Não à romantização da História, sff


No Delito de Opinião, um comentador lamentava a ausência de uma comemoração relativa aos 600 anos da tomada de Ceuta. E eu pensei duas coisas: olha, isto lembra-me que tenho de mostrar ao Paulo um artigo sobre o D. João II e depois pensei, mais validamente, por que raio é que se havia de “comemorar” a tomada de Ceuta. Procurei, procurei e mesmo assim não consegui achar razão em mim para “comemorar” um acontecimento que teve lugar há 600 anos. Comecei então a perceber que o problema não era tanto a tomada de Ceuta mas o verbo aplicado que provavelmente até foi escolhido aleatoriamente pelo comentador, não tendo o valor qualificativo que eu lhe estou a atribuir: A comemoração. Comemorar.*

É óbvio que a tomada de Ceuta se enquadra num contexto de guerra e conquista medieval e que foi o começo de uma série de iniciativas semelhantes no Norte de África. Tudo isto tem um contexto histórico que merece obviamente ser estudado e discutido. Mas comemorar? Porquê? A comemoração de alguma coisa implica que ela é boa. A tomada de Ceuta para os portugueses do século XXI não tem que ser boa. Nem má. Todo o processo que envolveu a tomada de Ceuta e as guerras de conquista no Norte de África relacionam-se com um contexto que uma pessoa do século XXI não percebe, não compreende, não se identifica. Não partilhamos das mesmas ideias, não vemos o mundo e as vivências sociais, políticas e religiosas da mesma forma. E ainda bem que assim é, porque estamos a falar de História.

Por outro lado, a comemoração da tomada de Ceuta pode ser encarada como o começo dos Descobrimentos. Esta ideia é muito discutível do ponto de vista historiográfico mas percebo que haja a necessidade de criar uma data charneira. Perante esta questão, põe-se outro problema, põe-se, na realidade, todo um debate: devemos nós “comemorar” os Descobrimentos?

Ultimamente, gerou-se o hábito de dizer que os Descobrimentos são o começo da globalização. Pessoalmente, eu não gosto deste tipo de adaptações. O conceito de globalização é recente e adaptá-lo ao que acontece no século XV parece-me um grande anacronismo (Além de que, segundo a lógica, não seriam os vikings os primeiros agentes da globalização? Ou Alexandre, o Grande, ou o Império Romano, ou os Fenícios ou as conquistas muçulmanas?) e nem sequer é propriamente útil. Houve de facto trocas comerciais e culturais mas o conceito de globalização envolve uma escala e instrumentos completamente diferentes; enfim, parece-me que a ideia de globalização é uma forma simpática que se arranjou tentar modernizar a importância dos Descobrimentos. Ou seja, em meios não académicos (porque na academia a problematização destes conceitos é mais elevada) vemos emergir uma outra narrativa que em vez de glorificar a História portuguesa, omite apenas alguns dos aspectos mais desagradáveis do império, tentando mostrar a importância de Portugal no mundo e na História mundial. Uma espécie de “pois vejam como somos pequeninos mas até onde chegámos”.

É evidente que a Era dos Descobrimentos onde não se inclui somente os portugueses, foi extremamente importante na História mundial e que elas trouxeram uma série de consequências que mudaram a História. Só que os processos que levaram a estas acções são muito complexos e só podem ser compreendidos se compreendermos o contexto. Assim, “comemorar” a tomada de Ceuta não faz sentido porque como eu disse acima, eu sou laica e republicana portanto a existência de um “infiel” parece-me só, a mim, cidadã do século XXI, ridícula. Tal como a ideia de que é necessária dar uma ocupação à Nobreza, ou outro qualquer código medieval de honra que está profundamente ligado à cultura da guerra. Como estudante de História, eu percebo perfeitamente a importância da tomada de Ceuta e percebo que as razões que levaram a essa decisão devem ser estudadas, aprofundadas e compreendidas no contexto. Estar a “comemorar” contudo, já implica outra coisa. Implica uma idealização.

Esta idealização continua a existir. A opinião pública, o ensino obrigatório, a comunicação social continuam a idealizar os Descobrimentos Portugueses. Por alguma razão, Paulo Portas ofereceu uma edição d’ “Os Lusíadas” aos senhores da troika quando estes se foram embora, para mostrar que fomos sempre um povo que não se vergou a nada e ninguém, e tal. É manifestamente uma simplificação de tudo e mais alguma coisa e de vários acontecimentos históricos mas ok, o doutor Paulo Portas é do CDS e esta retórica faz parte do seu partido. Siga a marinha.

Durante todo este post eu utilizei a expressão Descobrimentos mas até ela está sujeita a debate. As tribos sul americanas sabiam que existiam, não foram os portugueses e espanhóis que lhes foram validar a existência. A expressão “Descobrimento” é obviamente uma expressão eurocêntrica. Este pode ser um exemplo quase insignificante. Há outros. Discute-se muito pouco, estupidamente pouco, o papel dos portugueses no tráfico escravo ou as relações entre os portugueses e as outras autoridades políticas na India ou a razão pela qual foram expulsos do Japão. É verdade que tal como o devemos fazer com os Descobrimentos também o devemos fazer com a escravatura: as atitudes perante a mesma mudaram muito ao longo dos séculos, embora, claro, como se sabe, Las Casas já dizia no século XVI que aquilo não era positivo. De qualquer forma, as atitudes perante a violência e perante o “outro” eram totalmente diferentes e portanto, tal como devemos ter cuidado com as idealizações, também devemos ter cuidado com as condenações. Condenar alguém no século XVI por achar que a escravatura é uma coisa moralmente aceitável é inútil porque isso não ajuda a compreender nada sobre o século XVI. Contudo, há uma diferença entre não julgar com os nossos preceitos morais e éticos alguém que viveu numa altura em que eles não existiam e entre esconder ou omitir a escravatura ou os meios utilizados para o proselitismo com a intenção de continuar a motivar a ideia de que “os descobrimentos são uma glória e um orgulho”.

Estes factos todos juntos e a percepção moderna dos mesmos devia levar a opinião pública e tudo aquilo que ela influência a ser mais comedida perante a idealização excessiva dos “Descobrimentos”. Devíamos insistir numa maior problematização dos conceitos e especialmente, na rejeição deste tipo de “celebrações”. Há uma diferença entre “celebrar” e “lembrar”. Lembrarmo-nos da Conquista de Ceuta é legítimo; celebrá-la não faz sentido.

*Como apontou o comentador original nos comentários, a minha interpretação do verbo “comemorar” atribuiu-lhe um significado positivo, como sinónimo de celebrar ou festejar em vez de “lembrar” ou “recordar”. Fica a correcção, embora a mensagem do post e as considerações sobre a idealização dos Descobrimentos se mantenham.

Comments

  1. Filipe says:

    De acordo com o essencial, ou seja, de facto não me faz também qualquer sentido comemorar um acto de guerra que só faz sentido no seu contexto, e que actualmente não o vemos como definidor da nossa identidade enquanto nação.

    Quanto à questão em torno do termo “globalização”, não concordo. De facto trata-se de um conceito recente, mas precisamente por se tratar de um conceito, de uma ideia, não existe possibilidade de anacronismo. As ideias, ao contrário dos actos, são sempre intemporais. E podemos perfeitamente dizer que a romanização da europa (por exemplo) correspondeu a um fenómeno que é em tudo semelhante à globalização, e que só muda a escala. Mas globalização vem de globo, e o primeiro acontecimento com escala global surge com a circum-navegação, na era dos descobrimentos.

    Finalmente, não concordo também com a relativização do termo “descobrimentos”, que os académicos brasileiros vieram trazer, defendendo que o termo correcto é “achamento”, porque os os índios já lá estavam. Em relação a este argumento, só posso dizer que ninguém inventou a pólvora. A pólvora já existia, simplesmente foi descoberta. Trata-se de um visão eurocêntrica, porque esse descobrimento só o é do ponto de vista dos europeus, e não de toda a humanidade? Eu diria antes que foram os descobrimentos que deram oportunidade de a humanidade se descobrir a si própria.

  2. JgMenos says:

    A riqueza do pensamento de esquerda consiste em diminuir tudo o que não seja o politicamente correcto do momento e exaltar tudo o que esteja num qualquer futuro cantante.
    A História é sempre suspeita de ser factor inibidor da necessária transfiguração permanente que nos levará ao ‘homem novo’ esse fenómeno evolutivo que ensombrará o mais delirante creacionismo.

  3. da Maia says:

    Muito enternecido fico por dar azo a tão longa e vaga dissertação.

    Aleatoriamente terá sido escolhido o portador do DNA de V.Exª pelo óvulo que fez o seu ovo, mas não foi assim o verbo.

    Sobre o verbo comemorar, poucas palavras bastam:
    http://www.etymonline.com/index.php?term=commemorate

    «from Latin commemoratus, past participle of commemorare “bring to remembrance”»

    Sem a sua história de vida, V. Exª seria uma criança, e da mesma forma uma nação que não traga à memória a sua história, é infantilizada.

    Creio que V. Exª negligenciou o problema estratégico da tomada de Ceuta, e esqueceu que fez parte de planos nacionais tomar Gibraltar, que já era Castelhana.

    Quanto à versão indígena do auto-descobrimento, tem-se tido o cuidado de enfatizar o descobrimento das rotas de navegação, para evitar simplificaçõezinhas fáceis.

    Não vejo vantagens em debater uma versão infantilizada da história que julga ser História, nem ouso tão pouco esclarecê-la, e menos ainda neste espaço.

    Querendo comentar sobre o que escrevi, poderia dirigir-se ao sítio onde foi escrito, mas compreendo que o seu intuito esquivo tenha sido outro.

    Finalmente, pode a Daniela aceitar as minhas mais sinceras desculpas pelas palavras que escolhi aleatoriamente.

    • Daniela Major says:

      De facto tem razão, interpretei o verbo “comemorar” de uma forma positiva, como sinónimo de celebrar ou festejar.

      Alterei a conclusão como consequência. De resto, assim sendo, não estamos em discordância. Lembremo-nos da tomada de Ceuta mas não a celebremos ou festejemos.

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