Cavaco e a ironia


 

Rui Ramos acha que as pessoas devem ir para a rua caso Costa vá mesmo para a frente com a coligação de Esquerda. Eu também acho, por mim quanto mais gente na rua melhor. Só não acho que isso vá acontecer. Sendo que das 10 milhões de pessoas que vivem em Portugal (9.682.553 que estão registadas para votar) só 2 milhões e mais uns trocos é que votaram na PAF a manifestação continuaria a representar os interesses de uma minoria. É certo que alguns dos votantes do PS podem juntar-se a eles e talvez mais alguns que se abstiveram. Mas de qualquer forma parece-me excelente que alguém de direita incite o povo a ir para a rua. No fundo, é profundamente idealista. As pessoas não vão para a rua pela TSU, pelos escalões do IRS ou pelo Luaty Beirão mas na lógica do Rui Ramos elas vão com certeza para a rua por causa do “perigo” de uma coligação de esquerda. Eu acredito que o Rui Ramos conhece bem o país e as pessoas e por isso, estamos só mesmo a falar de uma certa comovente ingenuidade.

O que mais me interessa nesta novela da formação do governo (novela? Não! Saga, uma saga. O George Martin que ponha os olhos nisto que dava uma série de melhor qualidade) é a figura basilar de Cavaco Silva. Cavaco achava – lá está, talvez ingenuamente, provavelmente agora é moda na direita – que ia pacificamente nomear Passos e Portas, que formariam governo, que se aguentariam devido à ajuda ocasional do PS, que se ia acabar tudo por “arranjar” e mesmo que durasse só dois anos, o problema já não seria dele na medida em que se vai embora no princípio do próximo ano. António Costa, por uma habilidade política extraordinária que ninguém sabia que ele tinha ou só mesmo por ganância e ambição desmedida, estragou-lhe os planos. Ora, na minha inocência eu pensei que Cavaco não iria recusar um governo de Esquerda caso Costa lhe apresentasse um. Infelizmente para mim – e para a minha inocência – o jornal I já disse que Cavaco se prepara para recusar uma “Coligação negativa”, indigitando em vez disso, Passos Coelho. Eu já devia ter percebido isto quando Cavaco convocou unilateralmente Passos logo a seguir ás eleições. Mea Culpa, ainda tenho alguma fé nesta gente. Enfim, como o Rui Ramos também sou ingénua.

De qualquer forma resta-me a consolação de que Cavaco pode sempre sair macerado desta situação. Se Costa se chegar à frente com uma solução “estável” de Esquerda e se Cavaco recusar isto irá ter repercussões políticas. Como já foi demonstrado, este tipo de soluções maioritárias são comuns na Europa (mesmo que não sejam comuns na tradição democrática portuguesa. Mas sabem o que é comum na tradição democrática portuguesa? A corrupção da classe política e a promiscuidade entre estruturas partidárias e estatais. Se calhar devíamos era mandar a tradição às couves) e portanto não é de todo impossível Costa formar governo com o BE e com o PCP. A situação é também legítima do ponto de vista constitucional. Neste sentido, a recusa de Cavaco terá repercussões políticas: a hipotética recusa em sequer considerar um governo de Esquerda é a prova de que Cavaco não é, nem nunca pretendeu ser, o Presidente de todos os Portugueses. É a prova de que Cavaco é no fundo aquilo que sempre negou ser: um político profissional. Um faccioso. Portanto, eu até espero que ele o faça. A solução para ele nunca será ideal: ou é obrigado a enfrentar o seu maior pesadelo – uma coligação “negativa” de esquerda – ou então é obrigado a finalmente admitir o que é, o que sempre foi. Ambas me parecem absolutamente salutares e parece-me um perfeito fim para uma carreira que é, que sempre foi, política.

 

Comments

  1. Helder P. says:

    Os 5 milhões de portugueses que sem o estado social que a direita quer estilhaçar, desmembrar e vender às peças a privados, seriam efectivamente pobres, iriam com certeza para a rua contra esta ignomínia bolchevique.
    Estes lunáticos de esquerda querem acabar com os pobres. Onde é que as pessoas de bem depois arranjavam a criadagem pronta a trabalhar a jorna a troco de um prato de lentilhas?

    • luis barreiro says:

      Camarada mas se acabarem os pobres onde é que a esquerda vai buscar votos, só com uma revolução. A reacção não passará.

      • A.Silva says:

        Idiota, não percebeste ainda que o capitalismo se tornou numa máquina de gerar miséria, cada vez mais profunda?

      • Fernando Antunes says:

        Se acabarem os pobres, acaba a direita também, pois sem a classe de trabalhadores mal-remunerados que a sustentam, ela já não poderia tirar dividendos milionários do factor trabalho.

  2. Helder P. says:

    Tenho alguma curiosidade, se Cavaco se recusar a empossar um governo com apoio do parlamento, e portanto violar claramente a Constituição e os seus deveres, há alguma possibilidade prevista constitucionalmente de um “impeachment”?

  3. Humberto Barbosa says:

    Helder P. também faço a mesma pergunta.

  4. Nascimento says:

    Por acaso gostava de o apanhar na rua…

  5. Os que são afectos a PAF andam esquizofrénico com medo que os comunistas , que no ponto de vista deles, continuam a comer criancinhas e nacionalizam tudo o que mexe, desperdiçando até argumentos que têm alguma lógica. As conversações faz de conta que o dão sebastião Costa tem promovido, são confundidos por muitos ,como se fossem jã as nomeações constitucionais que o Cavaco, como sempre foi seu timbre, vai constitucionalmente ser respeitado, nos prazos legais (quando forem oficialmente declarados os resultados oficiais). Até lá todos têm o direito de conversarem com quem quiserem ,fazer os teatros que gostarem, de marionetes ou em carne e osso. Democraticamenet é um avanço, os PCP e BE estarem dispostos a jogar o prestigio assumindo rsponsabilidades e não sendo só do contra tudo e contra todos.
    O julgamento que os cidadãos farão,de esconderem antes que poderiam assumir acordos com PS, PCP e BE serão os eleitores a fazer com os votos, bem como do resultado da sua governação. A direita nem precisa de temer nada (para alem dos tachos que vão perder) porque em menos tempo que levou a desmascarar o syriza, teremos em Portugal a necessidade de chamar a troika, se metade das boutades que esquerda declama para os seus fieis, começar a substituir a “horrivel e profuna” austeridade.
    os ricos que paguem a crise, foi propaganda que já deu.

    • Nightwish says:

      Bem, se fosse assim tão rápido que chamamos é troika foi porque o anterior governo realmente não resolveu porra nenhuma, já que ninguém muda a economia em poucos meses. Progressos, cristo, progressos.

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