Carta de amor a Lisboa


Lisboa

Normalmente não gosto de colocar aqui publicações do facebook mas esta notícia supera-me. Ainda tive uma vaga esperança que fosse mentira. Não é.  Vivo em Lisboa desde sempre. Os meus pais iam ao Jamaica. A minha mãe ainda vai. Ainda há uns meses estive no Europa.

O Diogo Faro tem toda a razão. A Lisboa que eu amo não é esta Lisboa dos hostels, dos tuk-tuk, dos rankings, dos mercados, do diabo a quatro mais um hamburguer gourmet. Não é que os hamburguers gourmet não sejam bons mas eu posso comer um hamburguer com um ovo, bacon e compota de frutos silvestres em qualquer sítio do mundo. O que não posso é ir ao Bairro Alto em qualquer sítio do mundo e sentar-me nos degraus das casas com um copo de plástico. E lá ficar pela madrugada dentro já depois dos bares terem cumprido a hora do fecho. O que não posso é ir ao Europa ou ao Jamaica em Londres, está bem? Não posso ir aos alfarrabistas da Baixa em Berlim. Não posso ir a Nova Iorque e passar à porta de uma tasca e ouvir um marmanjo invariavelmente bêbado embrulhado num fado vadio. Não posso ir ás Catacumbas no Rio de Janeiro. Não posso ir ao Japão comer ameijoas no Baleal. Não posso pagar uma renda altíssima e desajustada ao nível de vida dos Portugueses só porque vivo no Castelo ou em Alfama. Na Suécia eu não posso ver a placa do Eça mesmo por cima do Nicola. Não posso sentar-me nos degraus do Dona Maria à espera que a peça comece enquanto vejo a malta a brincar nas fontes do Rossio.

A Lisboa que eu amo é a Lisboa das tascas, dos eléctricos vazios às oito da noite ou oito da manhã (A única hora em que se apanha lisboetas no eléctrico) das discotecas na Rua Nova do Carvalho, daquele kiosque no Príncipe Real, a Lisboa dos putos a empoleirarem-se nos coretos, é a Lisboa em que o dono de um salão de cabeleireiro para homens sabe a que horas acaba a hora de almoço do alfarrabista do lado e da modista em frente, é a Lisboa em que os bairros são pequenas aldeias onde toda a gente se conhece, onde há donos de restaurantes que já vinham do tempo dos nossos pais, dos nossos avós. A Lisboa que eu amo é a Lisboa do Galeto, do Stop, do Jesus (Do Goês).  É a Lisboa dos casais a namorar na rua do Alecrim enquanto estorvam quem quer passar. A Lisboa que eu amo é a Lisboa em que se grita na Bica “O Bairro Alto é que é!” e sai um insulto de uma janela porque só um lisboeta é que sabe onde acaba a Bica e começa o Bairro Alto. A Lisboa que eu amo é a Lisboa das lojas empoeiradas e despretensiosas, com bustos do Eça e do Herculano. A Lisboa dos miúdos – e miúdas – a andarem à “boleia” na porta de trás dos eléctricos. A Lisboa do Bairro onde se encontra toda a gente. A Lisboa que eu amo é a Lisboa dos prédios antigos, mal pintados, todos diferentes e desalinhados, a Lisboa descuidada, que parece que acabou de acordar, a Lisboa da calma do café ao fim da tarde ali nas Arcadas do Martinho ou no Miradouro da Graça. A Lisboa que eu amo é a Lisboa que se galga e conhece a pé, com muito esforço, e não numa coisa acolchoada que só faz barulho.

A Lisboa que eu amo merece mais do que este planeamento ridículo, do “dá dinheiro então faz-se”, sem visão, sem futuro, sem nada. Uma visão que só pretende tornar Lisboa, a minha Lisboa, numa cidade genérica, igual ás outras que foram ganhando fama à custa de rankings e restaurantes com estrelas michelin. Uma Lisboa sem lisboetas. E não me lixem, mas os lisboetas fazem Lisboa, os lisboetas são Lisboa. Ignorantes, curiosos, mal-dizentes, bairristas, mal-educados ou educados de mais, doidos por novidades mas detestando a mudança, com um respeito indiferente pela diferença. Isto são os lisboetas. Lisboa é deles. É nossa. É minha. E estragarem-ma é que não permito. Nem admito.

 

Comments

  1. Anabela Magalhães says:

    Excelente post. Posso surripiar?

  2. Victor Piedade says:

    Compartilho a opinião e sentimento!

  3. Anabela Magalhães says:

    Obrigada!

  4. Escatota Biribó says:

    Quando se ouvia:
    “Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz ? My friends all drive Porsches, I must make amends. Worked hard all my lifetime, no help from my friends, So Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz ?…..”, sabia-se que a noite no Tokyo tinha acabado, era um clássico.

    Acompanhado pelos seus vizinhos Jamaica e Europa, resistiu aos 80’s, aos 90’s, à entrada no III milénio, à entrada na segunda década do III milénio.

    Os frequentadores iniciais, caso tenham tido descendência, serão actualmente e muito provavelmente avós.

    O Tokyo Sobreviveu a inúmeros governos, a inúmeras políticas, sobreviveu ao Escudo, sobreviveu às tendências, sobreviveu à moda, sobreviveu mais que os seus frequentadores, sobreviveu a doenças, em parte pela prática de servir bebidas em garrafas apenas descapsuladas, sobreviveu a pelo menos 3 Papas, e muitos mais lideres religiosos cujo posto ou o nome desconheço, mas ainda assim……….., cai às mãos da padronização global, e o espaço que antes ocupava, passa a ser mais um, indiferenciado, igual a tantos outros, apenas igual aos outros.

  5. Konigvs says:

    A algarvização e o mau gosto dos menus em inglês espalhou-se como o escaravelho da palmeira e rumou a norte. O que se escreveu sobre Lisboa poderia-se muito bem escrever, ainda que com uma pronúncia diferente, sobre o Porto.
    Ainda este fim-de-semana ouvia um padre dizer que na semana passada um sujeito comprou toda uma rua lá no Porto, e queria ainda anexar um monumento qualquer. E retive o que disse sobre o número de habitantes da Vitória. De oito mil desde que ele foi para aquela paróquia, para oitocentas pessoas hoje em dia. Estamos a falar de uma freguesia ali junto da Torre dos Clérigos. Oitocentas pessoas, 10% dos habitantes que já teve há quarenta anos, e estamos a falar da segunda maior cidade do país, e dessas pessoas, o padre ainda acrescentou que ainda dá refeições quentes a cento e tal, entre crianças e adultos.
    Mas quem passa e vê centenas de turistas de máquina fotográfica em riste, nunca que diria que há uma cidade a morrer por dentro.

    • ANA AMARAL says:

      Lisboa continua linda! esta situação é global, as cidades europeias começaram assim, hoje somos conhecidos e já não há volta a dar, nem que o médio oriente melhore a situação. Hoje somos conhecidos em todo o lado e os tempos são outros e fico contente por outras culturas gostarem de nós. Hoje os portugueses também gostam de conhecer e vão a Londres, Paris, Roma….O nosso dever é receber bem e ensinar a quem destrói os deveres cívicos e o saber estar!

  6. o Tokyo paga 400 e o jamaica 200 paus de renda ….e a culpa é dos capitalistas dos senhorios … esses porcos fascistas que recebem essas rendas faraónicas à decadas

  7. Ruben says:

    Essa é a verdadeira Lisboa! Que continua assim. Continua a ser verdadeira. Falando como um pequeno empresário do ramos turístico, todos os meus clientes dizem que Lisboa é superior á maioria das cidades europeias por ser ainda verdadeira. Que podem apreciar o dia-a-dia dos habitantes da cidade. Que é uma cidade pura.
    Nem tanto ao mar nem tanto á terra. As cidades, mesmo Lisboa, da Mouraria, Alfama e Bairro Alto, terá de absorver os sinais dos tempos actuais. Obvimente que o Turismo e os turistas são benéficos para a cidade. principalmente agora com a Taxa Turística de Dormida. Há que haver um equilíbrio. Um planeamento bem feito.

  8. Gilinhopt says:

    Choram-se por isso?!? Meus srs falamos de Algoma mais grave…concentrem-se na notícia e mais…falta aqui o complemento sobre o desfecho do despacho que a camera de Lisboa autorizou para a retirada da calçada portuguesa…o que e de lamentar pois e um dos nossos grandes traços urbanísticos…

    • Finalmente! A calçada é e sempre foi uma merda. É só buracos e lombas e é sujo e é ainda mais terrível para as pessoas mais velhas. Um piso confortável vai trazer muito mais qualidade de vida a todos e permite outro tipo de organização dos serviços e tubagens debaixo dos passeios.

  9. Fernando says:

    Drama.Parece-me um bocado dramático pensar assim só porque vão fechar locais emblemáticos de Lisboa.Desde que me lembro já fecharam Alcântara Mar, jukebox,Sudoeste,Fragil,Três Pastores,Kremlin entre outros.Embora uns me digam mais que outros TODOS marcaram Lisboa.E fecharam.E Lisboa continuou.

  10. Não diz como não admite. Será que há alguma manifestação, petição, ou outra/s ACÇÃO preparada? Caso haja conte comigo.Palavras são importantes mas, leva-as o vento.Infelizmente não sei como iniciar QQ tipo de mobilização. Quando Lisboa só tiver hotéis e hosteles, ficamos sem a galinha dos ovos de ouro

  11. É a Lisboa da CALÇADA PORTUGUESA.que NPS deveriam explicar muito bem porque a estão a substituir.SE houver alguma acção em curso (petição, ou outra forma de intervenção), agradeço que me informem.

  12. Acabei de ter conhecimento e assinar petição.

  13. Paulo Oliveira says:

    Precisamos dos turistas, mas não abusem dos lisboetas. Amanhã voltam para o médio oriente e nos ficamos com os monos abandonados!!! Entretanto destruíram os ícones lisboetas, que fazem parte da nossa vida e que nos agarram a esta linda cidade.

  14. LOL. Que tolice. Essa é a Lisboa dos anos 80 e 90, porca e mal-cheirosa como António Costa a deixou. O Jamaica era giro, mas só tinha Super Bock. Há coisas melhores do que “a noite” imunda de LX. Já que são tão aldeões venham para o campo onde a noite é profunda e longa e deixem a cidade para ser cidade, rápida e moderna.

  15. Esmeralda Almeida says:

    E é isto….

  16. josé gonçalves Roger says:

    Lisboa está a desfalecer… abre os braços aos turistas e deixa na rua os sem abrigo, que só têm direito às estações de metro, quando a temperatura , fica abaixo de 4 graus … o Turista passeia, encharca a cidade, faz subir os preços, aumenta a oferta das dormidas …e de máquina de fotos em punho fotografa tudo… procura os melhores ângulos , ( vamos ter visitas destas por muito tempo) … que venham em Agosto e que se vão embora em Setembro … assim já não andamos como formiga no carreiro …

  17. Joaquim Rodrigues says:

    Completamente de acordo!!

  18. Carlos Correia says:

    Alguém já leu o conto da galinha dos ovos de ouro? Estamos a vivê-lo em Lisboa. Quando Lisboa for igual a qualquer cidade, para onde irão os turistas ?

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