Metamorfoses


bluered

Imagem: Matrix

 

Estamos perto de acordar quando sonhamos que sonhamos.

Novalis

 

Aqueles que, dentre nós, pertencem ao Reino Humano, têm por vezes a tendência para pensar que a vida, na sua totalidade inexprimível, se cinge a este quotodiano contabilístico, feito de primeiras páginas de jornais e cintilâncias televisivas. Mesmo que sem a completa consciência disso, as mais das vezes sem nenhuma consciência disso, o Homem ocidental habituou-se a uma pose falsa de domínio sobre a natureza e a vida, tomando os seus próprios hábitos como arquétipo no qual o Criador bebeu para fazer Luz.

Mas a verdade pode bem ser outra. Essa ilusão de poder dificilmente sobrevive a uma real atenção sobre as variáveis infinitas da existência, sobre a fonte inesgotável de energia onde nascem os modelos fundadores e as suas ramificações pelos mundos de significados que nos envolvem, interpenetram e nos ligam, enquanto um dos quatro Reinos da natureza, a todos os outros que em nós e connosco partilham o fluir do Momento.

A quem nunca aconteceu o mistério revelar-se no voo de um pássaro, ou na corrente de um rio, ou no pequeno arbusto que se agita ao sabor do vento? Esses momentos brilho são ligações da vida a si própria. São manifestações que se nos oferecem como chaves dos mistérios que todos os dias desistimos de compreender, mas que abrem as portas da sabedoria e do apaziguamento.

William Eberhard é biólogo, buscador de mistérios, e trabalha no Smithsonian Tropical Research Institute, no Panamá. As suas áreas de pesquisa preferenciais são a selecção sexual, a evolução genital e o comportamento e história natural das aranhas e outros insectos construtores de teias. E foi sobre o estranho mundo dos aracnídeos e a sua interacção com o não menos misterioso universo das vespas, que o senhor Eberhard se debruçou há já alguns anos, tendo resultado do seu trabalho um conjunto de observações rigorosamente extraordinárias, cuja extrapolação, uma vez dirigida ao reino de que eu e o leitor somos exemplares, desenha interessantes possibilidades de análise e hipóteses estimulantes sobre as relações de poder em certas sociedades humanas.

Fala o biólogo do comportamento de um particular tipo de vespa, precisamente a Hymenoepimecis sp., que classifica como sendo um “parasita manipulador”. O seu hospedeiro e, diz-nos toda a evidência, infeliz vítima, é a Plesiometa argyra, uma tenebrosa mas malfadada aranha que às mãos da vespa e da sua prole encontra a mais terrível das mortes.

A vespa, na altura da desova, começa por picar a aranha na sua própria teia, injectando-lhe no corpo uma substância química que a paralisa completamente. Nessa altura, com a pobre aranha prostrada, a vespa deposita o ovo sobre o seu corpo. Um parto seguro e natural sobre um lombo felpudo e quente. Passado o efeito paralisante do tóxico, a aranha recupera as suas forças e sentidos, prosseguindo o seu quotidiano morno de aranha. Caçando moscas, namorando formigas, enganando mosquitos. Contudo, carrega agora a larva de uma vespa parasita que nos dias seguintes vai viver com fausto no seu corpo e alimentar-se, literalmente, do seu sangue.

Durante mais uma ou duas semanas, a aranha continuará ainda a construir as suas teias radiais e labirínticas de onde tirará o sustento mas, ao início da noite fatídica em que conhecerá a morte, algo inaudito acontece. Sem que nada possa fazer para o evitar, tomada nas próprias entranhas pela larva entretanto crescida pela engorda sanguinária, a aranha começará a construir uma teia diferente, de uma geometria desordenada e estranha a todas que até então havia construído, desta vez desenhada meticulosamente para satisfazer as necessidades exclusivas do seu hóspede sinistro. Já não é uma teia radial e espiralada em torno de um centro, poderosíssima ratoeira contra insectos e até mesmo outras vespas, mas apenas quatro sólidos fios suspensos em forma de Cruz.

Nessa altura a larva da vespa abandona o seu casulo, mata a Aranha e come-a ao longo de vários dias, ficando depois suspensa, em total segurança, da teia cruciforme que ardilosamente manipulou. Essa teia protegê-la-á ainda durante algum tempo das condições mais adversas, após o que voará para dar início a um novo ciclo.

Comments

  1. Ana Moreno says:

    E a moral da história… 🙂

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