Um sintoma na vida pública portuguesa

ferreira leite

Tenho notado com agrado que determinadas tradições absolutamente salutares da vida pública e social portuguesa continuam a persistir (Com vida pública/social refiro-me aos variados comentadores: os que aparecem na televisão e jornais e os que escrevem nos blogs e no facebook). Há várias tradições, antigas, provavelmente até com séculos, mas a que prefiro é aquela que consiste em deixar de ter consideração por alguém e proceder a desacreditar essa pessoa por ela ter deixado de partilhar das nossas opiniões.

Ilustro para ser mais clara: Pacheco Pereira e Manuela F. Leite. Antigamente, isto é, há coisa de 5 anos, Pacheco Pereira era muito considerado por todas as pessoas de direita: sim, sim um maoísta reformado, muito bem, um homem que viu a luz, um intelectual de primeira ordem, indivíduo extremamente lúcido, imparcial, um farol de sabedoria. Agora dizem: “Pacheco Pereira? No fundo, nunca deixou de ser comunista. Quem o mandou ensinar aos portugueses o que significa a sigla TINA? Está a perder a noção das coisas, algo o deve ter afectado”. Depois vem a parte de ataque pessoal, uma das minhas favoritas pela mesquinhez palaciana que a caracteriza: “é um homem cheio de ressentimentos.” Ou “é um oportunista. Provavelmente queria um tacho e não lho deram.”

Com Manuela F. Leite a mesma coisa. Perdeu para Passos Coelho mas era uma senhora respeitável de Direita. Enfrentou Sócrates. Fez parte do excelso governo do professor Cavaco. Ela própria tomou decisões dificílimas e teve de enfrentar aqueles selvagens de rabo de fora. É aliás, como sabemos, amicíssima do Presidente da República. Uma mulher de ferro, a nossa Margaret Thatcher. Agora dizem, “é uma ressabiada. Perdeu para o Passos e agora quer vingar-se. Não saberá ela que este PSD já não é o de Sá Carneiro? Quem é que ela pensa que é para vir falar de social-democracia? E que discurso do coitadinho é este, de compaixão para com esta gente que sempre viveu acima das suas possibilidades? Está muito ultrapassada. Não entende o país e tem manias.”

E cá temos gente repleta de excelentes capacidades cognitivas a espumar de raiva e incompreensão porque pessoa A e B se atreveu a ter pensamentos independentes. Não ocorre dizer, por exemplo, que se discorda mas as ideias até são válidas; ou mesmo, achando-as inválidas, isso não significa que todo o pensamento da pessoa em questão seja desprovido de inteligência ou que os seus motivos sejam sórdidos, interesseiros, cheios de segundas intenções. Sejam mentiras, no fundo, que estas pessoas propagam por motivações obscuras. De segundas intenções está o inferno cheio e sou levada a crer que estas mudanças oportunas de opinião estão cheias de intencionalidades escondidas.

Comments

  1. martinhopm says:

    Tenho apreço por Pacheco Pereira, embora não seja adepto do mesmo partido. Mas tenho-o na conta de pessoa séria, sábia, que pensa pela sua cabeça e critica quem tem de criticar, por mais importante que seja, e sempre de uma maneira transparente e cordial.
    Já o mesmo não posso dizer da senhora.


  2. Não consigo esquecer o apoio dado à invasão do Iraque.

    Mas pronto…..