Mário

© Patrick Breen

Adélia Pires

O Mário é o que muitos considerariam uma personagem.
Surge de manhã muito cedo a deambular pela rua num passo bêbado a que os tiques da medicação combinada com o álcool o condenaram. Senta-se na esplanada do café em frente ao meu trabalho, bebe um café e interpela os que vão entrando para despacharem o vício da cafeína. Geralmente pede-lhes tabaco, ou uma moeda.
Conheço o Mário há muitos anos. Se o encontro de manhã ofereço-lhe um café por conta da moeda que me pede e graças a isso fui brindada com muitas conversas de cariz dadaísta nas madrugadas pré-laborais. Por vezes pergunto-lhe se quer comer alguma coisa, mas a resposta é sempre a mesma. Que não, que já comeu, que a mãe cozinha, mal, mas cozinha e que faz comidas pesadas que lhe atrapalham os vôos funambulares matinais. 
Os pais do Mário habituaram-se há muito à ideia de terem perdido um filho que não morreu. De vez em quando o pai calcorreia as ruas à procura do filho e quando o encontra o Mário desaparece por uns dias, às vezes semanas. Quando regressa vem com o cabelo curto, barba feita e roupas mais limpas.
Depois volta tudo ao mesmo. Os tiques de contorcionista voltam a assombrar as madrugadas dos clientes do café, os rabiscos furiosos em cadernos e livros técnicos saídos de um baú de meados do século passado espalham-se pelas mesas da esplanada e vejo-me brindada novamente com conversas lindíssimas, mas sem nexo aparente que tento acompanhar enquanto o Mário se senta sem convite à mesa onde tomo o café.
Um dia disse-me de manhã, com um sorriso seráfico, “menina gosto muito de si” e nesse mesmo dia à hora de almoço, depois de umas quantas cervejas, trocadas por moedinhas que outros lhe deram a troco de sossego, insultou-me com meia dúzia de palavrões cabeludos.
Não duvidei por um instante da sinceridade das suas palavras da alvorada.
Da última vez que o Mário desapareceu esteve ausente durante muito tempo e senti-lhe a falta.
Ontem depois do almoço quando regressava ao trabalho, imersa em pensamentos pouco poéticos, ouvi-o chamar-me “menina!”. Quando me virei vi um Mário diferente. Os tiques tinham-se atenuado, as roupas estavam mais limpas que o costume, embora cobertas de noites ao relento, o cabelo curto a barba feita, os olhos brilhantes e um sorriso de felicidade estampado no rosto. “Menina, tenho uma coisa para lhe dizer! Deixei de beber álcool” e para o provar, quem sabe, segurava na mão esquerda uma garrafa de água em vez da usual garrafa de cerveja. “Já fez um mês… mas a pressão é muito grande, sabe menina…”. Eu devolvo-lhe o sorriso e aperto a mão imunda que me estende. Partilhámos então um instante de felicidade e senti naquele momento que aquela era a mão mais limpa que alguma vez tinha tocado.

Comments


  1. Porque não publicam – a Senhora e a Carla Romualdo – estes textos?

  2. Nascimento says:

    É pá ,esta “merda é tão humana”” ( Sartre), que até dá “raiva”… vamos lá publicar!!!


  3. Este Mangas…

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