A beatificação de Marcelo Caetano, por Marcelo Rebelo de Sousa

MRS MC

Se Cavaco Silva era um cidadão perfeitamente “integrado” no Estado Novo – e se dúvidas restassem, a contradição entre rejeição da atribuição de uma pensão a Salgueiro Maia e a atribuição de uma pensão por serviços “excepcionais e relevantes” a dois ex-inspectores da PIDE/DGS fala por si – um fascista praticante portanto, Marcelo Rebelo de Sousa não lhe fica muito atrás e será, no sentido facho da coisa, o candidato ideal para suceder a Cavaco.

Regressemos a Fevereiro de 2009. No colóquio “Tempos de transição”, dedicado à vida íntima de Marcelo Caetano, da qual Rebelo de Sousa fez parte, tendo o seu pai, Baltazar Rebelo de Sousa, amigo de Caetano e destacado fascista, desempenhado inúmeras funções na estrutura dirigente da ditadura, da Mocidade Portuguesa ao Parlamento-fantoche do Estado Novo, passando pelos ministérios da Educação, das Colónias, Saúde e Assistência, Corporações e Previdência Social, o agora candidato à presidência da República não poupou nos elogios a uma das figuras maiores do regime opressor que impôs ao país um reino de ignorância, manipulação e terror durante quatro décadas.

Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, o grande problema de Marcelo Caetano foi ter chegado tarde demais ao poder. Mas não ficou por aí. Segundo o Expresso:

Referiu a vastidão da sua cultura (histórica, literária e, claro, jurídica), “a inteligência completa”, o seu “forte sentido do dever”, a “curiosidade perante a mudança”. Acentuando as suas diferenças com Salazar e outras figuras cimeiras do Estado Novo, definiu Caetano como “tipicamente urbano”, “muito viajado”, adepto da “liberdade económica” e de um “corporativismo de associação”. Francófono, tinha “uma secreta simpatia pela Inglaterra” e admirava Churchill.

Só faltou mesmo dizer que este oficial de topo do regime carniceiro do Estado Novo era um grande democrata. Na enumeração das boas intenções do fascista, e de boas intenções, sabemos, está o inferno cheio, Marcelo Rebelo de Sousa fez o pleno e concluiu, de uma forma que ilustra bem a sua afinidade de com o antigo regime e em especial com a figura sinistra de Caetano, que “Em termos gerais, [Marcelo Caetano] era um homem excepcional”. Claro que era! Tal como foram excepcionais Hitler, Franco, Estaline, Pinochet, Pol Pot ou Mussolini. Bárbaros, opressores e violentos mas, sem sombra de dúvidas, excepcionais. Pena Marcelo Caetano não ter sido suficientemente excepcional para colocar um ponto final na Guerra Colonial e nas perseguições selváticas da PIDE-DGS, para levar a cabo uma abertura plural do regime à participação de diferentes sensibilidades políticas ao invés das reformas de fachada que introduziu ou para acabar de vez com a arbitrariedade que oprimia Portugal e as colónias.

Fotomontagem roubada ao We Have Kaos in the Garden

*****

P.S. Por falar em fascistas, quem foi que se fartou de lucrar com o Estado Novo? Foi a família Espírito Santo, encostada aos negócios do regime da mesma forma que viveu, até há pouco tempo, encostada ao bloco central de negócios. Tão encostada ao regime e à extrema-direita que chegou a receber em sua casa, durante a Segunda Grande Guerra, o exilado Duque de Windsor, preferido da Alemanha nazi para ocupar o trono britânico caso a ocupação fosse bem sucedida. Não admira que Marcelo e Salgado sejam bons amigos. Tanto que têm eles em comum!

 

Comments

  1. Ana A. says:

    É confrangedor ver MRS nos debates, a tentar passar por entre os pingos da chuva, para sacar votos aos incautos! Dissimulado é talvez o adjectivo que melhor lhe assenta!

  2. ferpin says:

    Quando mete Hitler, Franco, Estaline, Pinochet, Pol Pot ou Mussolini na mesma cena do marcelo caetano estragou tudo.

    No geral é evidente que MRS era um menino bonito do antigo regime, afilhado o último presidente do conselho, e que este governava num tempo de ditadura, pelo que de democrático tinha pouco.

    Quando culpa os espírito santo por terem recebido em casa o exilado duque de windsor como crime principal (gastou montes de linhas com esta minudência) continua a dar pontapés na lógica.
    Os espírito santo eram protegidos do salazarismo e foram ladrões provados bem recentemente, não precisa do duque de windsor para os vilipendiar. O duque de windsor é que pode estar arrependido de ter ido a casa deles (se estivesse vivo, é claro), apesar de ter sido um idiota com admiração pelo fascismo e pelo hitler em particular. Julgo ter lido que o hitler ponderou raptá-lo para a alemanha para o usar no interesse da alemanha, donde o dito duque não seria assim tão engagé com o hitler.

  3. Experiência acumulada says:

    O episódio do Duque de Windsor em casa dos Espírito Santo não foi coisa sem importância e bom é que se ponham os pontos nos ii. Salazar era um colaborador directo de Hitler, a quem fornecia volfrâmio e a comida que tirava ao esformeado povo português. Hitler, por sua vez, sabia das inclinações Nazis de Eduardo de Inglaterra. Estava disposto a raptá-lo. A estadia dos Duques em casa dos Espírito Santo foi toda preparada nesse sentido. Quem estragou o arranjinho foi um enviado especial da Coroa Britânica que se deslocou a Lisboa para dar o fatal murro na mesa. Salazar e Hitler, recuaram. Eduardo, de rabo entre as pernas, seguiu para as Bahamas , onde foi governador até final da Guerra. E depois, ficou num exílio dourado sem ter ordem de regressar à patria. Banqueiros que são cúmplices de operações desta envergadura, têm tudo quanto querem em matéria de negócios para não abrirem a boca. E assim aconteceu, na maior impunidade. Mas, atenção, quem fez o 25 de Abril também teve muita culpa: não levou a julgamento, até às últimas consequências, toda esta gente.
    Porquê? É uma boa pergunta. Seria muito útil saber se foi porque alguns dos actuais senhores também comiam desta gamela. Se Ricardo Salgado não chegar a ser julgado, assim tendo oportunidade de abrir a boca e dizer o que sabe, ou se o processo for arquivado com as desculpas do costume, está a resposta dada.


  4. Sendo ele um ex-ditador, também acho muito estranho quando ele faz os seus comentários; que não será muito normal: falar com a boca,mãos,cabeça, jingar-se todo, com uma estranha posição visual, mais parece uma marioneta.

Trackbacks


  1. […] banca está sólida e o governador do Banco de Portugal é o baluarte de estabilidade. Para quem beatifica Marcelo Caetano como ele tentou fazer, ainda nos habilitamos a ver o seu amigo Ricardo Salgado no Conselho de […]


  2. […] rabo-de-palha como os vários que têm os restantes convivas citados. Até ver só más companhias, fascistas e corruptas, mas ter familiares e amigos de fraca índole ainda não é crime. Nem, tanto quanto […]


  3. […] perguntava-se, por estes dias, num comício de Sampaio da Nóvoa. Do lado do regime pois claro! Durante o fascismo foi fascista, conseguiu a proeza de escapar ao serviço militar obrigatório e nunca se misturou com aqueles […]


  4. […] não sabem a diferença entre o humor inofensivo e a crítica ofensiva mal-intencionada. Seria a costela fascista a […]