Exames ou provas de aferição?

publico3O debate está aí e, pela primeira vez em muitos anos, fala-se de Educação e não dos custos da Educação. Fala-se dos alunos e do que eles devem ou não fazer e não dos Professores. E, esse mérito é do contexto social que hoje se vive, onde todos podem respirar melhor.

Depois de terem passado algumas horas da divulgação da proposta do Ministério da Educação, parece-me que a crítica mais consensual é sobre o modo e não tanto pelo conteúdo.

O Paulo, num texto que subscrevo, refere que “Não me parece aceitável sem forte crítica a alteração de regras no início do 2º período de um ano lectivo que foi planificado (tal como o próprio ciclo) há meses para ter provas finais no 6º ano“. Argumento também apresentado no editorial do Público: “Medidas avulsas não resolvem crise alguma. Tinha que ser assim? Não, não tinha.”

Há no entanto, um argumento que me parece válido – agora, só temos que dar aulas, fazer o nosso trabalho e ignorar a preparação para um alien pedagógico. Portanto, não muda assim tanto. Segunda-feira, lá estarei para continuar a matematicar com os putos do 6º, agora sem exame.

É verdade que, em educação, tudo muda, sempre, a toda a hora e sem avaliação. Mas, permitam-me que coloque outras questões porque continuo a subscrever por inteiro o conteúdo da proposta de Tiago Rodrigues.

Num primeiro momento, subscrevo por inteiro, três das ideias apresentadas:

 – as provas de aferição são melhores para os alunos que os exames;

–  é melhor que aconteçam no meio do processo do que no fim;

– não são só o Português e a Matemática que contam.

E, estas são as três verdadeiras mudanças que são introduzidas.

Todas elas merecem o meu aplauso porque:
a) a escola é feita para ensinar e, lá, os alunos devem aprender. Logo, tudo deve estar preparado para promover as aprendizagens dos alunos. Um exame que serve apenas para classificar (atribuir uma nota) no fim de um ciclo não serve para nada. Ou antes, serve apenas para classificar, para colocar um carimbo e não acrescenta nada até porque, só chega no fim. Vamos imaginar que no 4º ano se percebem a existência de fragilidades nas aprendizagens de um aluno, por exemplo, na leitura. Em que exame isso foi avaliado? E, se tiver dificuldades na tabuada, qual é a utilidade do exame do 4º ano? Nenhuma. Como digo há anos, o Rio Tinto, para chegar limpo ao Douro, tem que ser tratado ainda em Ermesinde. Os exames classificam e as provas de aferição permitem conhecer as aprendizagens, perceber onde estão as lacunas de modo a ser possível programar a sua resolução.

Ora, para que isto aconteça, o 2º ano poderá ser um bom momento, tal como o é o 5º. Mas, sobre o momento das provas escreverei depois.

b) a centralidade da escola na matemática e no português são uma marca de outros tempos. Qualquer pessoa de sucesso – até o Jorge Jesus o diz – sabe que a competência é uma construção multi-marcas. Ninguém pode ser pessoa sabendo apenas matemática ou português, porque se só souber disso, nem disso saberá. As ciências da vida? As expressões plásticas? E a música? A atividade física? E as ciências sociais? Não são todas dimensões fundamentais da formação de qualquer pessoa? Assim, introduzir o estudo do meio nas provas do 2º ano e promover a realização de mecanismos de aferição (até experimentais) em diferentes disciplinas do 2º ciclo é tornar mais igual o currículo e cada uma das suas dimensões.

Claro que, para Crato e Portas, a escola deveria formar apenas funcionários ignorantes que possam cumprir ordens dos patrões. Se calhar, talvez, até permitam a alguns o papel de contribuintes. Logo, um operário não precisa de saber história, biologia, de gostar de música ou de praticar desporto.

Mas, eu prefiro mais: quero que a Escola forme pessoas, permita que cada menino e cada menina possam assumir um papel activo na sociedade e isso significa formar um cidadão e não um contribuinte.

 

Comments


  1. “parece-me que a crítica mais consensual é sobre o modo e não tanto pelo conteúdo.”

    Não tenho paciência para este tipo de argumento.

    O que estava , estava mal.

    Logo, qual é o problema em se acabar logo?

    E em que é que isto “mexe” com o trabalho das escolas e expectativas de não sei quem?

    Cá por mim, caso se acabasse com tanta burocracia nas escolas- papéis e mais papéis em duplicado e triplicado que retiram tempo ao que é essencial na escola ( uma boa medida do novo ministro tb deve ir neste sentido),ainda vinham dizer que “o conteúdo até que pode ser bom embora o TEMPO não seja consensual”, O que é que se fazia a tanto excel e Inovares e minutas e PTTs e memorandos e actas e resma s e resmas de papel já encomendado?

    Já não há paciência para estas opiniões. Nem do Paulo Guinote nem da Bárbara Wong.


  2. Fui ler o que escreveu Paulo Guinote,

    “O que a mim vai espantar é ver quem hiperbolizou o aspecto traumático de provas no 4º e 6º ano com 30% de peso na nota final a explicar a bondade de provas de aferição logo no 2º ano. A menos que não sejam para levar muito a sério, é isso?”

    Assim, de repente, temos que:

    1- PG foi dos que mais baseou a defesa de exames baseado no argumentário traumático que sempre atribuiu aos que os não defendiam, mesmo quando lhe mostraram que não era essa a razão. Mas PG continuou e continua com esse enorme não argumento, um argumento que criou para colar que nem um pot-it na testa de quem pensava diferente.

    2- PG parece não saber o que é uma prova de aferição. Aqui poderá ter alguma razão porque as provas de aferição anteriores não serviram muito para aferir.

    Já é altura, esperemos, que possam mesmo aferir, certo?

  3. JgMenos says:

    Defendamos as crianças e os professores do stress dos exames!
    Para quê preocupá-los hoje se não tardam os dias relaxados do paraíso terreal em construção acelerada desde que houve a coragem de dizer BASTA à austeridade?


  4. Aqui o PG só sabe o que é uma prova de aferição porque as aplicou e classificou desde a sua criação,

    O resto… o resto parece-me uma certa azia contra-factual. Poderia explicar, mas não vale a pena fazê-lo em relação a um qualquer “F” (mesmo que calcule quem seja…).

    Quando ao que escreve o João Paulo… a mim não altera praticamente nada o que faço com os alunos do 6º ano, apenas tendo ficado, subitamente, com o 3º período “limpinho, limpinho”… só que quem dá 5º ano… leva com a bigorna em cima.


    • Pois, é isso mesmo. Estou como tu – são já alguns anos a virar frangos. Para quem tem sexto… Para os de quinto, nada disso – tudo tranquilo até ao fim e logo se vê. O problema é que os senhores diretores vão mudar, repentinamente a agulha da pressão.


  5. “só que quem dá 5º ano… leva com a bigorna em cima.”

    Não entendi.


    • Cara “F”/Fernanda Marques… foram ofensas pessoais e profissionais as que me dirigiu em comentários em outros blogues, nomeadamente num vergonhoso “cotãoumbiguista”.

      Tivesse vergonha na cara e não voltaria a comentarquakquer escrito meu, depois do que escreveu mas, infelizmente, a classe docente alberga algumas criaturas abjectas que só por coincidência se podem considerar “educadoras”.

      Repito o que já escrevi em outros tempos… não busque pelas minhas bandas o que lhe falta de emoção na vida, em especial depois do comportamento vergonhoso que teve para comigo, meses após meses e que nada teve a ver com diferença de opiniões mas sim com activa colaboração com uma tentativa de assassinato de carácter. Já houve quem se arrependesse, no seu caso, infelizmente, não.


  6. O que é que um exame impede o professor de ensinar? Eu entendo que a ausencia de exame torne todos os professores excelentes, e por tanto defensável e digno de aprovação; agora dizer que com a falta do exame as fragilidades de leitura passam a ser combatidas, alem de me parecer demagogia pura, segue uma lógica da batata. Sim vamos acabar com a prioridade no português e na matemática porque os índices vão subir muito e o trabalho dificel, muito facilitado: No fim que interesse twm a matematica? acredito que para o sindicato dos professores seja até um empecilho; conseguiu-se grande sucesso sem nada disso.


    • Viva, o meu ponto não é esse. Repare: tenho um aluno que no papel (exame) me consegue saber, entre dois preços, por exemplo, de um pack de iogurtes. Agora, continuando a imaginar, tenho um outro aluno, que no exame (por ser “apenas” escrito) falha, mas, na situação, em concreto, vai conseguir fazer a opção correcta. Ora, porque é que um deverá ser valorizado e outro não? E, porque é que um aluno que consegue escrever um texto xpto é mais valorizado, apesar de não conseguir articular uma frase perante a turma que um outro que consegue falar em público, tendo dificuldade em escrever. Ou seja, o que quero dizer é que avaliar é diferente de classificar. Os exames classificam, mas só permitem identificar uma área muito reduzida de dimensões. Quanto aos seus comentários laterais, são isso mesmo, um conjunto de “pré-conceitos” que prefiro ignorar para permitir a continuação da discussão.

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