Angola em versão light

Por razões alheias à minha vontade eu tenho todos os dias a novela “única mulher” como barulho de fundo. Para quem não sabe ela é transmitida pela TVI em horário nobre e passa-se entre Angola e Portugal. É uma banal história de amor com alguma herança colonial à mistura: uma das personagens viu o pai ser morto por soldados portugueses na guerra colonial e depois matou o soldado que tinha morto o pai. Esta parte até é relativamente interessante embora o enredo se foque mais nas consequências que esse acontecimento tem no presente (há toda uma tentativa de vingança por parte do filho do soldado). A novela aborda também a questão do racismo nomeadamente através das duas personagens principais, um português e uma angolana, ela vítima de racismo em Portugal (pela invariável mão de Alexandra Lencastre que interpreta uma personagem verdadeiramente irascível) e o rapaz enfrentando também o preconceito do pai e da ama/empregada/amiga da namorada. Esta parte do racismo está até bem estruturada, dentro do que é possível, e não há uma demonização excessiva de ninguém.

O que interessa, contudo, na novela e na estratégia da TVI é, isso sim, a romantização de Angola e do sistema angolano. Uma das personagens, o Norberto (o tal cujo pai foi morto por um soldado português) é um tipo importante em Angola. Por razões que não se entendem ele consegue até obter vistos de residência e de trabalho. Simultaneamente, é muito amigo da polícia. Inicialmente, Norberto era o vilão da história. Tinha morto um tipo qualquer, andava a tentar lixar uma empresa portuguesa. Agora regenerou-se e tornou-se uma personagem muito mais simpática. O vilão é um sinistro português que se quer vingar do Norberto e que, como se não bastasse, tem o João Didelet como side-kick. A outra personagem, a já referida ama/empregada/amiga, tinha também inicialmente alguns laivos de malvadez. Agora já é uma sofrida muito boazinha. Do ponto de vista puramente ficcional até se pode apreciar o desenvolvimento das personagens mas ao mesmo tempo não deixa de ser estranho que estas duas personagens, as mais ligadas ao poder em Angola, tenham sido lentamente redimidas.

É verdade que há um português – que se destacou no início por ser racista e violento – que também acabou redimido (embora essa transformação faça ainda menos sentido do que a do Norberto) e portanto será possível argumentar que o arrependimento é só o tema da novela e que não há nenhuma tentativa de aligeirar as personagens angolanas. O problema deste argumento é o seguinte: trata-se de uma novela passada em Angola em que as personagens principais pertencem à classe dominante. O Norberto está cheio de dinheiro. Referências à pobreza extrema que se vive em Angola são quase inexistentes. Ultimamente, conta-se a história de uma miúda que perdeu um filho porque tinha uma gravidez de risco mas não tinha condições para deixar de trabalhar – é dramático, claro, mas não é propriamente um caso extremo e não é nada que não pudesse acontecer em qualquer sítio do mundo. A escolha das imagens é também reveladora: avenidas, prédios modernos, vistas lindas da baía de Luanda. Não é difícil arranjar imagens bonitas de Angola mas o espectador fica com a ideia de que a maioria dos angolanos tem acesso àquele estilo de vida e de que os pobres, a existir, são uma minoria que vive nos “musseques” – e o musseque arranjado para figurar na novela (sempre o mesmo) assemelha-se mais a um bairro pobre da periferia portuguesa (mas com terra batida) do que a um bairro pobre de África.

Se por um lado é salutar lembrar que África é infinitamente mais do que a pobreza e que há um verdadeiro desenvolvimento em muitas áreas (neste sentido podia perceber-se a relutância em mostrar estes aspectos na novela), é também verdade que no caso específico de Angola estamos a falar de uma ditadura. Não há outra palavra para descrever a situação. Mas mais uma vez o contexto político nunca é abordado e haveria várias razões para o ser pois estamos a falar de personagens que – necessariamente pela posição que ocupam na sociedade angolana – teriam logicamente ligações ao poder político. Neste sentido, o poder de Norberto existe num vazio. A outra novela da TVI por exemplo, passada numa aldeola qualquer no Norte, refere frequentemente as ligações entre a corrupção local, os media e as máquinas partidárias – na medida em que o presidente da Câmara é um bandido dos antigos, influente, apoiado por um partido político. Na novela semi-angolana a própria questão da violência e da corrupção, que é absolutamente endémica em Angola, raramente ou nunca é abordada. Não há referências a nenhum tipo de repressão o que é estranho numa novela em que a polícia aparece tão frequentemente (porque é uma novela e sempre que possível há tiros e raptos e coisas que tais).

Podem agora dizer-me no tom fanfarrão de quem só vê a RTP 2 e a Sky News: “então mas andas a ver essas porcarias?” ou “mas o que é queres mais de uma novela da TVI”. Eu vejo porque tenho o hábito de passar os serões em família; é evidente que podia ter uma atitude de superioridade perante este tipo de programas – em parte tenho, não reconheço grande qualidade à maioria das novelas. Só que o problema é que as novelas são vistas em Portugal. É precisamente por essa razão que elas devem ser analisadas. Perante as audiências é impensável não argumentar que este tipo de história tem influência: por vezes, até pode ser uma influência positiva. A existência de personagens homossexuais ou a condenação explícita do racismo são coisas boas que pelo menos alguns espectadores podem interiorizar. O problema é quando o contrário acontece. No caso da “Única mulher” é óbvio que estamos a falar de uma subtil manobra de propaganda: estão a vender ao público português que Angola é um país livre em que as pessoas vivem praticamente da mesma forma em que vive um português ou um francês. Isto torna-se mais grave quando todos sabemos o que se está a passar hoje em Angola e quando eu tive de saber do ataque a civis no Huambo, em Abril passado, pelo Guardian porque não me lembro de ter lido ou visto isto nos jornais nacionais.

Ainda assim, o que a TVI está a fazer é mais grave: um jornal português coibir-se de falar em Angola é só mau jornalismo. Infelizmente, a isso já estamos habituados. A TVI está a ter uma atitude mais pró-activa: está a normalizar uma ditadura.

Comments

  1. Rui Moringa says:

    A TVI é espanhola-castelhana. Faz o que interessa ao negócio da castela imperialista etnocêntrica. (apesar do discurso em sentido contrário).
    Estou pouco me importando para o que transmitem sobre Angola. Estará sempre distorcido por essa lógica.
    Gosto de Portugal e de Angola apesar de todos os defeitos que nos possam atribuir. Devemos tentar sublimar de forma sustentada o racismo que ainda possa prevalecer entre nós e aquele que é induzido por terceiros com intuitos de ganhar com a divisão e a acrimónia.