O humor e a televisão

Por um lado eu concordo com o Cintra Torres. O Isto é tudo muito bonito mas podia ser bastante melhor. De facto, está provado, até por programas anteriores, que este tipo de registo não é a especialidade dos Gato Fedorento. O humor deles é sobretudo baseado no sketch como comentário político ou social e não no tipo de humor mais rápido e desenvencilhado que faz parte da conversação espontânea ou neste caso, de uma situação imprevisível. É também notório algum pudor por parte do Ricardo Araújo Pereira em não querer, mesmo caso de Paulo Portas por exemplo, pressionar demasiado ou levar a piada “demasiado” longe.

Contudo, o humor é extremamente necessário e simplesmente não há humor nos principais meios de comunicação portugueses. Não há sátira. Se não há espaço para o humor, se não há espaço para o tipo de liberdade de expressão que ele implica, isso é sinal de que algo está podre no discurso e na forma de fazer dos media e dos canais de televisão. Basta olharmos para a própria BBC ou para o Le petit journal em França para percebermos a diferença.

Neste sentido, os Gato Fedorento no geral e o Ricardo Araújo Pereira em particular são provavelmente muito mais necessários do que os Marques Mendes desta vida.

Por outro lado, faz confusão ao Cintra Torres que o Ricardo Araújo Pereira comente e entreviste sendo ele tão obviamente de esquerda – mas tal como diz Carlos Matos Gomes já não o incomoda que Marcelo, que faz parte do conselho do Estado, também comente e dê informações. Acresce a isto que as posições de RAP são públicas, toda a gente sabe as suas inclinações políticas e portanto quem lá vai, sabe ao que vai. Ele não está a enganar ninguém, muito menos o público. Em segundo lugar, RAP não é, nem tem pretensões a ser, um jornalista, logo não está sujeito às mesmas regras de imparcialidade a que está sujeita Judite de Sousa por exemplo. Ou seja, esta forma de desacreditar o programa não funciona. Dizer-se que não tem tanta piada como poderia ter ou que os Gato Fedorento têm outro potencial seria lógico e aceitável. Assim apenas parece que Cintra Torres tem pouco poder de encaixe. E depois o Rui Ramos queixa-se de que as pessoas dizem que a Direita não tem sentido de humor.

Comments

  1. R.J.O. says:

    O único problema do Cintra Torres é que o RAP “atirou-se que nem um leão ao … Passos Coelho” . Ponto.
    O resto são palavrinhas para preencher a coluna.


  2. O melhor dos programas- aquele com o Passos Coelho!!!!

  3. Eduardo Cintra Torres says:

    Obrigado pela referência ao meu artigo. Gostaria de corrigir o que escreve sobre a minha “confusão” e a minha “não confusão”. Se ler o artigo, está bem expresso que não me faz “confusão” nenhuma que RAP expresse o seu posicionamento político no programa. E, se acompanhasse os meus textos sobre Marcelo na TVI, saberia que já escrevi diversas vezes que o seu comentário está orientado pela sua vontade de se candidatar a PR. Em qualquer caso, não faria qualquer sentido no artigo sobre a rubrica humorística de RAP mencionar os tempos de comentadores políticos nos noticiários, sejam eles ou não jornalistas.

    • joão lopes says:

      tretas e apenas tretas,porque o seu problema foi o Passos e apenas o Passos,porque quem lhe paga( o cm) faz toda a laracha possivel e imaginaria com o socrates ,com o avante ou com a C.martins e por outro lado tem uma agenda de propaganda ao Paf.e não convem morder na mão que nos paga.o resto é conversa…da treta.

    • Daniela Major says:

      Agradeço em primeiro lugar ter-me vindo aqui responder.

      De resto, devo ter ficado, de facto, confusa. Na sua crónica o senhor escreve:

      “Acresce o enviesamento político de RAP no programa. Que ele o tenha, tudo bem. Mas num noticiário dum canal generalista? Nos primeiros cinco programas fez piadas suaves sobre quatro líderes parlamentares e atirou-se que nem um leão ao quinto, Passos Coelho. Ou porque não gosta dele, ou porque Passos rejeitou o convite para ir ao programa. Qual prima-dona, RAP acha-se o dono disto tudo e, portanto, foi-lhe intolerável que alguém recusasse ir ao programa. Deste modo, dedicou dois programas inteiros a malhar em Passos, o segundo e o que teve Costa como entrevistado (e no qual esteve à beira de dizer que vota PS).”

      Talvez não lhe faça confusão mas faz certamente alguma coisa, caso contrário não se teria expressado nestes termos (“qual prima dona, RAP acha-se o dono disto tudo”) nem dedicado dois parágrafos ao facto de RAP “malhar” muito mais em Passos do que em Costa.

      É também possível que eu tenha interpretado mal o seu texto. Ao lê-lo tive a sensação de que o senhor nega que RAP seja um jornalista (“representa o papel de jornalista”) mas continua a tratá-lo como se fosse. RAP é o “faz tudo dos media nacionais”, “foi para o meio das notícias” e por isso o programa fere “a dignidade do jornalismo”. RAP não é jornalista mas está a mandar umas larachas “num noticiário de um canal generalista”. Ou seja, todo o seu artigo critica RAP (e a TVI por permitir) por ser parcial num canal generalista no meio do jornal das oito. Mas o canal é para já privado. Por exemplo, o Correio da Manhã tem umas tiras muito engraçadas do Garfield no meio do jornal após os horóscopos e o tempo e eu não acho que seja isto que retira ao Correio da Manhã legitimidade jornalística – os leitores certamente percebem que o Garfield não é jornalista. Se bem me lembro tem também uma parte de sátira, nem sempre bem conseguida, o “humor bananal” nas últimas páginas que nada tem a ver com a veracidade ou legitimidade das notícias escritas no resto do jornal. Depois, a TVI – e o próprio noticiário da TVI por intermédio de peças sobre o programa – estabeleceu que o programa é de humor e que RAP não é um jornalista. Não que fosse preciso, porque toda a gente sabe os Gato Fedorento são humoristas. Mesmo assim RAP diz repetidamente que não é jornalista. Aliás, o programa é uma sátira ao jornalismo e ás notícias da mesma forma que o “humor bananal” no Correio da Manhã é uma sátira a determinadas notícias e personalidades.

      Por estas razões, seguindo a interpretação talvez errónea que fiz do seu texto, eu achei por bem sublinhar que RAP está mesmo, como o senhor disse, a representar o papel do jornalista e não está sujeito ás mesmas regras deontológicas de um jornalista.

      Quanto a Marcelo, ainda (ainda!) não é certo que se candidate. Por outro lado, todos os comentadores políticos têm agendas. António Costa esteve anos na quadratura do círculo a defender o seu PS e as suas posições. RAP também as tem. No caso de Marcelo não me choca as suas posições políticas num espaço de comentário político porque todos os comentadores defendem as suas posições políticas. Quanto ao resto, eu não referi no post a questão da candidatura à presidência porque ainda não está consumada. O que está consumado há uma série de anos é o facto de Marcelo fazer parte do Conselho de Estado.

      Pode-se evidentemente argumentar que Marcelo também é “parcial” no meio do jornal das oito. E Marcelo é, deste ponto de vista, parcial há muito mais tempo mesmo sem candidatura presidencial. Devo dizer, contudo, que tal como a presença dos Gato Fedorento num noticiário de um canal generalista não me faz confusão, também não me incomoda que Marcelo faça comentário político precisamente porque as pessoas sabem que ele não é jornalista, ele não se assume como jornalista e as pessoas sabem o que esperar dele. O que me faz confusão no caso de Marcelo como disse no post, é o facto dele fazer parte do Conselho de Estado, um órgão político de consulta, mas órgão político “all the same” e continuar a fazer comentário político.

  4. Rui Silva says:

    Cara Daniela,

    Por causa do seu post tive acesso ao artigo do Cintra Ferreira.
    E acho mesmo um mau artigo.
    Parece-me que ao autor está cheio de arrogância intelectual. Classifica o RAP de mau comediante, contra toda a sua evidente popularidade e se quisermos, bem comprovada pela sua “conta bancária”. Mas para CT, isso deve-se talvez ao facto das pessoas em geral não terem “nível” para avaliarem RAP.

    Gostava também de dizer que acho perfeitamente normal cada comentador, jornalista, comediante, TV, Jornal etc, terem as suas orientações politicas, desde que não deturpe os factos.
    Alguém acredita que existem comentador, jornalista, comediante, TV, Jornal , que não tenha orientação politica?
    O que acontece muitas vezes é que essa orientação é “escondida”.

    A ideia expressa pelo Cintra Torres neste artigo é do tipo de alguns “post’s” que aqui apareceram no Aventar, muito indignados pelo tema do Pros e Contras da semana passada.

    cumps

    Rui Silva

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