grécia estamos a atacar-nos a nós próprios, estamos a demonstrar uma falta de compreensão gigantesca para com um povo (E aqui nem falo do SYRIZA nem de Partidos porque a questão é superior a tudo isso) que partilha os nossos problemas. Além disso, o sentido de superioridade em relação à Grécia não nos permite ver que a narrativa do Norte da Europa em relação ao sul é prejudicial, é até preconceituosa e, especialmente a médio-longo prazo, não é benéfica: nem para nós, nem para a Europa. Portugal como país Europeu e os portugueses como Europeus deviam defender o seu papel na construção da cultura Europeia, deviam afirmar-se como parte dessa cultura. Não querer colar-se aos “países bons” contra os “países maus”. Ao entrar nesse jogo Portugal já está a perder porque o jogo está viciado, porque as premissas são falaciosas.

  2. Rui Moringa says:

    Cara Daniela,
    Agradeço muito o esclarecimento do seu pensamento. Sigua, nas ideias que explana.
    Somos europeus geograficamente falando e somos o resultado de genes europeus pulvilhados por misturas geneticas que realizamos e que fazem de nós porugueses um Povo idiosincrático.
    Ao longo da nossa História não previgiliamos a eliminação de outros povos ou culturas. Tentamos sempre a miscelinização e por vezes com bons resultados. O que se verifica hoje com alguma propaganda do tipo como aquela que se faz à volta do nosso compatriot que referiu é uma tentativa de ganhar dinheiro. Ronaldo representa pouco do que somos. Não pretend beliscar em nada da sua identidade. Tem qualidades e defeitos como muitos de NÓS.
    Creio que ele terá consciência da “máquina” que tem junto dele para fazer dinheiro e maximizar ideias que em nada têm a ver com todos NÓS, Portugueses.
    Os Gregos são os Gregos com as vírtudes e deles. Eles saberão o que melhor lhes convém.
    Não somos nem melhores nem piores do que eles. Somos NÓS e chega.
    Se para os nórdicos somos semelhantes (portugueses, gregos, espanhóis , italianos), pensam mal. Nós sabemos que eles são diferentes: Dinamarqueses, suecos, noruegueses.
    Quando ao que pensam de nós, pouco me importa. Apenas tenho de olhar para aquilo que eles fazem de bem para poder adaptar ao meu dia a dia. Sei que muitas coisas não são possíveis de adaptar porque os contexot históriocos geográficos, etc. são diferentes. Afinal eu não quero ser igual a eles.
    A propaganda política chega a despersonalizar um povo, como me parece o que pretende dar conta no seu texto.
    Aquilo que dizem alguns dos nossos actuais lideres politicos são autênticas anormalidades. Sabe, não lhes ligo mesmo. Desprezo-os, custa dizer porque são porugueses, mas que diabo, já temos tempo como Povo e como cultura para não suportar palavras que incentivam à desavença e à mediocridade.
    Desculpe o exagero da minha posição perante o seu texto.

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