Estória do Cavalo e do Porco

 

© Bruno Santos

© Bruno Santos

 

Vivia feliz, numa grande herdade alentejana, Bucéfalo, um magnífico cavalo assim baptizado pelo seu dono em honra do heróico quadrúpede de Alexandre da Macedónia. Bucéfalo era um animal belíssimo e de uma rara inteligência. Passava os seus dias correndo e pastando pela grande herdade de Samuel Fagundes, que de vez em quando o levava a participar num ou noutro torneio equestre, dos quais trazia sempre vários prémios e rasgados elogios.

Um dia, porém, Bucéfalo magoou-se seriamente numa pata e Samuel Fagundes foi dar com ele deitado junto à cerca norte da herdade. Preocupado, procurou logo inteirar-se do estado do animal, desconfiando que se tratava de um grave ferimento. Chamou o veterinário que, após uma breve observação, confirmou o diagnóstico e ditou a sentença do cavalo:

– Não há hipótese. Tem que ser abatido.

Conformado e muito triste, Samuel Fagundes aceitou o veredicto do especialista e foi preparar-se para acabar com o sofrimento de Bucéfalo. Quando se ausentou para ir buscar a caçadeira, eis que surge o porco, que também vivia na herdade, junto ao cavalo:

– Levanta-te, Bucéfalo! Olha que eles vão matar-te! Levanta-te e corre!

Mas Bucéfalo não respondia. Tinha a cabeça deitada sobre a erva e fez apenas um gesto com o olho esquerdo, parecendo querer dizer ao seu amigo porco que nada havia a fazer, que o seu destino estava traçado. Mas o porco, animal solidário e teimoso, não desistiu.

– Anda lá, meu amigo, ergue esse corpo e galopa! Se não o fizeres eles matam-te! Tu és capaz! Acredita em mim!

Bucéfalo mantinha-se prostrado.

– Levanta-te, amigo! Vá! Sê forte! Ergue esse corpo e escapa à ceifa da morte!

Como por milagre Bucéfalo começou a erguer-se. Primeiro a grande cabeça e o pescoço muito pesado. Depois, finalmente, o corpo todo, apoiado nas pernas que retomaram a antiga força que o fizera um dos mais céleres cavalos do sul. Samuel Fagundes regressava de caçadeira na mão e ficou atónito ao ver o seu belo cavalo correr de novo pela herdade, são como um pêro. Nem queria acreditar no milagre. De tão contente que ficou telefonou a todos os seus amigos e convidou-os para uma grande festa em celebração do milagre que salvara Bucéfalo:

– Apareçam no Sábado para o almoço! Vou matar o porco!

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Excelente.
    Samuel Fagundes é o político. Bucéfalo é o povo e o porco, a sua consciência.
    Eis como um político mata a consciência de um povo quando esta decide actuar.
    E asim o povo continua manco e os políticos continuam a optar erradamente.