O Fardo de ser Europeu

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“Die macht mir mein Europa kaputt.” – Helmut Kohl

Há um livro chamado a Ideia da Europa de George Steiner. Steiner, nascido em Paris, filho de judeus de Viena, é provavelmente a pessoa que melhor entende a Europa, que melhor entende o que é ser Europeu. Para Steiner a Europa não é uma entidade homogénea em que todas as culturas são iguais. Pelo contrário, ser Europeu é encontrar os pontos comuns na diversidade de culturas. Daí os cafés, daí um Continente que foi durante gerações e gerações “percorrido a pé”. A ideia de Europa existe. Existe desde o século XVIII. Não é uma Europa tão inclusiva como é a nossa hoje em dia mas ela lá está. Para Steiner a Europa é a junção de duas coisas: a cidade de Sócrates e a cidade de Isaías. Os gregos e os judeus – e mais tarde São Paulo que forma o Cristianismo. Todos nós somos isto, fazemos parte disto, quer queiramos quer não.

Steiner compreende outra coisa acima de tudo: o fardo gigantesco de ser Europeu. Aqui se encontra o problema. Enquanto Isaías, Sócrates e São Paulo estão mais ou menos imbuídos no nosso código mental e nós vivemos com ele, o fardo de ser Europeu não está. Não é imediatamente perceptivel. O que é o fardo de ser Europeu? É, em primeiro lugar, conviver com a História. Vivemos em ruas onde viveram grandes poetas e escritores. Nos nossos prédios morreram filósofos que mudaram tudo. Nos nossos parlamentos discursaram heróis e vilões de revoluções passadas. Nos nossos rios e mares atracaram navios vindos de um mundo que não descobrimos mas do qual nos aproveitámos. Nas nossas universidades estudaram as mais brilhantes mentes de toda a História. A História está em todo lado, estes mortos ilustres estão em todo lado – é impossível escapar deles. E é impossível também, competir com eles.

Em segundo lugar, o fardo de ser Europeu consiste em lutar contra a História. Toda a História da Europa consistiu em lutas territoriais, disputas dinásticas, preconceitos em relação ao “outro”, definição de caracteres nacionais cuja base são normalmente estereótipos que ajudam muito pouco, guerras, pestes, perseguição, ignorância, violência. Tudo isto é ser Europeu. Há uns dias saiu um artigo no Público que dizia que uma percentagem de cerca de 20% de Portugueses têm sangue judeu. O que significa que 20% dos portugueses tem sangue de alguém que foi forçado a converter-se ao cristianismo para não ser expulso. Somos o Continente que permitiu não só o Holocausto como também Srebrenica, o Continente que continua a permitir o antissemitismo, a islamofobia, o Continente em que a Igreja continua a intrometer-se na vida política e social, a propagar a ignorância, e a não querer discutir os “direitos das minorias”.

Aprendemos, é verdade, uma ou outra coisa. Aprendemos por exemplo, que é inútil castigar países inteiros pelos erros passados. Pelo menos foi essa a lógica que levou a que a Alemanha tivesse a dívida perdoada nos anos 50. Aprendemos que a solução não é continuar a olhar para trás e a ir buscar injúrias antigas para justificar disputas recentes. Aprendemos que o debate e a diplomacia são a melhor forma de defesa. Aprendemos que é melhor criar um parlamento (por muitos defeitos que tenha) e discutir as coisas do que invadir outros países, aprendemos que o consenso, a democracia e a solidariedade são a melhor forma de garantir a sobrevivência do Continente. Porque a verdade é só uma: a Europa já não é o centro do mundo e vai cada vez mais deixar de o ser. A Europa é importante, imensamente importante: mas terá de o ser cada vez mais para nós, Europeus, e não para o mundo. Posto isto, é inútil e quase absurdo continuar a pensar na Europa não como um bloco mas como uma pequena divisão de Estados. Vamos ver se compreendem em termos geográficos: O Texas é maior que a França e a França é o terceiro (segundo se não contarmos com a Rússia) maior país da Europa. Mesmo a Grã-Bretanha com as suas ilusões de grandeza, é hoje em dia um estado relativamente insignificante no mundo (algo que os britânicos ainda não se habituaram mas lá chegarão). O que sempre se disse da Alemanha é que era um país demasiado grande para a Europa e demasiado pequeno para o mundo. Ou seja, sem Europa, sem um projecto de união europeia, este que temos ou qualquer outro, os países Europeus mais importantes serão remetidos à mais pura das insignificâncias. Os outros, com a excepção talvez dos nórdicos, irão voltar a chafurdar num abjecto desenvolvimento, sem nunca serem verdadeiramente competitivos em nada.

O que aconteceu com a Grécia, o que está a acontecer com a Grécia não tem só a ver com os gregos. Não é só a injustiça, a falta de sensibilidade e de solidariedade, a recusa em perceber a situação verdadeiramente dramática de um povo. O que está a acontecer com a Grécia está a por em causa os fundamentos do projecto Europeu. Quando se diz que não há Europa sem solidariedade e sem compreensão não é um “por favor sejam simpáticos” – é porque é verdade. Uma união, seja ela qual for, não pode ser baseada num jogo de força entre os mais fortes e os mais fracos. Senão deixa de ser uma união e passa a ser uma hegemonia. É óbvio que haverá sempre na Europa países mais ricos e países mais pobres, é óbvio que países como a Alemanha e a França terão sempre mais poder do que Portugal ou a Estónia. Mas isto não quer dizer que Portugal e a Estónia não sejam tidos nem achados nos processos de decisão; e quer dizer, especialmente, que com grande poder vem uma grande responsabilidade. Seria irrealista querer uma União totalmente igualitária mas não é irrealista pedir que se entenda que a igualdade continua a ser um princípio fundamental da sociedade ocidental e que ela tem pelo menos de ser tida em conta – e é aqui que entra a tal solidariedade e a tal compreensão. O que está então em causa com a Grécia é a atitude, é o castigo que se está a impor a um povo que não merece; que nenhum povo merece independentemente dos erros (reais ou imaginários) que lhes são atribuídos. E porque constitui, em termos práticos, uma total falta de visão para o futuro. Mesmo com estas novas medidas de austeridade que foram impostas à Grécia, mesmo com a incompetência de Tsipras e de todos os envolvidos, será que é muito difícil perceber que o que está a acontecer agora vai voltar a acontecer daqui a cinco ou dez anos? Que a austeridade, que esta atitude, que esta estratégia não tem como objectivo a regeneração estrutural dos países em questão? Que é uma “solução” a curto prazo? É como por um adesivo para tapar um buraco. É uma solução fraca e temporária. Não pretende melhorar ou resolver nada, não pretende criar um futuro. Não pretende a manutenção a longo prazo do projecto Europeu que só pode ser efectivado com a diminuição das diferenças estruturais (económicas, sociais, políticas) entre os países.

Há uma Europa sem projecto Europeu? Há, claro, a Europa está cá e vai continuar a estar. Mas há uma Europa melhor sem projecto Europeu? Não. O que o Eurogrupo está a levar a cabo, da Alemanha à Finlândia à França, – a França que devia ser o país por virtude da sua história, de Monnet e de Mitterrand, que melhor devia compreender tudo isto – é a execução da Europa. Estão a matar a Europa. Estão a esquecer-se do que temos em comum. Estão a esquecer-se de tudo o que aprendemos nos últimos 50 anos. Estão a esquecer-se do fardo que é ser Europeu.

Comments

  1. Rui Moringa says:

    Parabéns! Bom texto.
    O que está a acontecer para um já visto da História. Basta ver a guerra peninsular, e primeira e segunda guerra mundial.


  2. Com todo o respeito, esta Europa está podre e não é de hoje. A escolha entre aceitar qualquer coisa pelo que resta do falecido ideal europeu tornou-se inaceitável porque está visto que os cidadãos nunca terão direito a nada. Ainda para mais, TO e o TISA vão ilegalizar qualquer política de esquerda na Europa e implementar (ainda mais) o neo-liberalismo como política única.
    A escolha para mim é entre tentar acabar com a palhaçada enquanto ainda pode haver alguma calma ou sofrer todas as consequências de um espectacular rebentamento de mais uma bolha. Quanto mais cedo se começar a refazer do zero, melhor.
    Além disso cheira a traição do OXI….


  3. Ou andam outros a negociar noutro lado ou se estamos a falar das mesmas negociações devemos ter recebido textos diferentes. Duma negociação em que tantos os valores , como a quebra de prazos e perdoes foram e continuam a ultrapassar tudo o que até os tratados e BCE mandam , com a Grecia e com a sua crise humanitaria e bancaria e vir dizer que não tem havido solidariedade parece-me se dito sem se rirem uma ofensa as anedotas. Então porque é que se tem tido esta posição de aceitar extensao de prazos, quebra de regras, assinar acordos que ninguem acredita que a garotada que governa em Atenas seja capaz de cumprir? porque os gregos são o berço da democracia? digam lá isso outra vez sem se rirem

  4. Zé Pitaco says:

    A Europa está podre desde 1945! E agora é pior, porque está dominada pela geração podre de 1968, dos Hippies, drogados e pederastas multiculturalistas, frouxos, punheteiros e bundas moles que vão ser destruídos pelos muçulmanos em mais alguns 15 ou 20 anos!

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