A química da notícia

Diz-se, mas só Deus, misericordioso, altíssimo e justo, o sabe com certeza infinita, que foi um médico quem criou o primeiro jornal.
Na busca incessante por métodos terapêuticos mais eficazes, que ajudassem os seus doentes a superar mais rapidamente as maleitas de que padeciam, o médico achou que se todos os dias desse aos seus pacientes boas notícias, escritas com letra de imprensa num folheto A4 que logo pela manhã distribuía num tabuleiro, ao lado do sumo de manga siberiana e dos bolinhos de Girimú, os ajudaria a melhorar o ânimo.

O ânimo, dizia o clínico, era um factor decisivo na recuperação da saúde, por via das alterações que provocava no ambiente químico interno dos pacientes, aumentando a produção de endorfinas e fortalecendo o seu sistema imunitário. Um grande feito desportivo, um dito de espírito de um bobo ou de um grande escritor, uma descoberta científica pré-histórica, a beleza plural de uma floresta, o som inconfundível do mar em dias de tempestade, tudo era susceptível de gerar uma notícia animadora, boa de ser lida, capaz de transformar um momento triste num sorriso instantâneo e alterar a face do mundo. Pelo menos a impressão dessa face.
O sucesso foi de tal ordem que, um dia, o folheto A4 trouxe, pela primeira vez, uma notícia triste. A clínica tinha uma lista de espera de mil doentes. Todos queriam submeter-se ao tratamento das boas-novas percursoras da Homeostase.
Mostra esta pequena história que a primeira e última função da Notícia, o seu efeito mais íntimo e imediato, é a sua acção sobre o meio interno do organismo, sobre as glândulas endócrinas, os neurotransmissores, a tensão arterial, o ritmo cardíaco, o Ph, a oxigenação e por aí adiante. E se a Notícia pode ser dada como aquele bom médico fazia, no sentido de avivar, de animar, de oferecer esperança e alegria a quem a saúde falta, também o contrário é possível. Também é possível usar a Notícia para desanimar, entristecer, amedrontar.

É tudo uma questão Química.

Comments

  1. Ana A. says:

    De certeza que esse bom médico não tinha interesses na indústria farmacêutica…

  2. joão lopes says:

    eis um exemplo de uma boa noticia:portuguesa ganha premio para melhor curta em Berlin.ou seja,nem sempre partir batraquios é uma má opção.