O céu sobre nós

Pode dar-se o caso de levantarem os olhos da estrada e descobrirem a figura de cartão no topo de um edifício, como me aconteceu a mim. Era a silhueta de um dos anjos de Wim Wenders, quase de certeza o Damiel, e suponho que deveria ser o anúncio de um ciclo de cinema. No cimo do edifício, olhando cá para baixo, as costas ligeiramente curvadas, os braços caídos ao longo do corpo, as assombrosas asas atrás de si, como se não lhe pertencessem, como podem elas pertencer a um homem de gabardina? Um homem curvado sobre os monólogos de quem está preso à terra e dela não pode desprender-se. Curvado sobre a dor do mundo e as suas finitas, previsíveis variantes.

Ainda bem que o vi de longe, de fugida, e que assim não pude deter-me nas imperfeições de um cartaz que o vento destroça, que a chuva deforma. Apenas vi uma silhueta, tão improvável que tomou a força de um anjo calado e impotente, ele que jamais poderá resolver um problema terreno. Poderá escutar os monólogos de cada um de nós, o sofrimento calado que vamos desembrulhando, dissecando, carregando connosco como pele, como carne, como memória que não se apaga. Ainda bem que o vi assim, de fugida, com o sol a fazer-me semicerrar os olhos, com a necessidade de não deixar de atentar na estrada, porque assim ele foi uma aparição inútil e transformadora, como todas as aparições.

Sentir-se-iam ouvidos os que passaram debaixo da figura alada enquanto o cartaz durou ali? Haverá algum consolo em pensar que uns poucos metros acima do céu alguém escuta os nossos lamentos ou desejos e que, não podendo interferir no curso do mundo, pode pelo menos sorrir tristemente às nossas aspirações ou aproximar-se para encostar a testa ao nosso ombro?

A solidão tem muitas janelas. Sentamo-nos frente ao facebook, aos blogues, às fotos onde não aparecemos, a todas as manifestações virtuais das existências alheias e se nos deixarmos ficar quietos e em silêncio tomaremos consciência dessa polifonia de vozes que nos dizem coisas que não se dirigem a nós em particular, só por vezes isso acontece, que nunca se silenciam porque há sempre urgência em dizer algo, “partilhar” chamamos-lhe, atribuir um significado colectivo ao que nas nossas vidas se passa de mais comezinho. O ruído distrai-nos e embala-nos. Vivemos mal com o que as nossas vidas têm de anónimo, de insignificante, de olvidável. Quando tudo se desmorona, e virão dias, em todas as vidas, em que tudo se desmoronará, reagimos com incredulidade. Isto era a sério, a vida pode ser penosa, a felicidade pode ser um embuste. E os diálogos com os outros, até com os mais próximos, quantas vezes não se libertam da incompletude, da imperfeição, estreitados por silêncios, medos, vergonhas, comiserações?

Mas na curva seguinte, já o cartaz ficara para trás, pode acontecer que nos lembremos que até um anjo como Damiel pode escolher trocar a eternidade imutável pelo risco do desmoronamento e da queda. Da vida efémera. A solidão tem muitas janelas mas por vezes é possível abrir, ainda que seja uma, e tocar no que está além.

Comments

  1. Konigvs says:

    A solidão corrói, é muito fodida, e quer-me parecer que as pessoas estão cada vez mais sós, ainda que o vício do contacto permanente com os bites e bytes dos textos e das imagens dos outros as iludam que não. E quando se precisa de um abraço, não é um bit ou um byte de zeros e uns que formam palavras frias que nos reconfortarão. Há sexo virtual, também está na moda, mas não existem abraços virtuais. Os amigos não se adicionam como lia por estes dias num grande cartaz de publicidade na rua. Nem se podem mandar vir do Ebay, de preferência da China, de onde seriam fabricados bem mais baratos. Pois se pudessem já eu tinha comprado um ou dois novos amigos e pagado com o Paypal.


  2. http://arquivopessoa.net/textos/1522
    “…Se te é impossível viver só, nasceste escravo. “

  3. José almeida says:

    Excelente artigo. Concordo com Antônio de Almeida.

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