A degenerescência da República

É perigosíssimo o circuito fechado da partidocracia, que tende a criar uma espécie de Estado paralelo não sujeito à vigilância ou julgamento democráticos. Os construtores deste Estado totalitário e paralelo, em tudo idêntico a uma grande associação secreta, perdem totalmente a noção do que é o país, sequer que ele existe, e vivem uma narrativa fechada sobre si própria, cuja lógica funcional é a da conquista, partilha ou manutenção do poder.

Isto é perigoso porque cresce exponencialmente no seio do povo um ódio mudo a tudo o que é partidariamente comprometido e aquilo que deveria ser a expressão legítima da cidadania republicana e democrática é visto como uma actividade criminosa e subversiva.
Hoje são os ministros que quase não conseguem sair à rua sem arriscarem a agressão. Amanhã será o simples militante partidário que será visto como símbolo de todo o mal que liquidou o país. Os partidos políticos perderam toda a capacidade de autocrítica porque perderam massa crítica. Fecharam-se ao exterior, desmantelaram a democracia interna e acabaram por expulsar do seu seio todas as vozes divergentes, as únicas capazes de alargar o repertório criativo das palavras e da acção. Vivem em autofagia e é evidente que acompanharão a degenerescência do país até ao ponto de se tornarem simplesmente insuportáveis. Nessa altura a violência eclodirá.


Comments

  1. Afonso Valverde says:

    Concordo com quase todos os aspectos que menciona. O partidos estão a portar-se como seitas. Fecham-se ao exterior. Aparecem nos tempos de eleições para nos manipular.
    Não aceitam mudanças na economia, na finança, na mudança democrática.

  2. Antero Seguro says:

    Este governo é mesmo a última oportunidade de dar credibilidade à República. Torna-se imperativo abanar esta estrutura caduca e putrefacta que chafurda num sistema onde a corrupção se vai passeando impune porque existe uma legislação armadilhada que a protege e ajuda a descredibilizar o próprio sistema democrático.

  3. cesar sousa says:

    Se o F.C.Porto tivesse dois defesas centrais com uma qualidade técnica equivalente à que o Bruno Santos tem a escrever,éramos campeões com mais de 20 pontos de avanço sobre a concorrência.
    Felicito-o !