Os exames e a cassete da Direita: Michael Seufert


mw-250Michael Seufert, como qualquer político, é, na maior parte do tempo, um papagaio ou um leitor de cassetes, ou seja, alguém que se limita a reproduzir aquilo que o partido defende ou manda defender. Recentemente, escreveu sobre a questão da revogação das provas finais de quarto ano e da prova de avaliação de e capacidades dos professores (PACC).

Sobre Educação, a esquerda não produz menos disparates. Produz disparates diferentes. Leiamos Seufert e aprendamos os disparates de direita.

Começando por abordar a questão da PACC, Seufert enreda-se numa longa citação do acórdão do Tribunal Constitucional, concluindo que a prova em causa não é inconstitucional e que é do interesse público. A primeira conclusão é inútil e a segunda é, no mínimo, discutível.

Há dois anos, Nuno Crato aparecia na televisão a defender a PACC, o que o levou a zurrar dois disparates de todo o tamanho: explicou que esta prova, imposta a todos os que davam aulas há menos de cinco anos, servia para resolver os problemas de acesso ao ensino superior (ora, quem já terminou um curso superior não só já entrou na Universidade como já saiu dela); por outro lado, Crato declarou ao entrevistador que os professores deveriam ser sujeitos a uma prova, tal como uma televisão deveria pedir a um licenciado em Comunicação Social que simulasse a apresentação de um telejornal (curiosamente, um licenciado que opte pelo Ensino é obrigado, durante um ano lectivo, a dar aulas sob a supervisão de um professor mais experiente: chama-se estágio pedagógico e obriga os candidatos a dar aulas, o que é diferente de simular).

Quer isto dizer que não há problemas com os professores? Claro que sim, mas fazer uma prova depois da licenciatura e do estágio faz tanto sentido como querer limpar a foz de um rio poluído na nascente.

Seufert, que fez parte de uma maioria absoluta durante os últimos quatro anos, não foi obrigado a pensar nos vários problemas que é necessário resolver no âmbito da formação docente. Não pensou em melhorar o sistema de acesso à Universidade, que continua a basear-se num sistema pobre, assente na média e nos exames do Secundário. Não pensou em melhorar a qualidade do ensino superior, empobrecida pelo Tratado de Bolonha. Não pensou em recuperar os estágios pedagógicos que, actualmente, impedem os estagiários de ter turmas à sua responsabilidade e não concedem aos orientadores de estágio redução lectiva que lhes permita acompanhar verdadeiramente os estagiários. Não pensou em revalorizar um sistema de formação contínua que está moribundo desde Maria de Lurdes Rodrigues. No fundo, portanto, Seufert não pensou.

Depois, dedica-se às provas finais de quarto ano, procurando defender que são necessárias. Perdoe-se-me o tamanho da citação que se segue, mas vale a pena:

Os bons alunos, por quais razões que o sejam, passam sempre. A eles pouco importa se há exame ou não há exame, se há avaliação ou se não há. É ao aluno com dificuldade, o aluno que não aprendeu o que precisava de ter aprendido para acompanhar os colegas, que estamos a tirar mecanismos de ajuda se não temos maneira de identificar e de corrigir dificuldades. E sendo certo que os professores têm essas ferramentas, também é certo que um exame externo, elaborado e corrigido por terceiros, é mais objetivo no encontrar dessas dificuldades. Não porque um professor da 4ª classe não saiba identificar os alunos com dificuldades.

A confusão é grande.

Note-se, em primeiro lugar: sem os exames, não é possível identificar e corrigir dificuldades. Ao mesmo tempo, sem os exames é possível identificar e corrigir dificuldades, porque os professores têm ferramentas para isso. Não haverá aqui um ligeiro paradoxo?

Tentando sair do disparate, Seufert afirma “é certo” que um “exame externo” é mais “objetivo” [segundo o AO90, mas já lá vamos]. Não se percebe como é um único exame externo, no final de quatro anos, pode ser mais objectivo. De qualquer modo, entrando novamente no planeta Paradoxo, Seufert afirma que um professor da “4ª classe” sabe “identificar os alunos com dificuldades”.

Seufert, ao tentar defender os exames, acaba, estranhamente, por mostrar razões para acabar com eles, ao reconhecer que os professores conseguem identificar os problemas dos alunos. Como se isso não bastasse, e apesar das contradições, fica-se com a impressão de que, para isso, bastaria esperar por um exame de final de ciclo, esvaziando, desse modo, a necessidade de detecção de insuficiências e de acompanhamento ao longo dos quatro anos do primeiro ciclo.

Seufert, durante a antepenúltima legislatura, apoiou, como deputado, um governo que aumentou o número de alunos por turma e despediu recursos humanos preciosos. Não pensou que isso teria reflexos negativos na identificação e na resolução de problemas, preferindo fingir uma crença nos poderes mágicos dos exames, à semelhança do guru Nuno Crato.

Finalmente, um dos deputados que mais e mais consistentemente combateu o acordo ortográfico aparece, neste texto, a utilizá-lo. Não há nada que se aproveite, portanto.

Comments

  1. Rui Miguel Duarte says:

    Quanto ao ao90, pode ser porque o Espesso lhe tenha pervertido o texto, que não tenha saído assim da mão do autor. É um procedimento a que muitos aceitam submeter-se, mal-grado os próprios não terem no mínimo exigido que a sua escrita não se submeta a esses tratos de polé.

Trackbacks

  1. […] de exames ou provas ou o diabo a quatro não podem, no entanto, estar sujeitas a tiques, modas ou alternâncias políticas entre caranguejolas, geringonças ou outros veículos. Importa, isso sim, pensar, ou seja, […]

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