Em defesa da laicidade


 

Há uns meses li uma entrevista de Elisabeth Banditer em que ela dizia uma frase extraordinária: “Não perdoo à esquerda o ter abandonado a laicidade”. Comecei a perceber, como o tenho percebido desde Janeiro, que a Esquerda ocidental está a entrar por um caminho ideológico muito tortuoso e confuso: que perdeu, que está a perder a sua identidade. Desta vez a culpa não é da Direita, não é dos grupos extremistas, não é de ninguém a não ser da própria esquerda e dos próprios elementos de esquerda que esqueceram as suas origens.

Se formos às origens podemos centrá-las talvez no antiamericanismo que é naturalmente acompanhado pelo anti capitalismo. Até aqui, tudo normal. A luta contra o capitalismo selvagem, contra as guerras estúpidas e desnecessárias provocadas, a maior parte delas, por interesses económicos, são uma boa causa. Ser contra a Guerra do Iraque em 2005 era só ser um sonhador primário. Hoje em dia considerar que a Guerra do Iraque foi um erro gigantesco é só bom senso. Contudo, este antiamericanismo carrega consigo uma grande infantilidade: o alinhar do lado de potências que, supostamente, são inimigas dos Estados Unidos. E aqui, aqui é que as coisas se complicam porque a Esquerda, tal como a Direita, funciona por dicotomia e portanto qualquer coisa que se “oponha” a uma coisa “má” é naturalmente “boa”. Levado aos extremos temos o quê? Temos, por exemplo, gente que sendo contra Israel – aliados dos Estados Unidos – resolvem aproveitar a boleia para se tornarem nojentos antissemitas. Sim, sim nojentos. O antissemitismo é nojento. Criticar Israel, as violações de Direitos Humanos, os colonatos, o tratamento dado aos civis palestinianos, tudo isto é aceitável e salutar. Incluir todos os judeus, como se todos os judeus fossem iguais, e criticá-los trazendo muitas vezes à baila a famosa “os judeus são ricos e controlam o mundo” é só absurdo. Já Hitler achava que os Judeus controlavam o mundo e eram uma ameaça. Quando pela defensa dos oprimidos começam a soar como opressores é tempo de rever as prioridades. Especialmente, se os oprimidos foram mortos em massa em nome de retórica semelhante.

Entretanto, entra nisto a questão da religião. Antigamente, nos bons velhos tempos, a Esquerda percebia que todas as religiões do Livro eram formas de exercer o Poder. Qualquer ideologia que tenha uma estrutura, normas, hierarquias, pessoas que as fazem cumprir, pessoas que têm um lugar de destaque numa comunidade e que são ouvidas por outras em virtude desse lugar e dessas crenças, é um instrumento de poder. Isto pode ser bom ou mau. Se seguirmos Foucault sabemos que todas as relações são relações de poder e que isso não é necessariamente mau. Só que no caso da religião, é mau. Assumidamente. É mau. Quase todos os grandes avanços do século XX em termos de direitos civis foram feitos contra a religião: o feminismo, o divórcio, os direitos dos homossexuais, o aborto. A Esquerda sabia que a laicidade era uma condição necessária para a vida em sociedade. A Esquerda sabia que a laicidade era necessária pois o objectivo era relegar a religião para a esfera privada para que ela não pudesse interferir na sociedade civil. A Esquerda sabia que as Igrejas, todas elas, que os padres, todos eles, de qualquer tipo e religião, são – ou podem ser – instrumentos de manipulação de massas. E mais: a esquerda sabia que os últimos dos séculos de História ocidental foram baseados na crítica da religião e que a sociedade democrática se construiu contra a influência da Igreja – ou seja de estruturas que propagam crenças religiosas cujo objectivo é controlar a vida das pessoas. A Esquerda sabia, ou devia saber, que o Iluminismo (sim, sim já sei) começou com Espinoza, um judeu sefardita de Amsterdão que, em latim, percebeu que a moral e que a Ética não têm a ver com normas religiosas, que elas nem sequer servem para explicar a Natureza – e que o melhor era mesmo haver uma separação entre a religião e o Estado. E que Kant disse que a Razão é o fundamento da moral (o que é muito importante porque é a Razão e não um Livro qualquer escrito há 2000 anos. Não a fé).

A Esquerda sabia tudo isto. A Esquerda traiu-se. A Esquerda apoia o Irão porque é antiamericano. A Esquerda diz que cartoons que gozam com Maomé “ofendem” muçulmanos e que a culpa de terem sido mortos é dos cartoonistas. A Esquerda defende agora a criação de “safe spaces” onde todas as ideias contrárias às suas são censuradas. A Esquerda diz que a religião não doutrina e que as pessoas “escolhem” ser oprimidas. A Esquerda adoptou o termo islamofobia, que significa fobia a uma ideologia – o Islão – em vez de Muçulmano-fobia que são as pessoas que o praticam (Curiosamente, a maioria não são brancos mas isso deve ser uma coincidência que não tem interesse). A Esquerda acha que uma pessoa é a religião que segue. A Esquerda acha que essa religião não deve ser criticada. A Esquerda acha que a islamofobia é a mesma coisa que o antissemitismo. A Esquerda confunde estupidamente, e terrivelmente, a crítica a uma religião, a um símbolo religioso, a um líder religioso, com o racismo. A Esquerda defende que o facto de alguém se sentir ofendido nas suas crenças mais profundas é o mesmo que ser discriminado. Um católico que se ofende por alguém criticar o Papa não se torna o supra-sumo da racionalidade. Não está a ser discriminado. Discriminação é alguém ser insultado ou agredido por ter determinada religião, não ter acesso a emprego, ou a ajuda humanitária básica por usar um véu ou um turbante. Discriminação e racismo é achar que todos os muçulmanos são terroristas. Gozar com um símbolo religioso, criticar determinadas práticas e princípios religiosos não é discriminação. É sentido crítico. A Esquerda acha que mulheres como Hirsi Ali ou Maryam Namazie não interessam porque não têm o discurso inclusivo e amorfo sobre a religião. A Esquerda acha mesmo, mesmo a sério, que ideologias baseadas em livros com milhares de anos podem ser literalmente aplicadas à sociedade hoje. A Esquerda acha sinceramente que há uma “religião” pura; em vez de perceber que todas as religiões do Livro são violentas e pacíficas porque todos os Livros têm passagens violentas e passagens pacíficas. Porque é tudo sujeito à interpretação e que todas elas são possíveis porque aquilo não é coerente! A Esquerda está tão perdida no seu labirinto que se esqueceu de uma coisa básica: qualquer sociedade em que os valores da Igualdade, Liberdade e Fraternidade estejam estabelecidos na Lei são sociedades mais saudáveis e mais evoluídas do que sociedades em que determinados grupos, sejam eles quais forem, são discriminados, mortos, presos, por virtude de existirem. A Esquerda perdeu a capacidade de dizer: A religião? Não, não há lugar para isso na vida em sociedade.

A Esquerda perdeu a capacidade de distinguir entre os indivíduos e as ideias. A Igreja Católica continua a não aceitar o preservativo. Na Arábia Saudita as mulheres não podem conduzir. A apostasia e o ateísmo levam à pena de morte em cerca de 13 países no Mundo. Os Republicanos americanos continuam a misturar promiscuamente a religião e a política. É evidente, contudo, que os católicos continuam a usar o preservativo e que nesses países existem ateus. O problema não são os indivíduos. Esses são todos diferentes. Esses são as vítimas de racismo. Esses são quem temos de proteger. O problema são os sistemas. São as ideias. São as crenças. São os símbolos. São as elites. São as próprias estruturas que estão inerentes à existência das religiões. E essas são sempre, sempre, e devem sempre, sempre, ser criticadas.

A Esquerda esqueceu-se disso. A Esquerda esqueceu-se e agora vê o discurso laico a ser terrivelmente apropriado pela extrema-direita. É ridículo, mas é verdade. Isto é tão ridículo que até o Jean Marie veio dizer “ó Marine mas olha que nós também somos contra esta treta da laicidade”. A extrema-direita usa a laicidade para fins racistas. A extrema-direita não quer a igualdade. Não quer uma sociedade justa e igualitária. A extrema-direita quer o discurso dos “nós e os outros”. A extrema-direita usa a crítica da religião para culpar um determinado grupo de pessoas por coisas das quais não têm culpa, para exaltar e propagar a discórdia e o ódio.

A Esquerda traiu-se. E aqui não pode culpar a extrema-direita. Sim, os fascistas foram oportunistas, mas quando não o são? Não. A Esquerda só se pode culpar a ela própria. A Esquerda já não é Laica e Republicana.

 

 

 

Comments

  1. Faguntes says:

    Que pena só poder pôr um like.

  2. albanocoelho says:

    Esta é talvez a mais lúcida crítica desde há muitos anos a esta tragédia de (quase) toda a esquerda. Assenta como uma luva a uma certa ex-corrente do BE.

  3. Ana Moreno says:

    Pergunto-me de que esquerda serei eu, pois nada disto se me aplica…

    • albanocoelho says:

      Se é assim, é da mesma que eu ou lá perto.

    • Daniela Major says:

      Ana, claro que aqui há uma generalização, lá está, “estrutural” (eu não gosto muito de aplicar este conceito a tudo mas aqui falta-me outro).

      Eu penso que o que escrevi se aplica, especialmente, a uma tendência que começou há vários anos nos Estados Unidos e Grã-Bretanha e que tem, hoje em dia, bastante visibilidade em alguns meios de comunicação e universidades. A noção de “safe space” por exemplo, que mencionei no texto já foi até abordada pelo Obama numa declaração (e está agora outra vez na berra por causa de uma polémica com a referida Maryam Nemazie). Em Portugal, por exemplo, não tenho conhecimento de nenhuma inicitiativa do género.

      De resto, há “várias” esquerdas porque há várias pessoas de esquerda (E ainda bem que assim é porque a própria ideia de “label” me desagrada mas isso é outra conversa). Aqui falo apenas de uma tendência que eu penso estar-se a tornar cada vez mais comum. Uma tendêcia que mostrou o seu lado mais feio com os recentes ataques terroristas e que talvez por isso, se tenha tornado, para mim, mais notória.

      • Ana Moreno says:

        Obrigada Daniela! É que entretanto há, felizmente, muitos movimentos de cidadania, que sendo de esquerda (vá lá, passando por cima do “label”), não estão comprometidos com as posições que descreve, p.ex. contra o TTIP e afins, contra os OGM, pela auditoria da dívida, pelo post-crescimento e por aí fora…É para a pujança desta via que gosto de olhar ao pensar em esquerda. Quanto à ala mais formalizada, tem razão, anda muito desorientada.
        Mas em Portugal, neste momento, está a tornar possível uma esperança de melhor vida – podemos congratularmos!

  4. Na “mouche”. Parabéns, Daniela, pelo excelente artigo.

  5. Magnifico post
    Magnifica inteligencia

  6. Rui Moringa says:

    Parabens pelo texto. Apreciei as ideias que o estruturam. Há tanta falta de ideias e de pensamento…
    Contudo, fico sempre confuso com a classificação de esquerda e direita relativa ao posicionamento relativo a alguns princípios. Para mim esquerda e direita resume-se à posição ideológica dos que estavam geograficamente à esquerda e direita na assembleia do 18 Brumuário (?). Era assim?…

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