Ser e fazer tudo aquilo que eles detestam

an die freude

Quando eu soube a notícia dos atentados estava a ir buscar o meu irmão a um concerto no Campo Pequeno. A primeira coisa que, naturalmente, me atravessou o espirito foi “e se fosse ele? E se fosse eu?”

Depois achei que seria uma boa ideia tentar ver e ouvir testemunhos dos ataques, das pessoas que sobreviveram. Pensei eu, numa vã e absurda tentativa, que ao ver aquilo eu poderia estar preparada caso me acontecesse. Podia pensar, ora se algum dia estiver num concerto e um sacana qualquer abrir fogo eu posso fazer isto ou aquilo. Esconder-me, baixar-me, fingir que estou morta. Rapidamente percebi que estava só a tentar enganar-me e acalmar-me. Não valia a pena estar a ver aquelas imagens que me deixaram ainda pior do que estava. Não há forma absolutamente nenhuma de controlar. Há sorte. A sorte a que uns podem chamar Deus, a sorte que eu chamo o acaso. O acaso de alguém se sentar dentro ou fora de um restaurante, de estar mais perto da porta numa sala de espectáculos ou mais longe, a sorte de ter decidido não ir a um determinado sitio numa determinada noite, a sorte de ter apanhado trânsito ou perdido o autocarro. A sorte que é lei neste mundo feito de probabilidades.

Durante todo o Sábado não consegui rir-me. Eu rio-me muito e choro muito pouco. Às tantas dei por mim, estupidamente e incompreensivelmente, a chorar. Não com imagens de pessoas mortas mas com uma descrição de pessoas a ajudarem-se umas às outras: os taxistas que não cobraram para levar as pessoas para casa, as pessoas que gritavam os números das portas dos prédios para os que fugiam se puderem refugiar. Porque no meio de toda a desumanidade e crueldade o que é revolucionário é a bondade das pessoas. E só me ri no Domingo, de repente, quando um rapaz diz que a razão pela qual ele e a namorada se salvaram é porque tinham discutido e abandonado a esplanada mais cedo.

E depois, hoje, deparei-me finalmente com toda mesquinhez horrenda do mundo. Se há bondade nestas ocasiões também há grande sacanice. Os racistas do costume que parece que estão à espera destas coisas para destilarem ódio contra os mais fracos e que, ainda por cima, estão a fazer o jogo dos terroristas. As pessoas que arranjam maneira, sempre, sempre de culpar as vítimas. A culpa neste caso já não pode ser individual como foi no caso do Charlie Hebdo, portanto é da “França” que bombeou isto ou aquilo. Porque, como sabemos, as razões ideológicas de um terrorista são sempre altamente racionais e devemos validá-las sempre que possível. Aliás, as pessoas em Bagdade que foram assassinadas também devem ter bombardeado alguma coisa. Além de que tudo isso deve interessar imenso às vítimas que morreram em Paris. Elas foram escolhidas, certamente, porque iam nos aviões que deixaram cair as bombas.

As pessoas cuja maior preocupação é dizer que o que se passou em Paris, em Beirut e em Bagdade tem a ver com a exclusão social, com a marginalização de certos grupos sociais, com as desigualdades. Não é que isto não seja verdade, não é que não deva ser dito; mas é, e deve ser, uma explicação. Explica. Não desculpa. Não perdoa. E faz-me espécie haver pessoas que saltam logo para este tipo de discurso sem pararem para ter uma expressão de compaixão para com as vítimas. (E sim, isto inclui uma bandeira ou uma música ou um post sentimental no facebook, querem um prémio para o vosso cinismo?) Até porque, reparemos, há um enorme conjunto de explicações socioeconómicas e ideológicas que devem ser tidas em conta. Mas há imensa gente na miséria e que fazem parte de grupos altamente discriminados que nunca pegaram numa arma para matar ninguém. Ao usarmos estas explicações como desculpa, estamos a anular a vontade e consciência individual. Estamos a anular o próprio direito à resistência. Não há nem pode haver desculpas.

Depois também há as pessoas que decidem que tudo isto é um ataque contra a civilização ocidental. Eu, como desconhecia que o Líbano e o Iraque faziam parte do Ocidente, achei estranho. Isto não é um ataque contra a civilização ocidental. Isto é um ataque contra a civilização. É contra a civilização porque é bárbaro matar inocentes, seja na Europa ou no Médio Oriente. É bárbaro violar e traficar mulheres. É bárbaro matar homossexuais. É bárbaro destruir monumentos. Os Assírios não fazem parte da “civilização ocidental” mas são os seus vestígios que o ISIS – que o Daesh – está a destruir. É uma luta entre a civilização e a barbárie. E sim, há toda uma discussão que deve ser tida sobre o papel dos Estados Unidos e das potências ocidentais na criação do ISIS (do Daesh). Mas as vítimas civis dos drones americanos no Paquistão também não têm culpa de serem vítimas de uma barbárie muito especial (mais disfarçada). Da mesma forma, as vítimas de França não têm que pagar pelos pecados de governos e de decisões económicas e geo-estratégicas obscuras. Nada disto desculpa nada. A decisão de premir um gatilho ou algo que vá acabar com a vida de alguém pertence a um indivíduo que tem uma consciência e uma vontade. Se lhe retirarmos isso, estamos a falar de um animal e não de uma pessoa.

Eu não sei se isto é uma guerra. Mas sei que o objectivo de qualquer ataque terrorista e deste em específico é provocar o caos e o medo. É que as pessoas tenham medo de sair de casa, que desconfiem umas das outras, que ataquem os seus semelhantes, que discriminem outros. É que as pessoas tenham medo de ir a Paris. Tenham medo de se sentar numa esplanada, tenham medo de rir, de amar, de serem livres. Isto são os objectivos. Expressos, aliás. Paris é considerada pelo ISIS – pelo Daesh – como uma capital de abominações e perversões. Não percebem então que são eles que nos estão a dar a solução? Como explica Luc Le Vailant. A política e a segurança temos de a deixar aos Estados: eles têm que fazer um melhor trabalho do que fizeram até agora. Mas nós, as pessoas comuns, a única coisa que podemos fazer é isto. Não ter medo. Ir à rua, sair, sentar-nos nas explanadas, passearmos à beira do rio, seja o Tejo ou o Sena, sair à noite seja no arrondissement 11 ou no Bairro Alto. Rir, amar, passear, ir ao teatro, ir a concertos, ouvir rock, ouvir Heavy Metal, ouvir música clássica, cantar a Marselhesa, o We are the Champions ou o Freude, schöner Götterfunken em altos berros, ajudar e amar o próximo sem olhar a cor ou a religião, gozar com a Pátria, com a Família, com Deus, com tudo, não respeitar uma ideia, uma ideologia que seja. Sermos livres. Livres na verdadeira e bela acepção da palavra.  Ser e fazer tudo aquilo que eles não são. Ser e fazer tudo aquilo que eles detestam.

Comments

  1. Ana Moreno says:

    Obrigada Daniela, finalmente um post que articula sentimentos e pensamentos que partilho – porque eu, confesso, fiquei muda; primeiro com o facto em si e depois com o tipo de artigos e comentários produzidos a torto e a direito; em relação a uma tal monstruosidade não há “agora admirem-se, foram vocês que provocaram”, não há explicações racionais que valham e muito menos quando são simplistas. Tal como escreve, “a decisão de premir um gatilho ou algo que vá acabar com a vida de alguém pertence a um indivíduo que tem uma consciência e uma vontade. Se lhe retirarmos isso, estamos a falar de um animal e não de uma pessoa” – o chamado livre arbítrio. Saber “quem começou” não justifica NUNCA o terrorismo. NADA justifica o terrorismo.
    A minha mudez vem de um fundo profundo onde mora a impotência e a descrença. Mas tem razão, há que reagir, há que recuperar a fala.

    • Daniela Major says:

      Obrigada Ana pelo comentário. Este texto é apenas uma resposta a uma série de opiniões que por aí andavam espalhadas. Quanto à tragédia em si não há nada a dizer, nem se deve dizer. O Silêncio é sempre mais o mais indicado, o mais esmagador.


  2. Quando se manifesta sobre as causas que podem explicar estes crimes, não se refere que somos contra, porque está implicito e de tão evidente se considera irrelevante vir com a treta de somos todos charlie; alias quando se apresenta o argumento da intervençaõ dos EUA, Inglaterra e França no Iraqu e Siria, Libia… decidindo como devem ser governados, por quem, de que modo, como criminosa ,está implicito que não se admite a violencia cá como lá; espero que não deixe de se indignar quando houve , e é todos os dias, dum atentado na Siria. Libia, Sudão, Iraque, Afeganistão, contra pessoas tão inocentes como as de Paris.(só que não são charlie?)
    Já mais perigoso noto que alguns, felizmente em Portugal poucos, que acham bem vir apontar a dedo, os que se atrevem a mencionar outros factos, que não o sou charlie, para tentar trazer factos que possam ajudar a perceber este actos barbaros.
    Isso sim é fazer o jogo dos terroristas, que vivem em todo o lado ,como sabemos, que querem fazer lei a unicidade, listas macarty; já vi pulhas reclamarem que se venha falar da mentira das armas de destruição massiva dos mentirosos Bush e Blair , que nunca foram julgados, nem publicamente, nem socialmente, nem de modo nenhum. E olhe que os mortos que provocaram foram centenas de milhares; i iremos nos proximos anos sentir aqui na UE a “bondade” dos seus actos.