Ceci n’est pas une Pipe

Parece contraditório, mas não há melhor nem mais eficaz processo de banalização de um objecto, ideia ou sujeito, do que a reprodução infinita da sua imagem.

Em primeiro lugar porque esse é um processo que assenta na redução da “coisa em si” a uma “imagem da coisa”, a uma projecção, havendo, no caminho, lugar à total degradação da sua autenticidade primeira que é, no cumprimento do propósito da redução, subtilmente convertida em Representação. “Ceci n’est pas une Pipe”.

Depois, porque a repetição ad nauseam da Representação satura a própria fonte da emoção humana, produzindo uma resposta neurofisiológica cada vez mais débil, em resultado da incorporação pelo hábito do padrão do estímulo. Desenvolve-se, como no caso das substâncias químicas causadoras de dependência física ou psicológica, uma tolerância que exige estímulos sempre mais fortes, produzidos em intervalos de tempo sempre mais curtos.

Fica para sempre adulterado o código interno que busca e produz continuamente a homeostase, tomada de assalto pela repetição da representação e incapaz de se reconectar com a “coisa em si”, seja essa coisa o mundo, seja a própria Consciência.

O verdadeiro narcotráfico do mundo de hoje não se limita às substâncias químicas sintetizadas em laboratório. Ele expandiu-se definitivamente para a síntese de estímulos sensoriais de enorme potência operativa, para a Repetição da Representação, estímulos esses indutores de estados químicos específicos no interior do corpo e, obviamente, no plano mais alargado da própria consciência humana.