Apogeu da ética protestante


Imagem © Bruno Santos

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A segurança conquista-se quase sempre à custa da liberdade e da auto-determinação. Sem cedência de soberania, quando não estão garantidos os meios que assegurem a auto-suficiência – ou mesmo que estejam – qualquer povo, assim como qualquer indivíduo, está sujeito aos perigos com origem nas suas próprias fraquezas e nas forças dos predadores do mundo. A não ser que esteja disposto a assumir como lema de vida e como destino o “pão nosso de cada dia” e entregue a sua sorte à Vontade d’O que está no Céu, tanto o povo como o indivíduo terão de privar-se da autoridade sobre si próprios e encarar a Obediência como fim útil e último das suas vidas.

Esta subjugação da persona, que os gregos antigos tão bem souberam simbolizar na cama de Procusto, o domínio ortopédico sobre o desejo, está em aparente contradição com o conjunto de Valores com que o Humanismo cimentou a civilização ocidental e que o Iluminismo reforçou poeticamente, conferindo ao Indivíduo, e aos povos por maioria de razão, uma ilusão de poder sobre si próprios, de auto-determinação e independência, que a história se vem encarregando de desmontar.

Os tempos estranhos que vivemos mostram o fim da civilização que Leonardo da Vinci quis erguer sobre as ruínas de Platão. Mostram o definhar do Renascimento e do mito antropocêntrico, levando consigo a receita Protestante de liberdade individual e dos “direitos” de cada um. Leonardo teve quem sustentasse o seu génio, pagando para que se ocupasse a inventar máquinas, dissecar corpos, buscar o zénite e o nadir da Forma que de modo tão exemplar sintetizou no Homem Vitruviano.

Foram príncipes quem pagou a Leonardo para que achasse o tesouro da Matéria. E ele achou-o. E deixou-nos o mapa para que ao longo de cinco séculos o buscássemos, para que empreendêssemos essa viagem descendente até aos nanotubos e ao acelerador de partículas. E nós fomos e encontrámos o Tesouro. Não tinha nada lá dentro.

Comments

  1. Coisas de pai, dei por mim, esta semana a estudar, com gosto a matéria de história do 8º ano. Lá estava, Cristãos, Lutero, o Renascimento… Sorri e voltei a sorrir porque vi o que nunca tinha visto. Eu, que fui um muito bom aluno a história, mas que segui caminhos mais numéricos, dei por mim fascinado ao ponto de pensar – será que a minha forma de ver a religião, será que a minha fé, está relacionada com esta forma que Lutero teve de colocar “a coisa”. Até fui ver o filme, imagina tu. E, agora, venho ler o texto e fico outra vez baralhado.
    Afinal, levo a minha fé por onde?

  2. joaovieira1 says:

    Estamos longe da mitologia grega (não de muitos dos seus ensinamentos sábios) e mergulhados nas maiores turbulências de uma civilização ocidental, em profunda e complexa crise de identidade e mudança, numa UE e num país, onde os recursos e meios são geridos a conta-gotas, com toda a parcimónia, para não prejudicar, quem, desde há tanto tempo, acumulou riquezas incalculáveis, tantas vezes, provenientes do roubo e da corrupção mais obscenos, mesmo na barba dos políticos que se consideram honestos e patriotas, acima de quaquer suspeita. Contudo, entre nós, há um enorme número de portugueses/as que, ao longo dos últimos 8 anos, batidos por todas as inclemências, desafios, ameaças e empobrecimento sistemático, por razões, as mais diversas, ponderosas e reais, de ordem pessoal, familiar ou outra/s, não abandonaram o seu país, continuando a constituir o objecto, cerne e substância das preocupações, estratégias e medidas que TODA a nossa classe política deverá/terá de encontrar, consensualizar, dar forma, calibrar e aplicar com vista a garantir, por gerações, o futuro da esmagadora maioria da nossa população, por mais que se diga e defenda que somos um país de brandos costumes, bom só para reformados e investidores estrangeiros e para viver no litoral, deixando o interior às urtigas, eucaliptos e marcos civilizacionais arruinados. incapaz de se reestruturar de um ponto de vista da prestação de serviços públicos efectivos e de promover um crescimento e desenvolvimento empresarial privado, sério, competitivo e criador de postos de trabalho, remunerados, no mínimo, ao nível europeu, fora de uma economia paralela que alimenta a corrupção e o ganho fácil.

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