Desenrasquem-se


 

Há umas boas semanas tive uma discussão sobre este artigo. Ele anuncia que a maioria dos cérebros está a fugir de Portugal porque tem emprego lá fora. A argumentação que me foi apresentada ia no sentido de demonstrar que afinal de contas, as pessoas emigram porque querem. O referido artigo é baseado num estudo que conclui que:

“Dos 1.011 emigrantes que responderam ao inquérito, 53,8% disseram que estavam empregados em Portugal quando tomaram a decisão de partir, 10,1% estavam empregados ocasionalmente (subempregados) e 36,1% estavam desempregados.”

E continuam:

“Então porque emigram os trabalhadores qualificados? Vão em busca de realização profissional. A quase totalidade dos inquiridos neste estudo (95,4%), que foi apresentado esta sexta-feira no Porto, apontou razões profissionais (carreira, realização) como o principal motivo para abandonar o país de origem, logo seguidas de razões económicas (80,6%), como melhores salários e fuga a uma situação de desemprego.”

Isto é evidentemente uma maravilha para os senhores do Observador e os restantes amigos do Governo. Afinal, as pessoas não emigram porque são umas miseráveis que não têm o que comer como acontecia nos anos 60. Emigram porque, pasme-se, “vão em busca de realização profissional”. Eu poderia agora dizer que 1.1011 emigrantes são uma amostra muito pequena e que depende muito do local para onde estas pessoas emigraram e da faixa etária das mesmas. Se os 1.1011 têm entre 25 a 35 anos então são, provavelmente, pessoas com cursos superiores e pós graduações, a chamada geração Erasmus. Na realidade estamos a falar deste tipo de pessoas dado que o estudo se intitula: “Fuga de Cérebros: a Mobilidade Académica e a Emigração Portuguesa Qualificada”. O que eu gostava de saber é o que acontece à emigração que não é qualificada nem académica. Neste estudo claramente não estão incluídos os jovens portugueses sem cursos superiores ou os emigrantes com mais de 35 anos. Assim sendo,  não se pode dizer que estamos a falar de toda a emigração portuguesa mas sim de apenas uma parte da emigração: os tais “cérebros”. Resta é saber o quão representativo são estes cérebros no conjunto da emigração portuguesa.

Mas passando por cima destas considerações há outros pontos que convém desmontar. Ora o estudo demonstra que 53% das pessoas disseram que quando foram para o estrangeiro já tinham emprego. Isto claro, vale o que vale, porque é perfeitamente possível hoje em dia a realização de entrevistas à distância ou mesmo a deslocação ao país em questão para realizar a entrevista. Muitas empresas e demais empregadores em países como a Grã-Bretanha, por exemplo, não precisam que o candidato seja residente no país.

Em segundo lugar, os trabalhadores qualificados emigram por razões profissionais. Imediatamente se concluíu que vão em busca de “realização profissional”. Esta questão é muito interessante porque tudo pode ser “realização profissional”. É de destacar, contudo, que o estudo distingue ainda entre razões profissionais (suponho que seja a tal realização) e razões económicas (a segunda maior razão com 80% dos inquiridos a referi-la). Aqui é que a porca torce o rabo. O artigo diz:

“Então porque emigram os trabalhadores qualificados? Vão em busca de realização profissional. A quase totalidade dos inquiridos neste estudo (95,4%), que foi apresentado esta sexta-feira no Porto, apontou razões profissionais (carreira, realização) como o principal motivo para abandonar o país de origem, logo seguidas de razões económicas (80,6%), como melhores salários e fuga a uma situação de desemprego.”

Ou seja, o que se retira disto é o seguinte: das 95% pessoas que deram como motivação para emigrar a carreira e a realização profissional, 80% considera que também houve razões económicas como melhores salários e fuga ao desemprego. Ou seja, no fundo, só 15% das pessoas é que emigra “somente” por questões de realização. Só 15% das pessoas emigra sem nenhum tipo de pressão externa. Isto é, a própria questão da realização profissional está, evidentemente, muito ligada a questões económicas. Alguém que tirou um doutoramento mas que agora está a trabalhar num call center tem de facto um emprego, mas é evidente que não se sente realizado a nível profissional (e que não ganha o suficiente para compensar sete ou oito anos de estudos superiores). Alguém que tem estudos universitários pode até ter um emprego bem renumerado mas não está a trabalhar na área que quer e portanto emigra. É óbvio que se pode argumentar que a culpa é destas pessoas: elas emigram porque querem. Se não quisessem emigrar que tivessem tirado um curso mais acessível. Isto é um argumento que os fans do governo apreciam porque lhes retira alguma culpa: porque razão é que alguém vai tirar um doutoramento em astrofísica ou em sociologia se em Portugal não há condições para trabalhar nessas áreas? (Não há laboratórios, não há lugares nas universidades etc.) É evidente que estas pessoas teriam de emigrar se quisessem trabalhar na área de estudo. Isto é, devo dizer, uma argumentação legítima. É verdade. Mas também é verdade o seguinte: não interessa. Não interessa de quem é a culpa porque quem perde é o país. Se toda a gente que tira cursos “inúteis” ou que não vão dar trabalho (imensos, desde as ciências ás humanidades porque alguém que estuda matemática pura também não vai ter trabalho) se vai embora então o país vai ficar cada vez mais vazio. Ou seja, trocando por miúdos: o país gasta dinheiro a formar esta gente que aos 20 e poucos anos se vão embora e nunca mais voltam, ou voltam na reforma, para gastar ainda mais dinheiro ao Estado (porque nem descontaram em Portugal). Entretanto, estas pessoas casaram lá fora e tiveram filhos “lá fora” e esses filhos por lá fora vão ficar e vêm a Portugal nas férias como agora acontece com os emigrantes franceses de segunda geração.

Resumindo: temos um país que tem um problema gravíssimo de natalidade, um país que não sabe quem é que daqui a 50 anos vai pagar reformas, com uma crescente emigração de “cérebros”, de pessoas que já custaram dinheiro ao Estado mas que nunca o vão pagar porque não planeiam trabalhar em Portugal. Mas o que interessa no meio disto tudo é que a culpa, ao menos, não é do Governo PSD/CDS. Portugal não está a garantir a sucessão geracional mas ao menos a culpa não é dos partidos medíocres que temos mas das pessoas que tiram cursos que não servem para nada em vez de Economia ou Gestão para depois serem muito empreendedores e fazerem start-ups companies que irão falir passados 3 meses.

Emigrar, meus amigos, não é fácil e esta romantização da emigração é no mínimo, insensível. Alguém que vai para fora porque acha que devido ás qualificações que tem merece ganhar mais, alguém que vai para fora porque não arranja trabalho na sua área não está a emigrar sem pressões externas. Não está a emigrar porque “quer”. Está a emigrar porque acha que merece mais, porque o esforço que depositou no seu percurso académico merece ser recompensado. Isto não é o mesmo que emigrar de “livre vontade”. A pressão, nestes casos, não é tão urgente como o “emigrar porque não tem o que comer ou onde viver” – mas é uma pressão à mesma.

Podemos culpar estas pessoas. Pode-se fazê-lo para evitar culpar os governos ou razões estruturais. Para mim é um bocado indiferente porque são estes partidos e respectivos cheerleaders que vão ter de lidar com o país do futuro. E o país do futuro vai ter muitos problemas. Nós em princípio é que já não vamos estar cá para ver.

Desenrasquem-se, dizem eles.

Comments

  1. Nightwish says:

    A realização também passa muito por não ter que aturar chefes idiotas que medem a productividade em horas, número de powerpoints e número de reuniões que nunca mais acabam. Trabalhar bem é coisa que normalmente não se promove nem se recompensa, por isso muita gente sai para ganhar muito mais para fazer o mesmo, mas bem gerido.

  2. Rui Moringa says:

    Mas a amostra representa que universo? Só podemos inferir a partir de estabelecida esta relação.
    Se esta relação (universo-amostra) não está bem respaldada estatísticamente, apenas se pode especular. É o que muita gente anda por aí a fazer…
    Até posso dizer que aqueles que emigram são idiotas e deveriam fazer manifestações todos os dias até arranjar trabalho.
    Posso dizer o contrário, que são muito inteligentes, porque chegaram à conclusão que este país não tem futuro para ningém.
    Agora escolham…

  3. Rui Moringa says:

    Ah! E uma maioria é quanto? 50+1; 50+2…
    O artigo não tem ponta por onde se lhe pegue! É uma pilantrice, pior que uma conversa de café. Metem umas percentagtens para lhe dar um “ar de cientificidade”.
    Propaganda, propaganda, propoaganda…

  4. joão lopes says:

    o artigo do mirone não tem credibilidade ate porque o mirone se estreou nas lides propagandisticas ao Paf…fazendo propaganda a essa figura “incontornavel”:mario machado(recorde-se que o objectivo era,imagine-se ,atingir o ps,tal é a inteligencia daquelas cabeças)

  5. Rui Silva says:

    Em Portugal também há muitas boas empresas portuguesas que atraem imigrantes. Nem tudo é mau, é uma questão de boa gestão.

    cumps

    Rui SIlva

  6. Rui Moringa says:

    Fusga-se. Falei de estatística e não de maiorias parlamentares.
    O artigo do observador é uma pilantrice, repito. Não tem ponta por onde se lhe pegue.

  7. O post fala bem da emigração; mas o que é que o Observador , os partidos ou o governo podem/devem fazer para criar empregos? quem cria empregos são exclusivamente os empresários(os criados pelo estado sabemos bem o que nos custa depois). Sobre os cerebros (os seis casos que conheço de emigrantes recenres, 3 são enfermeiros que tinham emprego, o meu filho tinha emprego fraco e tem emprego fixo na Inglaterra a ganhar tres vezes mais que aqui, a sobrinha está em Bruxelas e tambem largou o emprego aqui e qanha lá o triplo. O unico desempragado que sei e foi para Londres esteve lá tres meses e já cá está na mesma desempregado.; mas o que vexa não equacionou é o que mais interessa aos contribuintes _ todos esses cursos superiores foram tirados com grande contributio do erario publico e o rendimento vai para os países “pobres” como Alemanha, Inglaterra …que como é obvio agradecem que os espertos de países como nós clamem alto e bom som a defesa da escola publica “nossa” gratuita para todos. A demagogia cega paga-se bem caro como as tres banca rotas já deviam ter ensinado aos vendedores de banha da cobra que vamos ouvindo ou lendo. Lá chegaremos, se não morrermos antes!!
    Ele há outras soluções, mas não era a mesma coisa. Os demagogos não gostam de ideias diferentes do que vem no manual das narrativas com que estudaram.

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